Mariana Salomão Carrara: “A literatura causa uma ebulição”
A escritora e defensora pública paulistana fala sobre a surpresa de ganhar o segundo Prêmio São Paulo de Literatura e do seu novo projeto
Nascida e criada na capital paulista, Mariana Salomão Carrara publicou o primeiro romance, Idílico (Edições Inteligentes, 112 págs., 2007), ainda aos 21 anos. Agora, aos 39 anos, ela celebra o segundo troféu de melhor romance pelo Prêmio São Paulo de Literatura, cujos vencedores foram anunciados no último dia 24, com A Árvore Mais Sozinha do Mundo (Todavia, 208 págs., 2024, R$ 78,90).
A fagulha inicial para o livro, que narra sobre uma família de fumicultores no interior do Rio Grande do Sul que enfrenta dívidas e problemas de saúde causados por agrotóxicos, surgiu ainda em 2019, quando a autora realizava a pesquisa de outro livro, Não Fossem as Sílabas do Sábado (Todavia, 168 págs., 2022, R$ 53,90), romance com o qual ganhou seu primeiro Prêmio São Paulo de Literatura.
“Li uma matéria da Paula Sperb que falava sobre a epidemia de suicídios no Rio Grande do Sul. Era um número muito grande, uma verdadeira bomba-relógio. Eu fui anotando por dois anos. Cada pesquisa era uma cena que vinha à minha cabeça”, lembra Mariana. Esse trabalho foi algo inédito na vida da escritora, que assistiu a documentários, vídeos de lavradores nas redes sociais, leu dissertações de mestrado e visitou lavouras.
“Quis fazer esse retrato da vida de um fumicultor. Então tive que investigar as dores físicas, os gestos repetidos e até a hora que arranca o broto”, afirma ela, que estreou na literatura infantil neste ano com Sabor Paciência (Baião, 40 págs., 2025, R$ 63,90).
Como recebeu a notícia do bicampeonato?
Foi uma surpresa realmente, porque tinha obras que eu li e considero muito importantes para a literatura nacional. Mas eu gosto muito desse meu livro, foi uma obra que exigiu bastante entrega. Por isso que, quando chamaram meu nome, o que pensei foi: que delícia ver toda essa dedicação se transformar em um trabalho artístico apreciável e que já chegou a muita gente.
Talvez agora, para além de mais leitores que cheguem na minha literatura, mais pessoas conheçam as histórias de muitos outros lavradores. A informação já estava aí, mas é outra coisa quando temos contato com o personagem complexo, as relações familiares, tudo tem mais intensidade. Esse é o poder da literatura, ela causa uma ebulição.
Foi seu projeto mais ambicioso até o momento?
Sim. Eu nem sei se algum dia vou fazer outro com o mesmo nível de ambição, não podia ser mais distante da minha vida. A escrita dele se espalhou pelos anos; eu fiz outros livros no meio do caminho, porque veio a pandemia e eu não conseguia me concentrar em uma história tão diferente da minha. Eu tinha que viajar mentalmente para uma área que nunca tinha visitado.
Seus romances permeiam as relações femininas e a solidão. São temáticas essenciais para você?
Para mim, a literatura é um mergulho. Quanto mais tempo eu passar em universos que não vivi, melhor. O luto e a maternidade, por exemplo, são temas que não vivenciei, mas me acometem. São vivências imaginárias, em que talvez eu nem devesse pensar tanto, mas não consigo evitar. Porque são coisas que cercam minhas amigas, minha mãe e a mim. Realmente, pareço viciada nesses assuntos, porém eles não se esgotam, vão se remodelando.
Para mim, a literatura é um mergulho. Quanto mais tempo eu passar em universos que não vivi, melhor
Mariana Salomão Carrara
Falando em mergulho, você adentrou um novo segmento neste ano, estreando na literatura infantil. Como foi essa experiência?
Foi muito gostosa! A ideia foi um susto, quase, que eu tive. Estava na sorveteria com filhos de amigos meus, aí virei para uma das crianças e falei: “Bento, vou escrever um livro sobre como você passou a vida inteira na fila do sorvete”. E um dia escrevi mesmo. Mas é um trabalho de edição muito diferente: frases não precisam ser frases, podem virar imagens, que são criação total do ilustrador. A imaginação fica muito mais solta do que na literatura adulta. Se eu pudesse, escreveria um infantil antes de cada romance adulto para destravar, ficar livre de qualquer regra.
Como está a imaginação agora, algum lançamento em vista?
Vou publicar um livro no ano que vem, que foi minha segunda aventura em uma perspectiva masculina. A primeira foi no meu primeiro romance, que é narrado por um homem com um psicólogo. Agora, é narrado por um juiz e tem um pouco de humor também. Foi uma investigação na amizade masculina, na criação de vínculos entre homens.
Você une seus dois universos nele de alguma forma, a Defensoria Pública e a literatura?
Todo mundo sempre me pergunta se a defensoria me inspira. Dessa vez, lógico, não é um livro de contação de casos, mas eu ambientei no Judiciário do Mato Grosso. Então, trago essas relações entre os entes do poder e brinquei com a linguagem jurídica.
E como concilia as duas carreiras?
Na faculdade, já estagiava e escrevi Fadas e Copos no Canto da Casa. Depois que entrei na defensoria foi mais assustador, pensei que não teria tempo. Mas acaba que uma coisa vai alimentando a outra, porque também é um trabalho que envolve muitas histórias. Embora eu não as use na escrita, tentar entender como uma pessoa chegou até ali, qual o problema dela, também é um exercício parecido com o de criação literária.
Quais são as referências literárias que permeiam sua escrita?
Quando tinha 14 anos, comecei a ler Lygia Fagundes Telles, que foi o grande marco na minha vida. Acho que ela é uma base muito forte de como ambientar e retratar personagens. Você pode escrever sobre uma vida comum, acontecendo dentro de um apartamento. A ausência do acontecimento também é literatura. E aí, mais recentemente, nos meus 20 anos, comecei a ler a Elvira Vigna. Posso dizer que é uma amálgama dessas duas.
Como paulistana, quais seus lugares favoritos da cidade para buscar inspiração ou refúgio?
Às vezes, vou a parques. Hoje em dia, vou algumas vezes ao Parque Augusta. Mais jovem, gostava de ficar naquela parte envidraçada do Belas Artes. Ficava ali no vidro vendo a Consolação.
Publicado em VEJA São Paulo de 26 de dezembro de 2025, edição nº 2976.





