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Sobrecarga no sistema de saúde por Covid pode durar anos, diz especialista

Profissionais da saúde apontam consequências que a pandemia pode deixar para a sociedade

Por Maria Alice Prado 21 abr 2021, 17h47

Passado mais de um ano após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar que o mundo vive uma pandemia por causa da Covid-19, as especulações sobre como será o futuro pós-pandemia ficam cada vez mais fortes.

Mais de 137 milhões de pessoas se contaminaram com o vírus até agora. Destes, mais de 78 milhões conseguiram se recuperar da doença. No entanto, não tem sido incomum casos em que pacientes, ainda que recuperados, continuem a apresentar sintomas da infecção ou até mesmo desenvolvam doenças crônicas.

O “legado” da Covid-19 já preocupa especialistas, que alertam para uma provável sobrecarga no sistema de saúde que pode durar anos e criticam falhas no modelo de produção global na saúde. Se ainda há muitas incertezas sobre o futuro pós Covid-19, as consequências que a pandemia vai deixar na sociedade já estão começando a dar as caras. 

Aumento de doenças crônicas

O chefe de pneumologia do Incor, do Hospital das Clínicas (Faculdade de Medicina da USP), Dr. Carlos Carvalho, alerta que nos primeiros protocolos de pesquisa da Covid-19, os especialistas especulavam que cerca de 25% dos pacientes poderiam adquirir uma doença crônica depois da infecção. “Completando a avaliação dos primeiros seis meses, o que nós temos é que essa proporção é muito maior. A proporção chega a ser maior do que 40% ou até 50% dos casos que pegaram o vírus, na sua forma mais grave, permanece com algum sintoma ou algum problema nessa fase pós covid”, explica. 

“O Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos anunciou que o país vai gastar um bilhão de dólares nos próximos anos com os casos crônicos de Covid-19”, alerta. “É uma coisa que o mundo inteiro está percebendo que vai ser um problema”, comenta o pneumologista. 

Os principais sintomas detectados pelos médicos são fraquezas musculares e cansaço. A investigação agora foca em saber se as sequelas vêm por um problema restante da parte respiratória, cardiológica ou muscular. Outras queixas são dores de cabeça, ansiedade, depressão e até mesmo um grau de comprometimento dos rins que pode persistir meses depois da doença. 

O problema pode ser ainda maior nos pacientes do grupo de risco, como os obesos, hipertensos e diabéticos. “Parece que a Covid pode agravar algumas dessas situações. Agora nós estamos vendo que aqueles que se recuperaram e têm comorbidade, essa comorbidade pode se acentuar ainda mais lá na frente”, explica Carvalho. 

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Sobrecarga na saúde

A preocupação é ainda pior quando se pensa a nível global. “Vai ser uma sobrecarga para o serviço de saúde, que já estava meio saturado. Você já tinha uma porção de doenças crônicas não transmissíveis que já traziam uma sobrecarga”, explica o médico. Ele afirma que o serviço terá de dar conta de outra parcela de doentes crônicos ainda mais graves pelas sequelas da Covid-19. 

Ou seja, pacientes que não tinham doenças crônicas agora podem desenvolver a condição após ter se infectado com o coronavírus. O chefe do Incor exemplifica possíveis casos como fibroses pulmonares, arritmia cardíaca e insuficiência renal deixados pela doença. Tudo isso é um alerta para o sistema de saúde.

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O uso exacerbado de antibióticos, especialmente para tratamentos sem eficácia, como é o caso do chamado kit covid, também é um alerta para a gestão de saúde, segundo Carvalho. “O risco é que progressivamente vão existir bactérias cada vez mais resistentes e, no futuro, ou os laboratórios vão ter que desenvolver novos antibióticos, ou nós não vamos ter antibióticos para destruir essas bactérias”, explica. 

Cadeia produtiva

E esse não é o único alerta para a sociedade como um todo. Chrystina Barros, pesquisadora do Centro de Estudos em Gestão de Serviços de Saúde da UFRJ, relembra os momentos de escassez de equipamento de proteção individual ocorridos no mundo. “Nós tivemos falta de máscaras N95 porque ela é toda produzida na China. O nosso modelo de produção procura comprar onde é mais barato. Se a China parar, acabou a proteção para o mundo?”, indaga a especialista. 

Além das consequências físicas na saúde dos indivíduos, Chrystina joga luz na necessidade de a sociedade rever padrões de produção. “90% do látex utilizado pelas indústrias vêm da Malásia. É necessário incentivo à pesquisa para nos salvar com alternativas. É importantíssimo que o mundo reveja a cadeia produtiva em saúde”, adverte a pesquisadora. 

De acordo com ela, a partir deste ano e do próximo já começaremos a ver uma redução na expectativa de vida. “Houve um enorme retrocesso em diversos âmbitos: na cobertura de outras vacinas, a própria questão dos empregos, que afeta os determinantes sociais das pessoas”, comenta. 

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Mais cuidado para não repetir o erro

A pandemia escancarou falhas em gestões e, segundo a pesquisadora, a logística em âmbitos como a distribuição de vacinas, promoção da saúde pública, incentivo a exercício físicos, atenção à obesidade e, principalmente, aos riscos biológicos, deverão ser atualizados. 

“Sem dúvida nenhuma, lugares como aeroportos, onde muitas pessoas circulam e trocam mais essa biologia, certamente terão todos seus protocolos revistos de uma maneira definitiva”, pontua Chrystina. A hiper conectividade e a facilidade com deslocamentos levam pessoas a qualquer lugar do mundo em horas, mas ao mesmo tempo carregam vírus e doenças, destaca a pesquisadora. 

“Existem milhares de vírus que ainda são desconhecidos nossos. E, exatamente por isso, nós não sabemos o potencial que eles têm de trazer outras pandemias como essas, às vezes com uma letalidade até maior”. O momento é de rever comportamentos que despertam desequilíbrios na natureza e trazem riscos biológicos. 

Um ponto de alívio é perceber que alguns hábitos impostos pela pandemia da Covid-19 nos ajudam na precaução de outras doenças contagiosas. É o casa da conjuntivite e da gripe influenza. Segundo os especialistas, a incidência dessas enfermidades diminuíram nos últimos meses por causa do uso de máscaras, do distanciamento social e da higienização recorrente das mãos. 

Assim como é comum entre os asiáticos, que culturalmente possuem o costume de usar máscaras em locais públicos, talvez seja o momento de expandir o hábito para todos os lugares, de acordo com Chrystina Barros. Manter medidas simples como essa ajuda os indivíduos a não adoecerem, colaborando com o sistema de saúde. Um aprendizado valioso que a pandemia nos deixa. 

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