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Ocitocina: fundamental para o bem-estar e a regulação do afeto

Eliana Araujo Nogueira do Vale, doutora em neurociências e comportamento, fala sobre os benefícios do chamado "hormônio do amor" em nossa mente e corpo

Por Eliana Araujo Nogueira do Vale, em depoimento a Helena Galante Atualizado em 24 fev 2022, 18h51 - Publicado em 25 fev 2022, 06h00

Quando eu era estudante e estava fazendo estágio na clínica da faculdade, atendi um casal que havia inscrito o filho de 7 anos para um diagnóstico psicológico. Eu deveria atender os pais e, em seguida, a criança. Recebi o casal, que estava muito aflito com a situação do menino, e o ouvi por cerca de uma hora. Em seguida, marcamos o segundo atendimento. Quando voltaram, perguntei como estavam, e a mãe disse: “Ah, o Pedro está bem melhor!”. Fiquei surpresa, mas tomei nota daquilo.

Mais tarde, após passar por outras situações semelhantes, compreendi que o simples fato de ouvir interessadamente alguém já é terapêutico — o acolhimento melhora o estado da pessoa e pode beneficiar indiretamente até quem não está presente — no caso, o filhinho.

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Receber pela primeira vez no consultório uma pessoa que esteja muito deprimida ou desesperada de forma acolhedora pode ser suficiente para acalmá-la e estabelecer uma relação positiva com ela, essencial para a continuidade do tratamento.

Durante muitos anos, esses fenômenos que resultavam do contato entre o psicólogo e seu cliente eram considerados apenas de cunho psicológico. Essa percepção começou a mudar no fim do século XX, com o desenvolvimento das neurociências e a descoberta de que as sensações e emoções eram geradas pela produção de diferentes moléculas cerebrais quando um determinado circuito neural era estimulado.

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Os dados científicos de pesquisas com roedores permitiram afirmar que uma molécula chamada ocitocina, produzida no cérebro das fêmeas, era responsável por produzir comportamentos de cuidados maternos essenciais à sobrevivência dos filhotes. Em 2000, quando foi possível a pesquisa com seres humanos, descobriu-se que havia produção de ocitocina no cérebro humano quando ocorria um contato positivo entre duas pessoas. Esse estímulo natural era responsável por ativar uma sensação de calma e confiança entre elas.

Ou seja, a emoção positiva era impulsionada pela molécula, que, em resposta, trazia para aquele contexto um sentimento calmante e agradável, como se as pessoas estivessem em uma situação materna.

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Embora a ocitocina tenha muitas outras funções, ela é fundamental na vida emocional do ser humano para o desenvolvimento do bom relacionamento social, amoroso, familiar e profissional. Se essas relações se processarem de modo a acolher e entender o outro, elas vão regular afetivamente de modo positivo todos os envolvidos.

Observando pelo aspecto físico/corporal, esse hormônio também promove um efeito analgésico e ajuda a acelerar a cicatrização de lesões. E mais: atua como coadjuvante na restauração do bem-estar de quem sofre com a síndrome de burnout e auxilia após situações de estresse, luto e esgotamento físico/mental extremos.

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Não é à toa que, após a sua descoberta, a ocitocina caiu no gosto popular e tornou-se conhecida como o “hormônio do amor”, dando origem a uma série de informações sensacionalistas e com pouca profundidade científica.

Estudo detalhadamente a ocitocina há pelo menos vinte anos, para entender como esse hormônio cerebral trabalha as suas conexões entre mente e corpo e age no campo afetivo. Realizei duas pesquisas sobre o tema, uma delas intitulada “Relações entre ocitocina, apego e sono em pessoas com transtorno de ansiedade generalizada”, para o meu doutorado. Ambas culminaram com o lançamento do meu livro, escrito durante o período de confinamento em razão da Covid-19.

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Nessa busca pelo bem-estar e qualidade de vida, considero muito importante que as pessoas se dediquem mais às atividades que lhes dão prazer, como dançar, tocar um instrumento, fazer algum artesanato, ligar para alguém querido, escrever, rezar, dar um caminhada observando a natureza, ouvir músicas de sua preferência, fotografar, ler, meditar, preparar uma receita nova, brincar com o filho, dar atenção ao animalzinho de estimação…

Vale até mesmo não fazer nada. Apenas se desligar da rotina durante um período do dia e deixar que a ocitocina flua no organismo naturalmente, trazendo sentimentos de bem-estar, alegria e serenidade. Sem ela, essa tal felicidade fica muito distante.

retrato de uma senhora branca, de óculos, cabelo castanho chanel e de blusa verde listrada
Eliana Araujo Nogueira do Vale (@eliananogueiradovale) é mestre em psicologia clínica (USP) e doutora em neurociências e comportamento (USP). É autora do livro Ocitocina, Bem-Estar e a Regulação do Afeto (editora Manole). Divulgação/Divulgação

A curadoria dos autores convidados para esta seção é feita por Helena Galante. Para sugerir um tema ou autor, escreva para hgalante@abril.com.br

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Publicado em VEJA São Paulo de 2 de março de 2022, edição nº 2778

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