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Paul Smith coleciona raridades italianas de garimpador de brechós

Embarcamos num dia de garimpo pela região da Úmbria com o fornecedor de raridades do design italiano a colecionadores, leiloeiros e ao cliente número 1: o estilista inglês Paul Smith, uma referência que ultrapassa a moda e chega à decoração

Por Adriana Marmo 28 nov 2014, 23h00 | Atualizado em 5 dez 2016, 13h46

São 6h17 quando o Fiat Doblò deixa Roma em direção à Úmbria, o coração da Itália. O carro, com porta-malas lotado de cobertores, cordas e caixas, vai percorrer pouco mais de 400 quilômetros de estradas ladeadas por ciprestes perfumados, típicos da região, e parar em cerca de dez cidades até voltar ao ponto de partida, no fim do dia. Ao volante está Fausto Polacco, de 52 anos, formado em letras e que, depois de cruzar o mundo a bordo de um veleiro e fazer cinema como diretor Nanni Moretti, virou um garimpador de objetos de design italiano produzidos entre as décadas de 60 e 80.

Entre seus clientes figura o estilista inglês Paul Smith, cujo gosto pela arquitetura de interiores o tornou proprietário de uma loja de arte e antiguidades, colhidas ao redor do mundo, em Londres. Ao menos uma vez por semana Polacco parte pelas regiões da Toscana, Abruzzo e Lazio visitando mercatini dell’usato (brechós, em italiano) e colecionadores. A primeira parada da viagem é um galpão na Bastia Umbria, cidade de cerca de 2 000 habitantes. O local passa longe do glamour do destino final dos seus achados. Fica difícil acreditar que aqui dentro existe algo além de quinquilharia. É um caos formado por livros, roupas, móveis, estátuas de gesso, bibelôs, bolsas, sapatos. Tudo coberto por uma (esperada) camada de pó.

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Polacco caminha entre os corredores estreitos “escaneando” o que está sobre e sob essa confusão. “De tanto procurar objetos, formei um arquivo mental e reconheço uma peça de valor de longe”, comenta. “Basta uma cor, um material, um tipo de acabamento para chamar minha atenção.” No alto de uma estante, bingo. O garimpador alcança uma luminária com base de couro e pouco mais de 30 centímetros. Ele examina quase incrédulo cada detalhe e recorre à internet de seu celular para certifcar-se de que tem em mãos uma peça original. Confrmado: é a chamada 600/c, com a assinatura da Arteluce, empresa fundada em 1939 e especializada em luminárias, além de ser uma referência do design dos anos 1950 e 1960. “A graça dessa peça é ter sido desenhada por Gino Sarfatti, o criador da marca”, diz. “Ganhei o dia!” O tesouro saiu por 4 euros, e Polacco antecipa que a luminária pode chegar ao mercado por mais de 300 euros.

Nem sempre é assim. Muitas vezes, volta para casa com o carro vazio. Na loja seguinte, na periferia de Perúgia, ele encontra uma poltrona Amanta do fim dos anos 1960, assinada por Mario Bellini, o designer de vários modelos de máquinas de escrever e calculadoras da Olivetti e hoje no conselho da Triennale de Milão, evento-chave na programação mundial demostras de arquitetura, design e arte. Apesar de a poltrona custar 38 euros, Polacco conclui que não vale a compra. “Sua restauração sairia caro, e a peça teria mais valor se o par estivesse à venda.”

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A pausa para o almoço é obrigatória, afinal, todo o comércio fecha. Além do roteiro de visitas, Polacco acabou por desenvolver uma agenda com as delícias de cada lugar, desde o restaurante com o mais saboroso espaguete com vôngole até uma loja de queijos. A escolha do dia foi “a melhor piadina da Úmbria”, uma espécie de sanduíche feito com uma massa similar à da pizza e recheios variados. Numa praça da cidade, ele aproveita a refeição para enumerar os tesouros encontrados em dez anos de caça: mesas, cerâmicas, poltronas de arquitetos e designers cultuados (e conservados em museus de arte moderna), como Ettore Sottsass, Carlo Mollino, Achille Castiglioni, Joe Colombo e GioPonti. Desse último, diretor artístico da marca Fontana Arte, fundada em 1931, ele considera o melhor negócio de sua vida.

No ano passado, encontrou num brechó de Ancona, no Marche, a luminária de mesa Pirellina, um cilindro de vidro opaco – criada por ele para a marca em 1967, do desenho italiano. “Eu tremia dos pés à cabeça quando a peguei nas mãos”, conta. Polacco a revendeu à Wannenes, casa de leilão de Gênova, mas não revela por quanto. Foi arrematada por 6000 euros e garantiu as férias do garimpador na Grécia. Mais cinco paradas durante a tarde e duas ou três falsificações pela frente, é hora de começar o caminho de volta.

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Depois de chegar a Roma, alguns objetos são desmontados, passam por uma limpeza e muitas vezes precisam ser mandados para um dos profissionais de sua rede de restauradores. Em seguida, são fotografadas e enviadas, com as devidas referências históricas, para a sua lista de clientes: o primeiro a receber é Paul Smith. Boa parte do seu garimpo tem dois destinos principais: Bruxelas e Londres. Há ainda os colecionadores e amantes de design que visitam com frequência o seu depósito, no bairro de Testaccio, na capital italiana.“O leilão segue a operação mais rentável, pois reúne os apreciadores dispostos a desembolsar alto pelas raridades”, diz. Financiar as férias na Grécia, Polacco confessa, não é nada mau. Mas entrar no Doblò e cair na estrada continua a ser a melhor parte do trabalho. “Às vezes, eu me sinto numa gincana: o prazer de ter algo raro em mãos, observar a beleza e a qualidade do que era feito anos atrás, vale as semanas de carro vazio.” ■

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