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“Deus não se importa com o vestido que você veste”, diz Assucena

Lançando o seu primeiro disco solo, a multiartista baiana fala sobre religião, política, guerra e os planos de fazer turnês aqui e fora do país

Por Tomás Novaes
10 nov 2023, 06h00 •
A multiartista Assucena: em voo solo com novo disco, 'Lusco-Fusco' (2023) (Natalia Mitie/Divulgação)
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  • “São Paulo me abraça como uma mulher nordestina, judia e trans”, diz Assucena, 35, que vive na capital paulista há dezesseis anos.

    Foi aqui onde a cantora, compositora e atriz, nascida em Vitória da Conquista, na Bahia, trocou a graduação em história na USP pela carreira musical com a banda As Bahias e a Cozinha Mineira.

    Após seis anos — que renderam três álbuns, três EPs e duas indicações ao Grammy Latino —, o trio, formado por duas mulheres trans e um homem cis, se desmembrou e, em setembro último, a multiartista lançou seu primeiro disco solo, Lusco-Fusco (2023).

    Em 2022, também estreou no teatro, na peça Mata Teu Pai, ópera-balada, com a qual foi indicada ao Prêmio Shell de melhor atriz. “É um recomeço”, define ela, que se apresenta na Casa Natura Musical, no dia 18, e no Itaú Cultural, em 24 de novembro.

    Você começou sua carreira solo com um show de intérprete, em homenagem a Gal Costa. Por quê?

    Quando a banda acabou, não sabia o que fazer. A gente estava no fim da pandemia e senti uma vontade enorme de voltar aos palcos. Não tinha um disco, mas sabia que, naquele ano, o álbum que me pariu como artista completava cinco décadas. Fa-Tal — Gal a Todo Vapor (1971) foi importante no meu processo de transição, me deu contorno e força naquele momento. Não pensava em ir para a música, e sim em seguir carreira acadêmica. Sempre brinco que a Gal me tirou da faculdade, porque estava com 80% do curso pronto quando decidi ser cantora.

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    “A vivência universitária foi fundamental para entender que não sou um pecado ambulante, um erro, e não nasci no corpo errado”

    O seu processo de transição foi em São Paulo, durante a faculdade?

    Nunca me senti gay, nunca tive relação com a palavra. De repente, na universidade, aparece o termo mulher trans, e isso me veste e atravessa. Foi onde me encontrei e nasci de novo, onde recebi as primeiras roupas e maquiagens das minhas amigas. E a faculdade me deu todo um arcabouço político, o feminismo foi muito importante no processo. As discussões levantadas me davam a certeza do que estava fazendo, porque venho de origem conservadora. Por isso defendo a universidade pública de qualidade. A vivência universitária foi fundamental para entender que não sou um pecado ambulante, um erro, e não nasci no corpo errado. Essas discussões não são de Twitter, de Instagram, de Facebook — a gente está falando de conversas sérias, com acúmulos bibliográficos, olho no olho, com palestrantes e acadêmicos. Sempre amei o conhecimento e foi através dele que pude me libertar no mundo.

    Você tem ascendência judaica, de origem marroquina. Como o contexto familiar lidou com sua sexualidade?

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    Tem poucas famílias judias em Vitória da Conquista, que não constituem uma comunidade. Judaísmo não é só religião, é um povo, uma cultura. Tinha um vínculo muito forte com isso — nós acendíamos as velas do Shabat, arrumávamos a casa às sextas, não comíamos carne de porco. E a minha avó paterna, que não era da religião, foi quem trouxe a concepção judaica para me chancelar no seio da minha família. Ela usou uma passagem bíblica do profeta Samuel, em que Deus diz que não olha para a aparência, e sim para o coração. Ela usou isso para dizer que Deus não se importa com o vestido que você veste, com o salto que usa, com o batom que coloca no seu rosto. Você pode continuar sendo quem você é, o que importa é o seu caráter, a sua integridade.

    Qual sua relação com a religião hoje?

    Eu sempre busquei, dentro de mim, uma relação com a ideia de Deus. A espiritualidade das pessoas trans sempre foi uma religiosidade sequestrada pelo falso argumento de termos um caráter pecaminoso por sermos LGBTQIAPN+. Fui entendendo que muitas pessoas da comunidade não estavam nas sinagogas por serem espaços muito aparelhados pelo conservadorismo. E a gente precisava ocupar esses lugares. Consegui, com outros judeus, montar a primeira comissão judaica federada que abraça qualquer iniciativa LGBTQIAPN+, em São Paulo. As pessoas precisam entender que essa comunidade é plural, assim como na questão atual do Estado de Israel. É inadmissível o que está acontecendo na Palestina hoje, na Faixa de Gaza, e é indefensável a ação do Hamas, que é um grupo terrorista. Entendo a resistência do povo palestino e a necessidade de sermos mais enfáticos na denúncia das violências de Israel. Também tenho uma série de ressalvas com a forma que a esquerda pensa esse tema, que parece não considerar a questão judaica de forma complexa. Por isso digo que é uma questão complexa, e não de bandeirinhas nas redes sociais. E abro o meu coração, inclusive, para que se discuta e se aprenda mais sobre isso.

    Qual o legado de As Bahias e a Cozinha Mineira para a cena musical?

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    Fomos fundamentais na consolidação de uma cena LGBTQIAPN+. Da nossa geração, nós fomos as primeiras trans a declarar nossa sexualidade publicamente e falar abertamente sobre a transição. Recebemos as duas primeiras indicações consecutivas de pessoas trans no Grammy — e, no ano passado, a Liniker ganhou. Nada vem do nada, a gente participou de uma construção ativa e muito importante para a música brasileira. E a arte tem uma questão de propulsão, inclusive, dessas pautas. Primeiro veio a música, a cena artística, e depois a política.

    Qual a sua visão sobre o governo atual, comparada às suas expectativas antes das eleições?

    A minha expectativa sempre foi muito realista. Eu apoiei a reeleição do presidente Lula. Acho que, com ele, a gente volta a uma normalização do status quo da política. A gente sempre soube que nunca seria fácil, inclusive porque o Brasil vem de uma reconstrução muito pesada do governo Bolsonaro. Estou com meus pés no chão e acho que a gente precisa de novos quadros na esquerda e na centro-esquerda. A juventude política precisa sair de certos modismos, porque não tem mais espaço para receber o presidente Nicolás Maduro com a pompa que recebemos. Como esquerda, não podemos aceitar isso. Vou discordar muito de algumas posturas de Lula e concordar muito com outras.

    O que almeja no futuro próximo da sua carreira?

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    Quero construir uma turnê muito sólida e conquistar os festivais do Brasil, estar em todos os estados, porque acho que, sendo uma cantora de um país continental, isso é muito importante. Pretendo fazer minha primeira turnê latino-americana e europeia, dar um passo de cada vez, com sabedoria, e acho que o sucesso é uma consequência. O princípio, para mim, é ser reconhecida como uma grande cantora no meu país.

    Publicado em VEJA São Paulo de 10 de novembro de 2023, edição nº 2867

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