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Por Saulo Yassuda
O jornalista Saulo Yassuda cobre cultura e gastronomia. Faz críticas de bares na Vejinha desde 2014. Dá pitacos sobre vinhos, destilados e outros assuntos
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Após polêmica, bar vizinho a igreja muda de nome e retira elementos religiosos da decoração

O boteco, que se chamava Confessionário, tinha até um genuflexório, aquele suporte para ajoelhar durante as preces

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Atualizado em 29 jul 2022, 11h51 - Publicado em 29 jul 2022, 06h00

O boteco vizinho da tradicional Paróquia Nossa Senhora do Monte Serrate, em Pinheiros, se chamava Confessionário. A carta tinha drinques com nomes como “pecador”. O salão ostentava em frente ao balcão um genuflexório, o suporte para ajoelhar durante as preces. E as paredes se mostravam repletas de fotos de templos religiosos.

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Esse conjunto de elementos sacros, que para os donos parecia uma ótima estratégia de marketing e atraía principalmente o público mais jovem do agitado Largo da Batata, deu o que falar na comunidade católica. Ofendidos, muitos fiéis da igreja adjacente reclamaram com o pároco. Foi um quiproquó danado. Após a repercussão, o bar teve de ceder. Mas não foi fácil. “Não é só trocar os quadros e o cardápio — é trocar o conceito”, explica o sócio Jean Ponce.

O resultado: o estabelecimento passou por um rebatismo e virou Bar do Toninho — a placa deve ser pregada até 10 de agosto. Todas as referências ligadas à religião foram espinafradas. Jean renomeou as bebidas — “pecador”, por exemplo, foi transformado em um inócuo “viola”. Essas alterações aconteceram aos poucos, sem muito alarde.

O ambiente antes da alteração: genuflexório no salão
O ambiente antes da alteração: genuflexório no salão (Clayton Vieira/Veja SP)

Quem aparecia ali nos últimos três ou quatro meses já não via mais o tal do apoio de joelhos, antes utilizado para fotografias ébrias por alguns frequentadores. “Foi para a manutenção”, despistavam os funcionários. As camisetas dos garçons, que outrora exibiam a inscrição “ninguém é santo”, surgiam riscadas. Algo estava acontecendo. “A troca de nome é ruim, mas a gente tentou fazer isso ser positivo. Tivemos muita conversa com a igreja”, conta Jean.

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Responsável pela paróquia desde 2019, o padre Vandro Pisaneschi começou a receber as queixas logo com a chegada do vizinho boêmio, em fevereiro. As razões eram, sobretudo, em relação ao nome do local, herdado de um café que funcionou ali, e à decoração temática. Uma das abordagens em particular marcou o religioso.

“Um paroquiano, dos mais idosos, de uns 80 anos, veio trazer um recorte de jornal sobre a abertura do bar. O senhor estava triste, me deu o papel até meio que tremendo, e o texto trazia esses detalhes da casa”, relata o sacerdote. “Eu esperava que tivesse uma repercussão mais negativa de outras partes da igreja. Como era algo público e saiu em reportagem, era questão de tempo para outros padres virem me cobrar.”

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No entanto, isso não ocorreu, já que foi procurado antes por um dos sócios do endereço. “Jean já começou a falar de cara: se é motivo de tristeza, mudaremos o nome”, conta. “Hoje em dia, as coisas (no Brasil) estão muito exacerbadas. Se vamos conversar sobre um ponto divergente, pode acontecer qualquer tipo de reação. A deles foi muito amistosa e cordial”, elogia o pároco. “Me surpreendi.”

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Jean conta seu lado: “No início, o padre havia se ofendido. Mas nos colocamos no lugar dele. E precisamos conviver bem — estamos lá (no bar) todos os dias”. E admite: “A gente começou errado, eu poderia ter ido lá conversar antes”.

Essa política da boa vizinhança também representa, de certa forma, a sobrevivência financeira do ponto boêmio. Como tem apenas nove lugares no
salão, o boteco depende das dez mesas que são dispostas na lateral do templo, do outro lado do número 86 da Rua Campo Alegre — cabem, ainda, outras dez na calçada do estabelecimento. Qualquer rusga com a igreja seria um gatilho para fazer os religiosos implicarem com as cadeiras, e o ex-Confessionário, que tem alguns sócios em comum com o bar Guarita, perderia quase metade do faturamento.

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Mesmo assim, esses assentos contíguos ao santuário só podem ser ocupados após as missas. Aos sábados, dias em que o bar abre às 3 da tarde, a freguesia recebe a permissão de se sentar do lado de lá só por volta das 20h. Isto é, nas noites em que não ocorrem atrasos. No último dia 23, excepcionalmente, o espaço só foi liberado por volta das 21h30, quando as luzes da paróquia se apagaram.

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E quem é o tal do Toninho, presente na nova alcunha do botequim? É Antonio Ponce, pai de Jean, que já ajudava no dia a dia e, tal qual o filho, é católico. “Além de ser uma homenagem ao meu pai, com a mudança ele se torna sócio operacional, a partir de 10 de agosto. Ficará na casa em algumas noites”, anuncia o empresário.

Jean com o pai
Jean Ponce com o pai, Toninho, na produção da cachaça da casa: novo homenageado (Arquivo Pessoal/Reprodução)

O padre Vandro aguarda o retorno da dupla, que está em viagem de férias, para finalmente conhecer o ex-Confessionário. “Em nenhum momento a ideia é que eu me oponha a um estabelecimento onde a intenção é fazer as pessoas conversarem, falarem sobre a vida e descontraírem”, garante. “Fico à disposição: se eles quiserem colocar no cardápio um ‘petisco do padre’, podem colocar”, diz. A dupla sacerdote e dono de bar tem até planos futuros. Quem sabe uma festa junina da igreja, com chefs de cozinha? A ver.

Se as relações com o Confessionário se tornaram amistosas antes de as desavenças se firmarem, não é possível dizer exatamente o mesmo do vizinho Bar das Batidas. Aberto em 1957, o pé-sujo é conhecido popularmente como C do Padre. “Como o bar é mais antigo (que o ex Confessionário), muito mais gente vem falar comigo a respeito”, diz o padre Vandro.

Luiz Carlos Bianchi, que cuida da operação do boteco sessentão desde 2010, assegura que pintou a porta virada para a paróquia, que continha o nome polêmico. “Vou tirar a letra ‘C’ do toldo, e o padre ficará feliz”, promete. “Segundo a lenda, quem apelidou de ‘C do Padre’ foi Raul Seixas”, jura ele.

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Publicado em VEJA São Paulo de 3 de agosto de 2022, edição nº 2800

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