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Não estamos sós: como cuidar da saúde mental

Psicólogos e psiquiatras alertam para o provável aumento de cidadãos que necessitarão de atendimento na quarentena e lembram que é possível pedir ajuda

Por Helena Galante - Atualizado em 31 Mar 2020, 10h40 - Publicado em 26 Mar 2020, 12h08

No último dia 23, uma carta do presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva, alertava os médicos para o possível agravamento da saúde mental dos pacientes e o provável aumento do número de cidadãos que necessitarão de atendimento. Estavam lá recomendações técnicas claras, como ampliação da telemedicina e uso da tecnologia tanto para evitar contato físico durante os atendimentos quanto para entrega de receitas por aplicativos de transporte. Uma mensagem de esperança, porém, falava mais alto. “Nada será como antes após esta crise, mas nós sairemos disso tudo com muito orgulho de sermos psiquiatras e a certeza de estarmos fazendo o melhor. Conte sempre conosco, o melhor está por vir e virá”, escreveu Silva.

O recado dado aos profissionais serve também para a população: todos os períodos, por mais difíceis que sejam, têm fim. “Precisamos transmitir para as pessoas uma forma de elas se sentirem suportadas. Isso passa pelo amparo social e por pacotes econômicos que vêm sendo discutidos no mundo inteiro”, afirma Daniel Martins de Barros, professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. “É imprescindível lembrar que não estamos sozinhos. Manter contato com a família por telefone e participar de grupos virtuais é uma maneira importante de proteger as pessoas e fazer com que se lembrem do caráter transitório dessas medidas.” Na última semana, pacientes que vinham estáveis voltaram a ter crises. Nesses casos, Barros reforça a importância da manutenção do tratamento. Automedicação em nenhuma hipótese é válida. Longe da farmácia, há medidas que valem para todos. “Mantenha o consumo responsável da informação. Vale separar momentos do dia para se atualizar, sem bombardear nosso cérebro com mensagens dos grupos de WhatsApp a todo momento”, lembra o médico (leia no quadro no fim da reportagem outras dicas bem-vindas).

Neurocientista e psiquiatra, Diogo Lara explica a atual sensação de nervos à flor da pele. “Quando estamos socialmente conectados, naturalmente o nosso sistema límbico, ligado às emoções, fica mais sossegado. Sozinhos, temos uma mudança do estado mental para menos racional e mais emocional. Passamos a ver tudo a partir de um filtro mais dramático” explica Lara. “A ansiedade vem não do perigo e dos recursos, mas da percepção do perigo e da percepção dos recursos.” Como acompanhar as atualizações da Organização Mundial da Saúde, que acertadamente eleva o tom a cada desdobramento da Covid-19, e ainda assim buscar estabilizar as angústias? “Estamos no meio de uma transição, só damos significado às coisas depois que elas passam”, lembra a psicóloga Cinthia Alves. “Os transtornos de humor têm como característica comum afetar o significado dado a eventos futuros. Diante do impacto gerado pelo isolamento, é fundamental criar uma rede de apoio para acolher.

O acolhimento vale, inclusive, para as próprias emoções que os profissionais na linha de frente da saúde mental têm experimentado. “Antes, cada paciente apresentava situações particulares. Agora todos estão lidando com as mesmas demandas, também iguais às minhas”, conta Cinthia. Por ter trabalhado muitos anos em UTIs, onde o ambiente de tensão e o medo da morte ficam mais perto, a profissional desenvolveu recursos de gestão de stress para a plataforma Soul.Me, da apresentadora Mariana Ferrão, que em breve serão disponibilizados on-line para cuidadores de centros médicos. Do consultório montado em sua casa, ela vem observando pacientes mais vulneráveis, como os em tratamento para alcoolismo, terem recaídas feias. “Isso acontece em decorrência da compensação. Estávamos muito acostumados a nos distrair de quem somos fazendo algo. O senso de identidade também precisa ser repensado.”

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Para as famílias, o desafio inclui entender as mudanças emocionais nas crianças ao não irem para a escola, por exemplo. “Não vai dar para suprir o que elas tinham do lado de fora. Mas é possível aprender a lidar com as emoções dentro de casa, como a saudade”, diz Tais Masi, psicóloga, terapeuta familiar e idealizadora da escola infantil Jardim Muriqui, em São Francisco Xavier. “Para as crianças de até 7 anos, a explicação sobre a situação deve manter o tom lúdico, numa linguagem que elas possam acessar”, lembra Tais. Ficar atento ao sono e ao apetite delas é importante. “Elas são como esponjas, então é melhor não falar sobre isso o dia inteiro.” Sua recomendação, focada nos pais e mães, alcança todos nós: “É importante criar um ritmo e garantir que o afeto esteja presente.” Juntos, ainda que cada um em sua casa, vamos valorizar a vida e atravessar a fase.

CUIDADOS ESSENCIAIS

Atitudes de gentileza com nós mesmos podem salvar vidas

> Consumo responsável de informação Escolher fontes confiáveis de notícias não basta. É preciso também estabelecer horários para essa função de se informar.

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> Manter a perspectiva Meditar e fazer o exercício de escrever em um diário todos os dias algo pelo que se é grato auxilia a mente a viver a experiência de modo mais saudável.

> Compartilhar ajuda Suporte é fundamental para entender que esta é uma crise grave — mas que vai passar. Manter contato por telefone e participar de grupos virtuais pode aliviar a solidão.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 1º de abril de 2020, edição nº 2680.

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