O novo pegar e levar: casas pequenas oferecem comida rápida e bem-feita
De itens salgados a doces, pequenos estabelecimentos focam em preparo cuidadoso para atender quem quer qualidade e praticidade
Não tem mesa, e às vezes nem cadeira. O pedido é feito no balcão, o pacote vai para o cliente e, pouco tempo depois, o comprador está de volta à rua.
Em uma cidade como São Paulo, sempre acelerada, um tipo de endereço começou a se destacar na cena gastronômica dos últimos tempos: o do famoso “pegar e levar”.
O modelo não é exatamente uma novidade, mas ganha outra roupagem. Agora, também aparece, com frequência, no formato de endereços únicos com comidas elaboradas, preparo cuidadoso e ingredientes selecionados. A maioria deles tem tudo para uma expansão.
Entre os lugares está a Saiko Sando, no Jardim Europa. A pequena portinha especializada no sanduíche katsu sando não tem salão. O pedido é feito em um totem e retirado no balcão.
Desde a inauguração, em agosto de 2025, costumam se formar filas por lá — aos fins de semana a espera pode chegar a quase uma hora. Clientes fiéis aguardam por sanduíches cortados em seis pedaços e acomodados em uma caixinha de papelão que faz as vezes de prato.
Engana-se quem pensa que os preços são em conta: variam de 61 reais a 96 reais. Há ainda uma versão feita com carne de gado wagyu por 485 reais, mas é só por encomenda.
A ideia veio do Japão, onde dois dos sócios, Gabriel e Ana Carolina Guimarães, conheceram a pedida em uma viagem por Tóquio, Quioto e Osaka. Para Gabriel, a proposta fazia sentido para São Paulo justamente pela combinação de qualidade e praticidade.
“A gente percebeu que não precisava existir uma escolha entre comer bem e comer rápido. O katsu sando se encaixa muito bem nisso, já que tem técnica e bons ingredientes, mas ao mesmo tempo é extremamente prático para consumir”, afirma.
O formato possibilita uma operação menor. Na Saiko Sando, o sanduíche é a única opção e se torna o centro de tudo, uma vez que não há estrutura de um restaurante convencional.
O cardápio é enxuto e reúne versões como o gyukatsu, de filé-mignon, maionese japonesa e molho de ostra, e o tonkatsu, de barriga de porco, repolho, tarê e maionese picante. O modelo deu tão certo que há outras unidades em implantação em bairros como Pinheiros, Vila Olímpia e Tatuapé.
Em Pinheiros, a Empanada do José adota um esquema semelhante, embora tenha um pequeno espaço para espera. Inaugurada em fevereiro, a loja tem um minibalcão e quatro cadeiras de praia na calçada.
A cozinha aberta permite o acompanhamento da finalização dos salgados, enquanto as fornadas saem continuamente.
José Victor Oliveira, criador da marca, buscou justamente a informalidade que encontrou em Buenos Aires. “Queria trazer a possibilidade de poder sair comendo uma empanada sem abrir conta”, diz. As novidades concentram-se nos sabores, que incluem opções como linguicinha e pernil.
“As pessoas sentem falta também de comer alguma coisa gostosa em casa, algo que elas sabem como foi feito, que também podem congelar e consumir depois”, acredita. O gasto com uma refeição fora de casa, segundo ele, também pesa nessa escolha. As empanadas têm preços a partir de 12 reais.
No Brooklin, a Ahto Pâtisserie leva o conceito para o terreno da alta confeitaria. A loja da doceira Cristina Mayumi Ozaki, atrás de uma casa de fachada de vidro, tem salão com pé-direito alto praticamente todo tomado por uma extensa vitrine. Não há mesas e o cliente escolhe os doces e leva embora.
Entre as opções (a unidade de cada uma sai a 37 reais), enchem os olhos os entremets como o fleur e o framboise, além de choux recheados na hora, bombons e macarons.
“O modelo grab & go traduz essa visão: a oferta de produtos com identidade e rigor técnico, mas que acompanha o ritmo da cidade”, diz Cristina.
Apesar de os três endereços terem estilos bastante diferentes, eles compartilham uma característica que é onde o espaço físico deixa de ser o protagonista. O investimento se concentra na cozinha e nos ingredientes.
Em vez da experiência ao redor da mesa, o cliente pode levar um sanduíche japonês, uma empanada ou uma sobremesa e decidir onde e quando consumir.
Para Gabriel, da Saiko Sando, está se abrindo um espaço entre o fast food convencional e o restaurante clássico. “As novas operações conseguem entregar padrão e velocidade”, assegura.
Cristina, da Ahto, vê uma demanda crescente aqui por serviços que combinem “qualidade, curadoria e agilidade”.
O “pegar e levar” está se tornando, assim, uma maneira diferente de comer na capital paulista, e segmentos da gastronomia buscam formas de acompanhar essa tendência.
Ahto Pâtisserie. Rua Guararapes, 392, Brooklin, telefone 98887-7324. Tem acessibilidade.
Empanada do José. Rua Artur de Azevedo, 1280, Pinheiros, telefone e WhatsApp (21) 98440-0359. Tem acessibilidade.
Saiko Sando. Rua Amauri, 30, Jardim Europa. Não tem telefone.
Publicado em VEJA São Paulo de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014.
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