De carro pela Suíça: um roteiro para além da neve
Conheça o Grand Tour, percurso turístico por estradas que atravessa diferentes paisagens do país europeu e ganha destaque nas estações mais quentes
Quando se pensa em viajar pela Suíça, talvez a primeira imagem tenha bastante neve e um par de esquis. Mas o grande trunfo do país montanhoso no centro da Europa, conhecido pelos seus chocolates, queijos, relógios e canivetes, é a sua versatilidade — para além dos prazeres do inverno, as estações mais quentes também reservam ótimas opções de lazer. E, neste ano, um belo passeio completa uma década de existência: o Grand Tour, um roteiro pensado para descobrir as joias suíças de carro.
Com mais de 1 600 quilômetros de extensão, o percurso se espalha por todo o território multicultural. Afinal, em cada fronteira do país você encontra cenários e línguas diferentes — são quatro oficiais: o alemão (falado por 62,6% da população), o francês (22,9%), o italiano (8,2%) e o reto-romano (0,5%).
As estradas sinuosas revelam paisagens lindas, mapeadas também no aplicativo oficial do roteiro, ideal para localizar os pontos de parada para fotos. Outro detalhe importante: o caminho é todo acessível a carros elétricos, com uma densa rede de estações de carregamento, o que incentiva o turismo sustentável.
Entre a Páscoa e outubro, são muitas as possibilidades de explorar a Suíça, seja em lagos, trilhas, rotas de bicicleta, vinícolas, eventos tradicionais, cidades históricas ou restaurantes impecáveis. A convite do Switzerland Tourism (ST), órgão público que visa promover o turismo no país, a Vejinha percorreu um trecho dessa roadtrip no fim de agosto, e conta em seguida tudo sobre a viagem.
Estrada pelos Alpes
Para fugir de lugares mais óbvios como a capital, Berna, e metrópoles como Genebra, a apenas uma hora de Zurique fica a pequena comuna medieval Stein am Rhein. A cidade bucólica na fronteira com a Alemanha é cortada pelo Rio Reno — no verão, dá para curtir e nadar na água cristalina.
O centro é um espetáculo à parte, com lindas pinturas nas fachadas das casas em enxaimel. As ilustrações representam o poder das famílias que ali moravam, e a mais antiga (e muito bem preservada) data do início do século XVI. Até os bueiros valem a contemplação, muitos estampam a imagem do santo padroeiro do local, São Jorge. Para comer, a dica é escolher um peixe local no cardápio do Hotel Restaurant Rheinfels.
Na direção sudeste, a cerca de 70 quilômetros de distância, fica Appenzell. Para quem busca um lugar mais tradicional e interiorano da Suíça, esta é a cidade ideal. Aos pés dos Alpes, as ruas estreitas são repletas de casas com pinturas coloridas, e nas lojas simpáticas você pode encontrar esculturas entalhadas a mão e trajes típicos. Uma atração da região é o désalpe, a descida do gado das montanhas, em setembro, quando as vacas chegam enfeitadas com flores e sinos. Uma parada obrigatória é a Brauquöll Appenzell, a cervejaria da comuna.
E uma dica importante, que serve para todo o país: não gaste dinheiro com água. Fontes públicas são comuns nas vilas suíças — é só lembrar de levar sempre uma garrafa para encher nos passeios a pé.
Uma vez na Suíça, vale conhecer os vinhos do país, que são pouco exportados. Seguindo o Grand Tour em direção sul, chega-se à região de Bündner Herrschaft, no cantão de Graubünden. Uma das 72 vinícolas instaladas ali é a Weingut Heidelberg, onde é possível comprar garrafas e fazer visitas guiadas.
A cerca de duas horas de distância fica St. Moritz, famoso destino de inverno para esqui e esportes na neve, entre dezembro e abril, mas que no verão também oferece várias atividades, com trilhas e ciclismo. É uma cidade luxuosa, com hotéis caros e galerias de arte. Ao subir de bonde a montanha Muottas Muragl, encontram-se uma bela vista para os Alpes e um lugar deslumbrante para almoçar ou jantar, o Panorama Restaurant do Romantik Hotel.
Adentrando na parte italiana do país, dirigindo cerca de três horas em sentido sudoeste, vale conhecer Bellinzona. Ali estão três castelos medievais conectados entre si e reconhecidos como patrimônio mundial da Unesco: Castel Grande, Montebello e Sasso Corbaro. A fortaleza foi construída entre os séculos XIII e XV pelos duques de Milão, para controlar as rotas comerciais e a passagem estratégica pelo Vale do Ticino, que conecta o sul ao norte.
A maior cidade nessa região ítalo-suíça é Lugano, a menos de uma hora de Bellinzona e a apenas 70 quilômetros de Milão. Apaixonante, o destino mediterrâneo é perfeito para quem busca encontrar o charme da Itália em terras helvéticas, entre a Lombardia e os Alpes, ideal para conhecer no verão.
Há quem compare a paisagem com o Rio de Janeiro, pela semelhança entre o Pão de Açúcar e o Monte San Salvatore. Talvez seja um exagero, mas a comuna à beira do Lago Lugano, com palmeiras pelas ruas e montanhas ao redor, é realmente um destaque da Suíça. Para aproveitar a culinária italiana, uma dica é o restaurante Bottegone del Vino, no centro.
Nos arredores, um programa pode ser visitar a vila de Morcote, e ali conferir a vista da subida até a Igreja de Santa Maria del Sasso. Outro, conhecer a vinícola Tenuta Castello di Morcote, onde fica o restaurante La Sorgente. O merlot bianco, vinho branco produzido a partir de uvas tintas, é típico da região.
Além da viagem pelas rodovias suíças, é claro que os trens são outro universo que vale ser explorado no país. Para pegar o voo de volta para o Brasil em Zurique, uma ideia é ir em direção norte a bordo do Gotthard Panorama Express, que conecta Lugano a Lucerna. A rota histórica que existe desde 1882 é conhecida pelas vistas deslumbrantes dos Alpes. O trajeto até a comuna de Flüelen, no Lago Lucerna, dura pouco mais de duas horas.
Quando se fala em transporte público, uma sugestão é garantir o seu Swiss Travel Pass, o “bilhete único” do país, que proporciona viagens ilimitadas, compradas por número de dias, para ônibus, trem e barco. Apesar dos preços salgados — o franco suíço está na casa dos 6,80 reais —, a Suíça oferece experiências turísticas das mais diferentes. O ideal é se programar com antecedência, para garantir preços melhores. Fugindo da neve, há opções que vão de passeios de bicicleta a festivais como o Montreux Jazz Festival, em julho.
“Os brasileiros têm descoberto a Suíça também fora do inverno, se encantando com os nossos vilarejos e montanhas para a prática de esportes”, afirma Fabien Clerc, diretor do turismo da Suíça no Brasil.
Neste ano, entre janeiro e julho, o mercado brasileiro registrou crescimento de mais de 8% nos pernoites em hotéis suíços. Em 2024, essa alta foi de 21,2%, comparada ao ano anterior. “O Brasil tornou-se prioridade estratégica para a Suíça, com viajantes reconhecidos por seu alto gasto médio diário e preferência por destinos urbanos, vilarejos alpinos e experiências autênticas”, emenda Fabien. “Viajar de carro pela Suíça proporciona liberdade e autonomia para explorar no próprio ritmo, em estradas impecavelmente sinalizadas. O viajante pode contornar as montanhas e, a cada curva, surgem vistas panorâmicas com lagos e vilarejos”, diz.
Os destinos mais visitados da Suíça por brasileiros são as portas de entrada do país: Zurique e Genebra, seguidos por Lucerna. E, nas montanhas, se destacam St. Moritz e Zermatt. A certeza é que você vai encontrar um idioma diferente em cada canto e paisagens lindas, seja no alto de uma montanha nevada ou à beira de um lago quase na Itália. Passeios para todos os gostos e estações. ■
Publicado em VEJA São Paulo de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975





