Grife de carnes vende peças de animais criados em “spa bovino”

No açougue Beef Passion, há cortes vindos de fazenda que toca música clássica e tem 'futebol' para o gado 

O elegante ambiente de 330 metros quadrados é assinado pelo badalado arquiteto Alessandro Bergamin. As paredes de tijolo são decoradas por telas com desenhos grafitados. Quem passa pela frente do número 229 da Rua Barão de Tatuí, em Higienópolis, pode imaginar que o local abriga uma sofisticada galeria de arte. Somente ao descer as escadas e encontrar quatro freezers abarrotados de carne, descobre-se que o espaço é um açougue. No caso, uma casa “superpremium”.

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Na Beef Passion, 1 quilo de picanha custa até 240 reais, cinco vezes acima da média de mercado. Até o popular acém machuca o bolso. Um naco custa 140 reais. A dona do pedaço colabora para a sensação de ineditismo. Aos 29 anos, a empresária Amalia Sechis foge do estereótipo do apreciador de um bom bife. Principalmente porque, até poucos anos atrás, era uma vegetariana convicta.

Filha do pecuarista Antônio Ricardo Sechis, ela passou quase uma década sem comer carne, a partir dos 14 anos. Um pouco pela repulsa em ingerir a carne de um animal e outro tanto pela aflição em consequência de sentir a textura do alimento na boca. Assim, era a única integrante da família a esnobar o famoso churrasco do Bigode, apelido de seu pai. Trabalhar na área de carnes era algo impensável. Em 2006, no entanto, tomou coragem e visitou a criação da família pela primeira vez. Encantada pelo negócio, voltou a abocanhar filés e, algum tempo depois, juntou-se aos irmãos, Julia, 27, e Ricardo, 20, para criar a grife Beef Passion.

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O primeiro ponto de venda foi o Empório Santa Maria, no Itaim, em 2009. Dali, expandiu para outros locais e dobrou a distribuição nos últimos dois anos. Hoje são 120 endereços no país, com cinquenta em São Paulo. A marca ampliou sua rede na esteira do crescimento do setor de açougues gourmets na capital. Ao longo dos últimos anos, conquistou uma boa quantidade de clientes badalados. Entre eles estão as casas de Alex Atala, como D.O.M, Dalva e Dito e Açougue Central. “É um trabalho muito consolidado de busca pelo ‘melhor boi do mundo’”, diz o chef. Outros fregueses na capital são o Sal Gastronomia, de Henrique Fogaça, e os hotéis Unique e Fasano.

Aberta em 2011, a loja própria é hoje responsável por um terço do faturamento da empresa, que será de 7,2 milhões de reais em 2016 (50% maior que o de 2015). Amalia trabalha agora em uma ampliação. Na metade do ano que vem, deve inaugurar um restaurante em seu espaço em Higienópolis. Além disso, planeja abrir outros pontos próprios, no Itaim e na Vila Olímpia, e acertar parcerias para levar suas peças para países como Estados Unidos, Portugal e Singapura.

A marca recebe matéria-prima de quatro fazendas. Uma das principais é a Recanto Vó Cidinha, em Nhandeara — cidade natal de Amalia, na região de São José do Rio Preto, a 511 quilômetros da capital —, onde os currais de engorda são estampados com a placa “Spa Bovino” (veja detalhes no quadro abaixo). Por ali, alto-falantes reproduzem música clássica e nebulizadores aspergem água para refrescar os animais. Para socializar, o rebanho “joga bola” pelo menos uma vez por semana.

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O abate ocorre em Ipuã, a 412 quilômetros da capital, com um tiro de ar comprimido na testa, método aplicado durante a madrugada para reduzir o estresse dos bichos. O resultado é uma carne com pouca gordura saturada. “Eles têm uma vida de regalias, não enfrentam doenças e morrem sem sofrer”, afirma Amalia. O processo levou a Beef Passion a receber o prêmio de empresa campeã em sustentabilidade da ONG americana Rainforest Alliance, que será entregue em cerimônia em maio de 2017, em Nova York. “Ninguém cria um boi como a gente”, garante a empresária.

VIDA DE GADO

A criação vip dos animais é um dos trunfos da marca

> São cerca de 20 000 cabeças de gado em spas bovinos em quatro fazendas

> No confinamento, os animais ouvem música clássica, jogam bola pelo menos uma vez por semana e são abatidos de madrugada para evitar o estresse

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> Por causa do estilo de criação, a empresa conseguiu o selo de “produção premium sustentável” da ONG americana Rainforest Alliance

> Cada corte custa mais que o triplo do preço cobrado pelos demais açougues

> Há cerca de cinquenta pontos de venda na cidade, como o D.O.M, de Alex Atala, e o Lilu, de André Mifano

> O faturamento em 2016 será de 7,2 milhões de reais, 50% maior que o do ano anterior

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