Paul Smith coleciona raridades italianas de garimpador de brechós
Embarcamos num dia de garimpo pela região da Úmbria com o fornecedor de raridades do design italiano a colecionadores, leiloeiros e ao cliente número 1: o estilista inglês Paul Smith, uma referência que ultrapassa a moda e chega à decoração
São 6h17 quando o Fiat Doblò deixa Roma em direção à Úmbria, o coração da Itália. O carro, com porta-malas lotado de cobertores, cordas e caixas, vai percorrer pouco mais de 400 quilômetros de estradas ladeadas por ciprestes perfumados, típicos da região, e parar em cerca de dez cidades até voltar ao ponto de partida, no fim do dia. Ao volante está Fausto Polacco, de 52 anos, formado em letras e que, depois de cruzar o mundo a bordo de um veleiro e fazer cinema como diretor Nanni Moretti, virou um garimpador de objetos de design italiano produzidos entre as décadas de 60 e 80.
Entre seus clientes figura o estilista inglês Paul Smith, cujo gosto pela arquitetura de interiores o tornou proprietário de uma loja de arte e antiguidades, colhidas ao redor do mundo, em Londres. Ao menos uma vez por semana Polacco parte pelas regiões da Toscana, Abruzzo e Lazio visitando mercatini dell’usato (brechós, em italiano) e colecionadores. A primeira parada da viagem é um galpão na Bastia Umbria, cidade de cerca de 2 000 habitantes. O local passa longe do glamour do destino final dos seus achados. Fica difícil acreditar que aqui dentro existe algo além de quinquilharia. É um caos formado por livros, roupas, móveis, estátuas de gesso, bibelôs, bolsas, sapatos. Tudo coberto por uma (esperada) camada de pó.
+ Três vistas do Edifício Itália
Polacco caminha entre os corredores estreitos “escaneando” o que está sobre e sob essa confusão. “De tanto procurar objetos, formei um arquivo mental e reconheço uma peça de valor de longe”, comenta. “Basta uma cor, um material, um tipo de acabamento para chamar minha atenção.” No alto de uma estante, bingo. O garimpador alcança uma luminária com base de couro e pouco mais de 30 centímetros. Ele examina quase incrédulo cada detalhe e recorre à internet de seu celular para certifcar-se de que tem em mãos uma peça original. Confrmado: é a chamada 600/c, com a assinatura da Arteluce, empresa fundada em 1939 e especializada em luminárias, além de ser uma referência do design dos anos 1950 e 1960. “A graça dessa peça é ter sido desenhada por Gino Sarfatti, o criador da marca”, diz. “Ganhei o dia!” O tesouro saiu por 4 euros, e Polacco antecipa que a luminária pode chegar ao mercado por mais de 300 euros.
Nem sempre é assim. Muitas vezes, volta para casa com o carro vazio. Na loja seguinte, na periferia de Perúgia, ele encontra uma poltrona Amanta do fim dos anos 1960, assinada por Mario Bellini, o designer de vários modelos de máquinas de escrever e calculadoras da Olivetti e hoje no conselho da Triennale de Milão, evento-chave na programação mundial demostras de arquitetura, design e arte. Apesar de a poltrona custar 38 euros, Polacco conclui que não vale a compra. “Sua restauração sairia caro, e a peça teria mais valor se o par estivesse à venda.”
A pausa para o almoço é obrigatória, afinal, todo o comércio fecha. Além do roteiro de visitas, Polacco acabou por desenvolver uma agenda com as delícias de cada lugar, desde o restaurante com o mais saboroso espaguete com vôngole até uma loja de queijos. A escolha do dia foi “a melhor piadina da Úmbria”, uma espécie de sanduíche feito com uma massa similar à da pizza e recheios variados. Numa praça da cidade, ele aproveita a refeição para enumerar os tesouros encontrados em dez anos de caça: mesas, cerâmicas, poltronas de arquitetos e designers cultuados (e conservados em museus de arte moderna), como Ettore Sottsass, Carlo Mollino, Achille Castiglioni, Joe Colombo e GioPonti. Desse último, diretor artístico da marca Fontana Arte, fundada em 1931, ele considera o melhor negócio de sua vida.
No ano passado, encontrou num brechó de Ancona, no Marche, a luminária de mesa Pirellina, um cilindro de vidro opaco – criada por ele para a marca em 1967, do desenho italiano. “Eu tremia dos pés à cabeça quando a peguei nas mãos”, conta. Polacco a revendeu à Wannenes, casa de leilão de Gênova, mas não revela por quanto. Foi arrematada por 6000 euros e garantiu as férias do garimpador na Grécia. Mais cinco paradas durante a tarde e duas ou três falsificações pela frente, é hora de começar o caminho de volta.
+ Dono de antiquário fornece peças para teatro e TV
+ Guia do antiquário: dez endereços para comprar raridades em São Paulo
Depois de chegar a Roma, alguns objetos são desmontados, passam por uma limpeza e muitas vezes precisam ser mandados para um dos profissionais de sua rede de restauradores. Em seguida, são fotografadas e enviadas, com as devidas referências históricas, para a sua lista de clientes: o primeiro a receber é Paul Smith. Boa parte do seu garimpo tem dois destinos principais: Bruxelas e Londres. Há ainda os colecionadores e amantes de design que visitam com frequência o seu depósito, no bairro de Testaccio, na capital italiana.“O leilão segue a operação mais rentável, pois reúne os apreciadores dispostos a desembolsar alto pelas raridades”, diz. Financiar as férias na Grécia, Polacco confessa, não é nada mau. Mas entrar no Doblò e cair na estrada continua a ser a melhor parte do trabalho. “Às vezes, eu me sinto numa gincana: o prazer de ter algo raro em mãos, observar a beleza e a qualidade do que era feito anos atrás, vale as semanas de carro vazio.” ■
Conheça o Assador, novo rodízio do fundador do Fogo de Chão
Mulher de 63 anos sofre estelionato durante corrida de táxi no centro de SP
16 restaurantes que fecharam nos últimos meses em São Paulo
Prunes au Pichet: uma sobremesa simples com vinho e ameixas
Cidade Matarazzo ganha o formidável complexo gastronômico Mata Città





