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“O que mais me impressiona em São Paulo são as pessoas”, diz designer do Rosewood

Profissional francês que é considerado um dos maiores do mundo fala sobre sua relação com a cidade, a brasilidade e o design democrático

Por Saulo Yassuda Atualizado em 6 Maio 2022, 12h01 - Publicado em 6 Maio 2022, 06h00

Numa suíte do Rosewood São Paulo, hotel de luxo que faz parte do complexo Cidade Matarazzo, perto da Avenida Paulista, o designer francês Philippe Starck, 73, recebeu VEJA SÃO PAULO. Antes da entrevista, posou para o retrato ao lado. “Você não precisa de flash”, “mostre menos o sofá”, recomendava à fotógrafa. Nascido em Paris, hoje com residência em Portugal, o profissional considerado um dos melhores designers do mundo já veio muitas vezes à capital.

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O motivo? É diretor artístico do hotel, para o qual fez a curadoria de 57 artistas, que conta ainda com unidades à venda. A última visita foi para um seminário e o lançamento da Torre Mata Atlântica, edifício do empreendimento projetado pelo arquiteto Jean Nouvel. Confira trechos da conversa.

Como foi criar o conceito para um hotel tão monumental?

Muito fácil, porque não é um hotel. É uma expressão, uma cristalização da bela visão de Alexandre Allard (empresário que concebeu o projeto) sobre o poder da criatividade brasileira, das raízes, os escravos, os indígenas, os incríveis potenciais que existem. Por isso, não falamos sobre arquitetura nem design, mas sobre a alma de uma população, de uma sociedade, de uma civilização.

Como é homenagear o Brasil em um lugar de padrão internacional?

É fácil trazer o Brasil para cá, porque estamos no Brasil (risos). O objetivo desse lugar é ser puramente brasileiro. Tudo é feito por brasileiros. E a madeira é do Brasil, a pedra é do Brasil, o tecido é do Brasil. Tudo. Uma das preocupações é que tudo seja nacional.

Como foi selecionar peças e artistas?

Não me importo com nomes, só com o peso da alma que as obras de arte têm. Selecionei ainda pelo potencial da linguagem. Esse lugar é feito para revelar talentos brasileiros.

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Chegou a criar peças também?

O mínimo possível. Criei coisas quando era impossível encontrar os itens no Brasil. Coisas pequenas, como mesinhas, mesas de cama, lâmpadas… Mas as peças principais são brasileiras, eu apenas complementei.

Sustentabilidade é uma preocupação? Como usá-la a seu favor em uma obra como essa?

Sim. Nós usamos principalmente a longevidade. Há duas formas de ser sustentável. Uma delas é empregar materiais sustentáveis, o que fazemos — com a madeira, e tudo —, mas o mais importante é desenhar o espaço para ser atemporal e ter uma grande longevidade. Se um lugar assim é desenhado para, imediatamente, se tornar um clássico atemporal, não tem nenhuma razão para mudar em um século. Então é por isso que, quando algo pode durar por um século, ele é estritamente sustentável.

Você defende o design para todos. Ele aconteceu?

Eu inventei há muito tempo esse conceito de design democrático porque, quando comecei a desenhar, o design era elitista. Eram peças bonitas e caras, feitas por muitos poucos para poucos, difíceis de encontrar. Isso é chamado elitismo. Eu odeio elitismo. Lutei minha vida toda para tirar muitos zeros dos preços. Agora podemos dizer que quase todo mundo pode comprar design de alta qualidade. Eu quero cadeiras por 50 dólares, que é muito longe de 5 000 dólares.

Qual sua peça mais popular?

Não penso assim, “minha melhor peça”. É um trabalho permanente. Isso significa que Louis Ghost, da Kartell, a primeira cadeira transparente, foi muito importante. Mas, recentemente, teve a A.I. Chair, que fiz com inteligência artificial, o que é vital, porque abriu um novo mundo de criatividade. Isso é muito interessante. Também trabalhei numa estação espacial, e é importante ir ao espaço. E trabalhei em embarcações, o que é indispensável para a sustentabilidade. Trabalho em tantas coisas, é difícil saber qual foi a melhor.

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Como continuar a ser criativo depois de mais de cinquenta anos de atividade e 10000 criações?

Quando você começa a vida com uma doença mental pesada chamada criatividade, vê como ela continua a trabalhar bem. Sigo a criar todo dia, toda hora, milhares de projetos para o meu grande prazer e meu grande vício por essa doença mental.

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Por que decidiu se mudar para o interior de Portugal?

Porque amo o ser humano, e o que amo no humano é a gentileza. Hoje, no mundo, talvez as mais gentis e respeitosas pessoas estejam em Portugal e, felizmente, vocês (brasileiros) são conectados com Portugal e têm a mesma gentileza, mas eu sou mais europeu, então eu fico em Portugal (risos).

Sua rotina em Portugal o ajuda a ser criativo?

Tento ir para a cama cedo e acordo cedo, umas 6h30. Tomo um banho bem quente, depois um bem gelado, pulo para minha mesa e trabalho até meu cérebro explodir, por volta do meio-dia. Retorno ao quarto, durmo por uma ou duas horas, depois tomo um banho bem quente, um banho bem gelado, pulo para minha mesa e trabalho até meu cérebro explodir, perto das 19 horas. Esse é o meu dia a dia, exceto quando viajamos para fazer belas entrevistas como a de hoje (risos).

São Paulo o inspira de alguma maneira?

Não sou inspirado por nada porque sou o que chamam de autista, mas compartilhamos valores. Valores de paixão, de loucura, de música, de surrealismo, por ser outro. Temos muitos parâmetros em comum.

O que em São Paulo o impressiona?

Pessoas, pessoas, pessoas. Brasileiros têm um incrível poder. Para algo me impressionar, tem de ser humano. Não sou impressionado com edifícios, pedras, metais.

Então você é mais conectado com gente do que com lugares ou monumentos…

Só sou conectado com pessoas (risos).

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Você veio muito ao país nos últimos anos. Já tem cantores brasileiros favoritos? E comida?

Muitos cantores, mas nunca lembro dos nomes, porque não me importo com os nomes. Eu me importo com o que recebo, com o que sinto quando ouço música. João Gilberto, Caetano Veloso… Na rua, uma pessoa muito pobre cantando por moedas às vezes é muito mais emocionante do que um famoso. O som é o som. E minha “comida favorita” aqui é caipirinha de maracujá. (A esposa dele, Jasmine Abdellatif Starck, intervém e o lembra do açaí.) Sou viciado em açaí! Amo açaí.

Caipirinha com cachaça ou vodca?

Cachaça! É mais brasileiro.

E português, você aprendeu?

Não. Eu não falo nada (de português), porque não falo com ninguém.

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Publicado em VEJA São Paulo de 11 de maio de 2022, edição nº 2788

 

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