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Otavia Sommavilla é confeiteira especializada em decoração artística de bolos, além de professora, criadora de conteúdo digital e autora de livros. Aos sábados nesta coluna ela vai falar da sobremesa e ampliará o leque, dividindo com os leitores truques e curiosidades sobre a confeitaria, desvendando trends e ensinando receitas desejadas

Fraisier

Na temporada dos morangos, o clássico francês Fraisier ganha uma versão mais leve, com chantilly de mascarpone no lugar do tradicional creme mousseline

Por Otavia Sommavilla 19 set 2026, 08h00
Bolo de morango com duas camadas de massa clara, recheio de creme branco e fatias de morango na lateral, coberto com gelatina vermelha e decorado com chantilly e morangos frescos no topo, sobre um suporte branco
 (Otavia Sommavilla/Veja SP)
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Setembro, no Brasil, é sinônimo de morango. É quando as bandejas ficam mais vermelhas, mais baratas e mais doces nas feiras, e é exatamente por isso que decidi que este era o momento certo para falar do Fraisier — o bolo francês que, mais do que qualquer outro, foi feito para essa fruta e só para ela. Se existisse um bolo com estação do ano, seria este.

O nome já entrega a intenção: vem de fraise, morango em francês, e não há disfarce nenhum: o bolo existe para exibir a fruta, cortada ao meio e alinhada na lateral, à mostra. É um bolo confeitado para ser visto e admirado antes de ser comido.

A origem, como quase tudo que é bom e antigo na pâtisserie francesa, é nebulosa. E vale contar em três momentos, porque nenhum deles, isolado, é o Fraisier que conhecemos hoje.

O primeiro é de Auguste Escoffier, no início do século XX. Seu Guide Culinaire, de 1903, não traz um “Fraisier” propriamente dito — é preciso dizer isso com honestidade, porque a lenda de que ele “inventou” o bolo é mais bonita do que verdadeira. O que existe são receitas dispersas que combinam morangos crus, kirsch e massa, o tipo de composição que, décadas depois, os confeiteiros olhariam para trás e reconheceriam como ancestral. Escoffier não fez o bolo; ele deixou os ingredientes espalhados na mesa.

O segundo momento pertence a Pierre Lacam, confeiteiro e historiador da pâtisserie francesa, que no começo do século XX deu um passo além: uma massa tipo pão de ló embebida em kirsch, coberta de morangos. Já é possível reconhecer o esqueleto do bolo atual e só faltava o recheio que o tornaria icônico.

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E o terceiro momento, esse sim decisivo, é 1966, quando Gaston Lenôtre (outro gigante da confeitaria francesa ) apresenta o bolo que batizou de Bagatelle, em homenagem ao Jardim de Bagatelle, em Paris. Para mim, é a receita de Lenôtre que fixa a fórmula: génoise dupla embebida em kirsch, um generoso recheio de creme mousseline (aquele creme de confeiteiro batido com manteiga), morangos frescos nas laterais e, por cima, uma fina capa de marzipan. É essa receita, e não a de Escoffier, que o mundo passaria a chamar de Fraisier.

De lá para cá, o bolo não parou quieto. Pierre Hermé, Christophe Felder, Cyril Lignac… Cada confeiteiro francês de peso parece ter sentido a obrigação de assinar sua própria versão, geralmente trocando o creme mousseline por um creme patissier mais leve, ou substituindo o marzipan  por chantilly, por geleia de morango, por suspiro. O Fraisier virou aquele tipo raro de clássico que permite reinterpretação sem perder a identidade, desde que a genoise, o kirsch e os morangos à mostra continuem lá.

E é aqui que entra a minha versão, que devo confessar de cara que não é a mais ortodoxa. Trocar o creme mousseline (ou o patissier) por um chantilly de mascarpone é uma escolha deliberada, não um atalho envergonhado. O creme mousseline pede um domínio de temperatura e ponto que intimida qualquer cozinha doméstica — e o resultado, quando erra, é um recheio que talha ou desmancha. Já o chantilly de mascarpone é generoso com quem erra: bate rápido, estabiliza fácil, e ainda traz uma acidez suave que conversa muito bem com o morango, sem pedir de você o rigor de uma confeitaria profissional. Ganha-se em praticidade sem perder em prazer. E, no fim, prazer é a única coisa que um bolo precisa entregar de verdade.

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Para a massa genoise

4 ovos

120 g de açúcar

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5 g de extrato de baunilha ( 1 colher de chá)

125 g de farinha de trigo

20 g de manteiga derretida e fria

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Bata os ovos com açúcar por 10 minutos na batedeira, até que fiquem muito fofos e volumosos. Preaqueça o forno a 180 graus e unte duas formas redondas de 20 cm de diâmetro de fundo removível . Peneire a farinha sobre a mistura aos poucos e mexa com a ajuda de uma espatula, fazendo movimentos de baixo para cima, para incorporar a farinha sem perder o volume. Coloque uma pequena porção da massa ( o equivalente a umas três colheradas ) em uma tigela, junte a baunilha e a manteiga e misture bem. Em seguida, junte esta porção ao restante da massa, misturando novamente com movimentos de baixo para cima, para incorporar e manter o máximo do volume de ar. Divida a massa nas duas formas e leve para assar até que esteja dourado, crescido e se pressionada com o dedo a massa faça um movimento de vai e vem.

Retire do forno e deixe esfriar

Chantilly de mascarpone

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350 g de queijo mascarpone

250 g de creme de leite fresco gelado

100 g de açúcar

5 g (1 colher de cha) de gelatina em pó sem sabor

20 ml de água fria

Polvilhe a gelatina sobre a água e deixe hidratar. Enquanto isso, leve o creme de leite, o mascarpone e o açúcar a batedeira. Bata até ficar cremoso. Quando começar a engrossar, derreta a gelatina no microondas ( por 10 segundos ), mexa para esfriar e despeje no creme com a batedeira ligada em velocidade alta. Bata até o ponto de chantilly.

Compota de morangos 

200 g de morangos frescos picados

50 g de açúcar

Leve os dois ingredientes ao fogo medio alto, deixe ferver e soltar o suco. Desligue o fogo e deixe esfriar.

Montagem

250 g de morangos frescos

100 ml de água

50 g de açúcar

30 ml de kirsch

Lave e seque os morangos, retire as folhas e corte ao meio pelo comprimento. Leve ao fogo agua, açúcar e kirsch e deixe ferver. Desligue e deixe esfriar.

Na forma de 20 cm de diâmetro e fundo falso, forre as laterais com uma tira de acetato. Coloque um dos bolos, umedecendo com a calda de kirsch. Reserve dois morangos para a finalização, e coloque os demais em pe, nas laterais da forma, com a parte cortada para fora e apoiada na folha de acetato. Coloque uma porção do chantilly nas laterais, prendendo os morangos. Escorra os morangos da compota, reservando a calda, e coloque os pedaços de fruta no centro do bolo. Complete com mais chantilly e a outra camada de bolo. Cubra com uma camada fina de chantilly e leve a geladeira até firmar ( por pelo menos 5 horas ). No momento de servir, coloque o fraisier em um prato, retire a tira de acetato e espalhe a calda de morangos reservada no topo. Decore  a gosto.

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