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Notas Etílicas - Por Saulo Yassuda

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O jornalista Saulo Yassuda cobre cultura e gastronomia. Faz críticas de bares na Vejinha há dez anos. Dá pitacos sobre vinhos, destilados e outros assuntos

Mercado de drinques sem álcool cresce com versões premium e até proteica

Marcas e bares aprimoram cartas, fazem misturas customizáveis, coquetéis prontos e versões fit

Por Saulo Yassuda Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 abr 2026, 06h00 •
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O pepita fizz do bar Setim: com ou sem vodca (Juan Cazes/Divulgação)
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  • O mercado de drinques sem álcool, que para muitos estabelecimentos é sinônimo de incluir meia dúzia (tantas vezes, menos) de misturas que lembram sodas ou sucos na carta, tem se diversificado e aprimorado. Junto a bares de alta coquetelaria que têm usado o cérebro para criar coquetéis cada vez mais complexos sem destilados e que tais, vão aparecendo casas especializadas no assunto, bebidas prontas e até versões funcionais.

    Recém-aberto em Pinheiros, o Setim chegou com a proposta de ser um bar “flex”. Uma parte dos coquetéis da carta lança mão de bebidas como vermutes e vinhos, menos “fortes” que aguardentes, para ter uma gradação alcoólica menor. A outra parcela é de receitas sem álcool nenhum. Mas o cliente pode pedir para adicionar meia ou uma dose inteira de destilado, ao próprio gosto, por uma taxa extra.

    O pepita fizz, por exemplo, leva leite de semente de abóbora, limões taiti e siciliano, clara de ovo, soda limonada e bitter de laranja, com ou sem vodca. “Você pode seguir a noite da forma que quiser”, indica a sócia Amanda Socha.

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    Drinque proteico: do Resid Bar (Divulgação/Divulgação)

    No Resid Bar, nos Jardins, não bastava uma carta de mocktails (ou misturas não alcoólicas) reformulada — algumas delas precisavam ter alguma funcionalidade. Foi assim que se chegou ao aurora, um coquetel feito com… whey protein, acredite. No lugar de uma textura de shake, ele fica fluido, como um martíni. O gosto lembra um pouco o de suco artificial de frutas vermelhas, mas não deixa aquele rancinho da proteína na boca, ainda bem. Na fórmula há ainda morango, limão-taiti, água de coco e hortelã.

    “A gente tem muito isto na cabeça de quantos gramas de proteína vai consumir”, assume Claudia Ribeiro Bernstein, uma das fundadoras e sócia do Resid Club & Hotels. O drinque, a propósito, tem 20 gramas de proteínas e vem ainda com uma jujuba de creatina.

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    “No futuro, quero colocar na carta drinques que tenham a ver com o teu mood: um dia que você esteja ansioso e ele dê uma acalmada; ou opções que vão ajudar no teu metabolismo ou dar um boost de energia”, planeja.

    Nessa seara de coquetelaria sem álcool e até funcional, chegam ainda as bebidas prontas para serem tomadas também em casa. O Lucia é um aperitivo que leva cupuaçu e ingredientes como ginseng, valeriana, jambu, gengibre e cítricos. A primeira batelada, de 100 000 litros, foi vendida em três lotes no ano passado, todos esgotados. Quase 100 000 interessados (interessadas, aliás, em sua maioria) estão inscritos numa lista de espera, que deve começar a ser atendida a partir do fim deste mês, quando mais garrafas, agora elaboradas em quantidades industriais, devem chegar a mercados como Casa Santa Luzia e Carrefour.

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    Aperitivo Lucia: de tanta procura, esgotou (Estúdio Dupac/Divulgação)

    A empresa projeta um faturamento de 10 milhões de reais em um ano de lançamento, a ser completado em agosto. “A gente sentiu a necessidade de ter uma bebida que se assemelhasse ao álcool na parte sensorial”, diz Victória Linhares, sócia de Lucia. Até chegar à fábrica, a fórmula, que teve nomes como a bartender Michelly Rossi (Grupo Bernacca) e José Luiz Soares, da plataforma Do Pão ao Caviar, na concepção da receita, passou por mais de quarenta ajustes. “É muito difícil você extrair o sabor das plantas e das ervas sem o uso de álcool e ter um drinque que não fosse um chazinho”, acredita Bertha Jucá, que assim como a sócia Victória é influenciadora digital. “Nossa linha vai crescer neste ano”, prometem.

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    O bartender Márcio Silva, do bar Exímia, também desenvolveu, com os sócios Alexandre Mazza e João Mazza, sua própria fórmula, o Santa, um destilado sem álcool nem adição de açúcar, que está em análise em laboratório para sair para a venda, que deve rolar no segundo semestre, no Brasil e no exterior. “É uma demanda de público em escala mundial.”

    Marcelo Serrano, outro bartender premiado, também investe na seara, mas em sodas chamadas de fit, para utilizar em misturas, da marca Misty. “A demanda mundial pede bebidas do gênero e também há a tendência para consumo de zero álcool ou low alcohol”, diz.

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    Marcelo Serrano: sodas sem açúcar (Agência Make/Divulgação)

    Segundo empresários e especialistas consultados para a reportagem, o público de bar parece cada vez mais consciente com o que ingere, em um universo onde órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) têm reforçado que não existe nível completamente seguro de consumo de álcool, e o público mais jovem hoje se interessa menos por fermentados e destilados. O uso de canetas emagrecedoras também pode ter impactado nessa maior preocupação. “É comportamental, não é tendência”, diz Bertha.

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    De acordo com pesquisa Ipsos-Ipec feita a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), 64% dos adultos brasileiros afirmaram não beber em 2025, ante 55% registrados em 2023. É um futuro de maior sobriedade que se anuncia. ■

    Publicado em VEJA São Paulo de 10 de abril de 2026, edição nº 2990.

     

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