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A Tal Felicidade Saúde, bem estar e alegria para os paulistanos

A fuga

A escritora Becky Korich descreve em uma crônica seu encontro com a Felicidade, aqui personificada, e reflete sobre seu real significado

Por Becky Korich, em depoimento a Helena Galante Atualizado em 13 abr 2022, 17h37 - Publicado em 14 abr 2022, 06h00

“Me dê um abrigo, por favor!”

Ela usava óculos escuros, um chapéu enorme e uma echarpe que cobria quase todo o seu rosto. Olhava exasperada para os dois lados, tal qual uma fugitiva. “Muito prazer, sou a Felicidade.”

Fui imediatamente seduzida por sua identidade e, sem perguntas, a fiz entrar.

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Ela se desfez do disfarce, me explicou que tudo aquilo era para passar anônima pelos 8 bilhões de pessoas que a perseguiam.

Felicidade estava abatida, pálida, sem brilho e, embora ostentasse um largo e protocolar sorriso na boca, tinha um olhar ansioso. Confesso que fiquei um pouco desapontada quando a vi pessoalmente e de cara lavada. Não que ela não fosse linda, mas sempre imaginei Felicidade vigorosa, bronzeada, poderosa, charmosa, soberana.

Ficamos alguns minutos em silêncio. Enquanto ela se acomodava no sofá, eu organizava minhas emoções provocados pela inesperada — e sempre esperada — visita daquela estranha conhecida. Trocamos olhares e eu, confusa, não sabia se retribuía o sorriso a Felicidade, pois, apesar de estar cara a cara com ela, estranhamente não tinha vontade de sorrir.

Para quebrar o gelo, ofereci um chocolate quente com biscoitos. “Isso sim é a verdadeira felicidade!”, exclamou Felicidade.

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Felicidade ficou até mais corada. Mas, assim que começou a raciocinar, trouxe de volta o sorriso obrigatório que ela estava fadada a carregar. Aproveitei o gancho e arrisquei: “Esquece esse sorriso, relaxa. Estamos aqui só você e eu. Pode tirar os sapatos e colocar os pés na mesa”.

“Estou exausta”, começou ela. E desandou a falar. Me contou que todos a desejavam sem sequer saber quem ela era de verdade, nem mesmo se ela realmente existia. Desejavam-na mesmo sabendo que nunca a teriam por completo, e, talvez, justamente por essa razão: “Me entregam listas intermináveis de pedidos. Me cobram dinheiro, família, saúde, amigos, liberdade, viagens, vingança, paixões, comidas, troféus, beleza, prazeres. Se dou dinheiro, querem mais. Se dou chocolates, querem magreza. Se dou liberdade, me pedem socorro. Se dou beleza, a querem para sempre. Percebe meu papel ingrato? Nunca vou caber nas pessoas se elas não entenderem que não sou uma causa, e sim uma consequência. Rezo diariamente para as pessoas encontrarem a Paz, quem sabe assim elas me deixam um pouco em paz. Porque a Paz é maior do que eu e, no entanto, ela está quieta e tranquila no seu canto meditando, enquanto as pessoas brigam e se quebram por minha causa”.

Expliquei que é humano buscar a felicidade e que não damos nenhum passo na vida sem tê-la no horizonte.

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“O que escapa saber é que não existe ser feliz; existe, sim, estar feliz. Falta-lhes dominar a sabedoria de conseguir ser feliz com esse estar feliz”, sentenciou ela. E prosseguiu: “Acontece que algo dentro de vocês deseja prolongar os prazeres e perpetuar o sentimento de felicidade. O everlasting do contentamento pleno. O êxtase sem fim”.

Segundo Felicidade, esse contentamento, onipresente, em alto volume nos nossos ouvidos, nos ensurdeceria, assim como uma luz sem trégua feriria nossas retinas. “Quem suportaria apenas sorrir, apenas ganhar? Como nasceriam seus novos desejos, se tudo acontecesse de acordo com os seus desejos?”

Ouvi atentamente o seu desabafo e cheguei a sentir pena da Felicidade. Não deve ser fácil ser ela. Por outro lado, conhecendo-a mais de perto, percebi como ela era leve, simples, despretensiosa, bem-humorada. Naturalmente bela. Fiquei absolutamente encantada.

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Ficamos juntas sem pausas até o anoitecer e, apesar das boas risadas e das conversas gostosas, um dia inteiro, só eu e a Felicidade, me exauriu. Não conseguiria dormir com aquele contentamento todo plugado em mim. Minha felicidade precisava de repouso, para que a vida acontecesse no dia seguinte.

Inventei uma desculpa qualquer e, quando nos despedimos, a fiz prometer que voltaria de tempos em tempos. Antes de partir, Felicidade me agradeceu pelos biscoitos, pelo pé na mesa, enfim, pela trégua de sua própria felicidade. Vestiu o disfarce e se foi, para, quem sabe, procurar outro abrigo.

Becky Korich aparece sorrindo, cabelo preso e uma camisa azul. Ao fundo, está um quadro colorido.
Becky Korich é advogada, formada em mediação judicial e extrajudicial, e escritora. Publica crônicas em http://www.quarentenando.com Divulgação/Divulgação

A curadoria dos autores convidados para esta seção é feita por Helena Galante. Para sugerir um tema ou autor, escreva para hgalante@abril.com.br

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Publicado em VEJA São Paulo de 20 de abril de 2022, edição nº 2785

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