Fraisier
Na temporada dos morangos, o clássico francês Fraisier ganha uma versão mais leve, com chantilly de mascarpone no lugar do tradicional creme mousseline
Setembro, no Brasil, é sinônimo de morango. É quando as bandejas ficam mais vermelhas, mais baratas e mais doces nas feiras, e é exatamente por isso que decidi que este era o momento certo para falar do Fraisier — o bolo francês que, mais do que qualquer outro, foi feito para essa fruta e só para ela. Se existisse um bolo com estação do ano, seria este.
O nome já entrega a intenção: vem de fraise, morango em francês, e não há disfarce nenhum: o bolo existe para exibir a fruta, cortada ao meio e alinhada na lateral, à mostra. É um bolo confeitado para ser visto e admirado antes de ser comido.
A origem, como quase tudo que é bom e antigo na pâtisserie francesa, é nebulosa. E vale contar em três momentos, porque nenhum deles, isolado, é o Fraisier que conhecemos hoje.
O primeiro é de Auguste Escoffier, no início do século XX. Seu Guide Culinaire, de 1903, não traz um “Fraisier” propriamente dito — é preciso dizer isso com honestidade, porque a lenda de que ele “inventou” o bolo é mais bonita do que verdadeira. O que existe são receitas dispersas que combinam morangos crus, kirsch e massa, o tipo de composição que, décadas depois, os confeiteiros olhariam para trás e reconheceriam como ancestral. Escoffier não fez o bolo; ele deixou os ingredientes espalhados na mesa.
O segundo momento pertence a Pierre Lacam, confeiteiro e historiador da pâtisserie francesa, que no começo do século XX deu um passo além: uma massa tipo pão de ló embebida em kirsch, coberta de morangos. Já é possível reconhecer o esqueleto do bolo atual e só faltava o recheio que o tornaria icônico.
E o terceiro momento, esse sim decisivo, é 1966, quando Gaston Lenôtre (outro gigante da confeitaria francesa ) apresenta o bolo que batizou de Bagatelle, em homenagem ao Jardim de Bagatelle, em Paris. Para mim, é a receita de Lenôtre que fixa a fórmula: génoise dupla embebida em kirsch, um generoso recheio de creme mousseline (aquele creme de confeiteiro batido com manteiga), morangos frescos nas laterais e, por cima, uma fina capa de marzipan. É essa receita, e não a de Escoffier, que o mundo passaria a chamar de Fraisier.
De lá para cá, o bolo não parou quieto. Pierre Hermé, Christophe Felder, Cyril Lignac… Cada confeiteiro francês de peso parece ter sentido a obrigação de assinar sua própria versão, geralmente trocando o creme mousseline por um creme patissier mais leve, ou substituindo o marzipan por chantilly, por geleia de morango, por suspiro. O Fraisier virou aquele tipo raro de clássico que permite reinterpretação sem perder a identidade, desde que a genoise, o kirsch e os morangos à mostra continuem lá.
E é aqui que entra a minha versão, que devo confessar de cara que não é a mais ortodoxa. Trocar o creme mousseline (ou o patissier) por um chantilly de mascarpone é uma escolha deliberada, não um atalho envergonhado. O creme mousseline pede um domínio de temperatura e ponto que intimida qualquer cozinha doméstica — e o resultado, quando erra, é um recheio que talha ou desmancha. Já o chantilly de mascarpone é generoso com quem erra: bate rápido, estabiliza fácil, e ainda traz uma acidez suave que conversa muito bem com o morango, sem pedir de você o rigor de uma confeitaria profissional. Ganha-se em praticidade sem perder em prazer. E, no fim, prazer é a única coisa que um bolo precisa entregar de verdade.
Para a massa genoise
4 ovos
120 g de açúcar
5 g de extrato de baunilha ( 1 colher de chá)
125 g de farinha de trigo
20 g de manteiga derretida e fria
Bata os ovos com açúcar por 10 minutos na batedeira, até que fiquem muito fofos e volumosos. Preaqueça o forno a 180 graus e unte duas formas redondas de 20 cm de diâmetro de fundo removível . Peneire a farinha sobre a mistura aos poucos e mexa com a ajuda de uma espatula, fazendo movimentos de baixo para cima, para incorporar a farinha sem perder o volume. Coloque uma pequena porção da massa ( o equivalente a umas três colheradas ) em uma tigela, junte a baunilha e a manteiga e misture bem. Em seguida, junte esta porção ao restante da massa, misturando novamente com movimentos de baixo para cima, para incorporar e manter o máximo do volume de ar. Divida a massa nas duas formas e leve para assar até que esteja dourado, crescido e se pressionada com o dedo a massa faça um movimento de vai e vem.
Retire do forno e deixe esfriar
Chantilly de mascarpone
350 g de queijo mascarpone
250 g de creme de leite fresco gelado
100 g de açúcar
5 g (1 colher de cha) de gelatina em pó sem sabor
20 ml de água fria
Polvilhe a gelatina sobre a água e deixe hidratar. Enquanto isso, leve o creme de leite, o mascarpone e o açúcar a batedeira. Bata até ficar cremoso. Quando começar a engrossar, derreta a gelatina no microondas ( por 10 segundos ), mexa para esfriar e despeje no creme com a batedeira ligada em velocidade alta. Bata até o ponto de chantilly.
Compota de morangos
200 g de morangos frescos picados
50 g de açúcar
Leve os dois ingredientes ao fogo medio alto, deixe ferver e soltar o suco. Desligue o fogo e deixe esfriar.
Montagem
250 g de morangos frescos
100 ml de água
50 g de açúcar
30 ml de kirsch
Lave e seque os morangos, retire as folhas e corte ao meio pelo comprimento. Leve ao fogo agua, açúcar e kirsch e deixe ferver. Desligue e deixe esfriar.
Na forma de 20 cm de diâmetro e fundo falso, forre as laterais com uma tira de acetato. Coloque um dos bolos, umedecendo com a calda de kirsch. Reserve dois morangos para a finalização, e coloque os demais em pe, nas laterais da forma, com a parte cortada para fora e apoiada na folha de acetato. Coloque uma porção do chantilly nas laterais, prendendo os morangos. Escorra os morangos da compota, reservando a calda, e coloque os pedaços de fruta no centro do bolo. Complete com mais chantilly e a outra camada de bolo. Cubra com uma camada fina de chantilly e leve a geladeira até firmar ( por pelo menos 5 horas ). No momento de servir, coloque o fraisier em um prato, retire a tira de acetato e espalhe a calda de morangos reservada no topo. Decore a gosto.







