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Prédio da Vila Buarque paga 400 reais para “retirada de moradores de rua”

Condôminos contrários à ação procuraram a prefeitura, que acionou o Ministério Público; segurança que teria prestado o serviço nega envolvimento

Por Guilherme Queiroz - Atualizado em 25 set 2020, 18h39 - Publicado em 25 set 2020, 16h02

Alguns dos moradores do Edifício Coimbra, na Vila Buarque, centro da capital, tiveram uma surpresa ao verificarem as despesas do condomínio no mês de setembro. 400 reais do caixa, segundo a prestação de contas, foram para Alexandre Silva, que teria prestado o serviço de “retirada de moradores de rua”.

O prédio fica na Rua Amaral Gurgel, 97, ao lado do Elevado Presidente João Goulart. Entre maio e junho, um abaixo-assinado, de autoria da síndica, ficou disponível na portaria do edifício. Seu objetivo era a contratação de um segurança que ficaria na frente do endereço para “manter o bem-estar” dos moradores.

Entre as justificativas para a ação, “a permanência destes moradores [de rua] em frente ao nosso condomínio. Eles geram uma desvalorização no preço dos imóveis da região”, diz o texto do abaixo-assinado.

O abaixo-assinado para a contratação do serviço Reprodução/Divulgação

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“Fui questionar a síndica para entender o que seria isso”, afirma Mirian Nagai, membro de um grupo de moradores contrários à ação. “Ela falou que ia contratar alguém para retirar morador de rua da frente do prédio. Disse que era um profissional. Que custaria 5 reais por morador [o rateio do serviço]”, diz. 

“Ela conseguiu 33 assinaturas. Só ficamos sabendo quando veio o balancete de setembro. Por que tem que contratar um capitão do mato para tacar o terror? Nós temos um grupo de moradores que questiona as ações dela há algum tempo. Isso é ilegal”, afirma Marcela Volpato, que mora no prédio. O grupo de “oposição” da ação reúne cerca de 20 moradores.

A reportagem tentou contato com a síndica, mas não obteve retorno. A prefeitura afirma que recebeu uma denúncia sobre o caso. “Não é permitido pagar ou cobrar para retirar pessoas de espaços públicos como as calçadas, orientar ou intimidar uma pessoa sobre o local público em que deve permanecer”, diz a gestão municipal, que encaminhou o caso para o Ministério Público.

“O centro tem gente que mora na rua. E isso aumentou. Essas pessoas não têm banheiro, não têm onde dormir. E vem na porta do prédio e fazem as necessidades fisiológicas, fica tudo sujo”, afirma Macílio Lima Caetano, subsíndico do prédio. “As pessoas viram isso, procuraram a síndica. E fizeram um abaixo-assinado. Não é pra retirar gente daqui. É apenas para orientar para o morador de rua, não sujar ali na frente. Não é preconceito, a gente tá tentando manter a porta do condomínio livre de sujeira”, explica. Segundo Caetano, a descrição “retirar morador de rua” na relação de gastos foi um erro. “Não é isso. Não tirou ninguém à força. Quem fez essa denúncia, é algo político, para prejudicar a síndica”, acredita.

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“Isso foi um ato monstruoso. Eu moro no 14º andar, então é muito difícil ouvir o que acontece lá embaixo. Nós não ficamos sabendo de nenhuma ação que foi realizada, nem se esse rapaz chegou a ficar ali”, diz Marcela. “Se isso ocorreu, deve ter sido em julho. Porque veio a cobrança em agosto”, diz Mirian.

Nota de repúdio dos moradores contrários à ação Reprodução/Divulgação

Conseguimos falar com Alexandre Silva, o segurança que aparece na prestação de contas e teria recebido os 400 reais. “Não recebi esse valor. O que a gente conversou [ele e a síndica] era para um serviço de segurança, para ficar na frente do prédio. Ela falou que os mendigos estavam roubando. Eu não retiro ninguém da rua”, afirma Silva, que diz que presta serviços de segurança para bares e comércios do centro. “É vigilante particular, entendeu? Não cheguei a fazer o serviço, muitos moradores foram contra”.

“400 reais rateado entre 90 apartamentos é uma mixaria. Mas o impacto daquilo… É um problema social, você acha que nunca tiveram essa brilhante ideia [retirar moradores de rua à força]? Fizemos a denúncia na prefeitura. E se o prédio tiver que pagar uma multa, vamos aceitar. Não dá para ficar conivente com algo do tipo”, diz Marcela.

Procuramos a Sam Luz, administradora do condomínio. “A gente só relaciona no balancete. A síndica contrata por conta dela. E aí tinha que colocar os 400 reais, que foi pago para o rapaz. O que eu entendi é que era alguém apenas para tomar conta ali do prédio. Veio para nós o recibo que foi pago e a gente faz a contabilidade”, diz Luiz Antonio Mendes da Silva, um dos donos da empresa.

“Nestes casos, os munícipes podem acionar o serviço de abordagem social da Prefeitura Municipal de São Paulo por meio do telefone 156”, diz a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania.

A capital paulista contava com cerca de 25 000 moradores de rua em 2019, segundo a prefeitura. O índice representa um aumento de 50% em relação a 2015. Durante a pandemia o número pode ter subido ainda mais.

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social afirma que criou 1 322 novas vagas para acolhimento de pessoas em situação de rua e que em agosto o Serviço Especializado de Abordagem Social da República realizou treze encaminhamentos de moradores de rua na Amaral Gurgel para “acolhimento, refeições e orientações”.

O boleto do próximo mês deve chegar nos próximos dias, assim como a relação de gastos. “Acho que depois de tudo isso ela não deve ter contratado de novo, né? Vamos ver”, diz Mirian.

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