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São Silvestre completa 100 edições e deve reunir cerca de 55 mil corredores na Avenida Paulista

Relembre a história da maior corrida de rua da América Latina, que atrai atletas de alto rendimento e corredores amadores há um século

Por Mirela Costa
25 dez 2025, 08h00 • Atualizado em 25 dez 2025, 13h23
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A 100ª edição da São Silvestre deve receber cerca de 55 mil corredores (Paulo Pinto/Agência Brasil/Reprodução)
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  • É dada a largada na Avenida Paulista, entre as ruas Augusta e Frei Caneca. Um pouco à frente, pontos emblemáticos da cidade, como a Avenida Pacaembu, o Vale do Anhangabaú e a Praça da República, tornam-se obstáculos que desafiam a resistência dos atletas. Na reta final, chega a temida subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde a longa inclinação se soma ao cansaço da distância percorrida. Enfim, o retorno à Paulista marca a linha de chegada, consagrando os 15 quilômetros de percurso da São Silvestre, que, tradicionalmente disputada no último dia do ano, tem sua 100ª edição na próxima quarta-feira (31).

    O caminho é familiar para o paulistano Décio de Oliveira Castro, 89, que compete na prova desde 1953, quando tinha 16 anos, e presenciou momentos históricos da competição. “A São Silvestre é o carro-chefe das corridas de rua. É um evento festivo e simbólico tanto para os atletas quanto para o público”, afirma. Embora não se enquadre como uma maratona — já que o mínimo para tal é 42,195 quilômetros —, a prova integra o calendário da IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo) e atrai anualmente centenas de atletas profissionais que buscam um título.

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    Aos 89 anos, Décio de Oliveira Castro segue competindo na São Silvestre (Tião Moreira/Reprodução)

    Há também corredores amadores, que se reúnem em torno do espírito esportivo e da celebração do novo ano que chega. Com recorde de 37 500 participantes em 2024, a São Silvestre deve ultrapassar o marco em sua edição centenária, que recebeu cerca de 55 000 inscritos. O número de atletas é quase 1 000 vezes maior em relação à primeira corrida de São Silvestre, que, disputada em 31 de dezembro de 1925, teve sessenta inscritos, 48 participantes e 37 classificados. O evento foi idealizado pelo jornalista Cásper Líbero após assistir a uma corrida noturna em Paris, na França. Devido à inspiração do fundador, a corrida foi realizada durante a noite até 1988, com início às 23h30, de forma que os primeiros classificados cruzavam a linha de chegada na virada do ano.

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    Décio Castro na edição de 1974, quando a corrida ainda era realizada à noite (Décio Castro/Arquivo Pessoal/Reprodução)

    As primeiras edições foram marcadas pela exclusividade a atletas homens e brasileiros. “Naquela época, não existiam recursos como hoje. Os corredores usavam alpargatas ou tênis Conga para competir”, lembra Décio. Mesmo que as distâncias tenham variado ao longo dos anos, o trajeto da corrida manteve uma certa tradição, com largada e chegada na Paulista.

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    A São Silvestre passou a se popularizar na década de 1940, quando foi permitida a participação de estrangeiros e a Rádio Gazeta realizou a primeira transmissão ao vivo do evento. Atletas de destaque global começaram a despontar na competição, como é o caso do tchecoslovaco Emil Zátopek, que ganhou três medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1952 e, no ano seguinte, conquistou o título da São Silvestre diante de 800 000 espectadores — o maior público presente até então. Décio esteve próximo ao atleta e é testemunha ocular dessa vitória: “Eu era moleque, achava que dava para ganhar do Zátopek. Quando eu vinha na Avenida São João, ele me passou! Mesmo assim, consegui chegar bem. No final, queria tirar foto com ele, mas não deixaram”, comenta.

    Se os brasileiros triunfaram sobre o pódio nos primeiros anos de existência da prova, a internacionalização da São Silvestre ocasionou, no entanto, um período de 33 anos sem vitórias nacionais. O jejum foi quebrado na edição de 1980 pelo pernambucano José João da Silva, então atleta do São Paulo Futebol Clube. “Eu estava muito bem amparado por amigos e equipe técnica. Lembro que eu levava a corrida como um grande desafio, e fiquei muito realizado quando ganhei. Eu era bem jovem, 20 e poucos anos, ainda não tinha noção da dimensão dessa vitória”, relata. Conquistando novamente a primeira colocação em 1985, ele sagrou- se bicampeão da corrida.

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    José João da Silva quebrou o jejum de 33 anos sem vitórias brasileiras (José João da Silva/Arquivo Pessoal/Reprodução)

    As mulheres entraram em cena somente após cinquenta anos de São Silvestre. A participação feminina na competição foi permitida a partir de 1975, quando foram inscritas dezessete mulheres, largaram catorze e doze terminaram o percurso, com êxito da alemã Christa Vahlensieck. Em 1995, Carmen de Oliveira foi a primeira brasileira a cruzar a linha de chegada em posição de liderança. Inspiradas pela trajetória de Carmen, vieram outras campeãs nacionais: Roseli Machado, em 1996, Maria Baldaia, em 2001, e Marizete de Paula, em 2002. A última mulher a levar o Brasil ao lugar mais alto do pódio foi Lucélia Peres, em 2006.

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    Lucélia Peres durante a edição que a tornou campeã da São Silvestre, em 2006 (Marcelo Ferrelli/Gazeta Press/Reprodução)

    “Ver a Carmen entrando na Paulista com a bandeira do Brasil diante daquela multidão me fez sonhar em estar naquele lugar também”, conta Lucélia. Com foco, determinação e treinos intensos, a atleta realizou seu maior desejo: “Naquele 31 de dezembro de 2006, cheguei muito confiante para a prova. Corri estrategicamente e, quando cruzei a linha em primeiro lugar, passou um filme na minha cabeça de todo o tempo em que eu estive sonhando com essa vitória”, lembra.

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    Lucélia Peres foi a última mulher brasileira a vencer a São Silvestre (Marcelo Ferrelli/Gazeta Press/Reprodução)

    Desde os anos 90, as alas profissionais vivem uma hegemonia africana no pódio, com destaque para o Quênia — no total, são dezessete vitórias no masculino e dezoito no feminino. O queniano Paul Tergat é o maior vencedor no masculino, com cinco títulos. No feminino, a maior vencedora é a portuguesa Rosa Mota, seis vezes campeã de forma consecutiva, entre 1981 e 1986.

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    A São Silvestre tem enfrentado uma série de modernizações nos últimos anos, como a realização da prova na parte da manhã — a corrida era vespertina desde 1988 —, o apoio de patrocinadores e a ampliação da estrutura e segurança, motivadas pelo aumento da procura pela competição. O evento também ganhou uma tradição cultural que supera quaisquer objetivos de alto rendimento no esporte e ressalta o aspecto lúdico e celebrativo da competição: os corredores fantasiados.

    Em meio à multidão na Paulista, não é difícil encontrar participantes trajados de super-heróis, personagens de filmes ou criações originais. “Competir de fantasia é um gesto para vibrar o Ano-Novo e arrancar um sorriso de quem está do seu lado”, comenta o dentista goiano Lúcio Monteiro, conhecido por correr a São Silvestre com fantasias inusitadas a cada ano. Já caracterizado como Santos Dumont, Cristo Redentor, Barack Obama e até Tocha Olímpica durante vinte edições da prova, Lúcio fez sua última participação em 2017.

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    Lúcio Monteiro fantasiado de Tocha Olímpica, traje usado na São Silvestre (Lúcio Monteiro/Arquivo Pessoal/Reprodução)

    Na edição centenária, ele decidiu retornar à São Silvestre com um traje que une memória e inovação: “Em metade do corpo, estarei vestido como um atleta de 1925. Na outra metade, como um atleta de 2025, completamente tecnológico. Também vou tentar acoplar um holograma com imagens dos maiores campeões da história da São Silvestre”.

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    Com 100 anos de história e 99 edições concluídas — em 2020, a realização da prova foi impossibilitada em decorrência da pandemia de covid-19 —, a São Silvestre segue colecionando momentos emblemáticos do atletismo e marcando gerações de corredores. Organizada pela Fundação Cásper Líbero e pela Vega Sports, a edição da próxima terça conta com novidades, como o lançamento de uma coleção exclusiva de itens esportivos pela Asics, patrocinadora oficial da prova.

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    A camiseta ASICS para a100ª Corrida de São Silvestre: referência às primeiras edições (Asics/Divulgação)

    Também foi inaugurado um pórtico no número 900 da Paulista, em frente à sede da Fundação Cásper Líbero, marcando a contagem regressiva de 100 dias para a prova. Mesmo com renovações tecnológicas e crescimento exponencial do público, a São Silvestre mantém, para José João, a mesma essência da prova criada por Cásper Líbero, em 1924. “É o diamante das corridas de rua no mundo. Os brasileiros se apaixonaram pela São Silvestre porque ela tem uma raiz muito forte de confraternização internacional”, destaca o atleta.

    Publicado em VEJA São Paulo de 26 de dezembro de 2025, edição nº 2976.

     

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