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“Carlos Gomes fez o que foi possível no tempo dele”, diz Ailton Krenak

Ambientalista atualiza narrativa e traz representatividade indígena em montagem inédita da ópera 'O Guarani', que estreia no Theatro Municipal

Por Tomás Novaes
5 Maio 2023, 06h00

Ouvir Ailton Krenak, 69, é como ler um bom livro. É por isso que as publicações do líder indígena e ambientalista, como o best-seller Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019, Companhia das Letras), são transcritas diretamente de suas entrevistas, conversas e palestras.

Prestigiadas e debatidas ao longo de quatro décadas de ativismo, as ideias do mineiro, nascido no Vale do Rio Doce — onde vive até hoje —, o levaram da memorável participação na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, ao Theatro Municipal de São Paulo, na sexta-feira (12), com a estreia da nova montagem da ópera O Guarani, de Carlos Gomes (1836-1896), inspirada no romance homônimo de José de Alencar (1829-1877).

Imagem mostra homem com camiseta preta escrita 'Revanche'
Com camiseta que comprou no trajeto para o Municipal, num dia frio, sem prestar atenção à mensagem: “Revanche”. (Stig de Lavor/Divulgação)

Mesmo alheio aos espetáculos líricos, Krenak foi convidado a idealizar a nova versão, dirigida por Cibele Forjaz, que reúne ator, atriz, coro, orquestra e direção de arte indígenas.

“Conseguimos juntar uma turma entusiasmada em puxar o texto para um outro centro de gravidade que não seja o discurso colonial”, resumiu o escritor.

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Por que revisitar O Guarani?

A gente entendeu que Carlos Gomes estava, na época dele, fazendo o possível. Era a ópera que a Europa queria ver: uma narrativa ideal sobre a formação dos brasileiros, aquela coisa bonita do índio Peri com a linda Ceci. É um conto de fadas, mas não dava para deixar assim, porque é uma obra de referência e continua sendo um veículo de mensagens e imagens caricatas. Como a figura do índio que passou pela Semana de 22, apareceu em Macunaíma e depois na tropicália. Esse índio que desce de uma estrela em um ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico não é gente. Não é de carne e osso.

Como vocês levam essa nova versão ao palco?

Se você vai tocar no assunto guarani em São Paulo e não convida o pessoal do Jaraguá, é no mínimo uma falta de educação. Então vamos ter um coro e uma orquestra de jovens guaranis participando dessa releitura crítica. E a ópera tem um princípio básico: ninguém mexe no libreto. Então como mudar algo que não se pode mexer? Com a experiência da Cibele e a intervenção de artistas de cena, concebemos a ideia de termos dois Peris e duas Cecis, dois duplos, que vão transitar entre os outros corpos.

E que mensagem você busca passar com essa releitura?

O que eu espero é conseguir colar a obra nesse momento da realidade política em que nós somos desafiados a mudar nossos padrões. A contradição está em tudo, e das coisas que achamos ruins em nós a gente não consegue se desfazer por falta de coragem. Essa narrativa influencia toda a produção de ideias no nosso país, a literatura, o cinema. É um cânone: ele guia toda uma narrativa sobre o mundo. Se a gente conseguir mexer nisso, pelo menos na nossa realidade doméstica, no Brasil, podemos estar contribuindo para uma mudança que será ampla, em cadeia. Não podemos nos esquecer que o Carlos Gomes fez o que foi possível no tempo dele, e cabe a nós fazer o que cabe no nosso tempo.

Qual o impacto que essa obra tem na cultura brasileira hoje?

Essa ópera tem um elemento que constitui o que chamam de racismo estrutural. Ele não tem culpa, vem de longe e é instituído em camadas invisíveis. E só é estrutural porque a gente o reproduz no presente de maneira inconsciente ou irresponsável. Se a gente conseguir fazer releituras, a obra vai ganhando atualidade, vai se tornando contemporânea no sentido ético. A estruturação desses vícios de linguagem, que vai instituindo uma caricatura racista, preconceituosa, sexista, é feita grão a grão. Não é de uma vez. A gente não despeja um caminhão de racismo em cima de uma realidade, a gente institui nela ao longo do tempo. E O Guarani contribuiu grandemente para congelar a ideia do indígena no tempo colonial, de que os bandeirantes encontram um sujeito primitivo e que atrapalha o progresso. A gente chegou ao século XXI com a mesma narrativa: que os povos indígenas atrapalham o andar da carruagem. Tivemos quatro anos de um governo em que autoridades repetiam esse cacoete de coisas incrustadas na nossa ampla literatura.

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Como você enxerga o lugar do indígena no Brasil atual?

Despir o Peri também é algo coerente com as intervenções políticas que pessoas indígenas estão fazendo no país. Como a nossa presença no Executivo, no Ministério dos Povos Indígenas, uma coisa impensável no Brasil até a década de 80. É inadmissível que os indígenas ainda precisem reivindicar um lugar no século XXI. É muita sacanagem. Assim como o imenso contingente de pessoas de matriz africana que vivem no Brasil, que chamamos de negros, que todos os dias precisam reivindicar um lugar. Dentro do ônibus, no metrô, no trabalho, na rua. Há muita violência nas relações inter-raciais no Brasil. E esse lugar que hoje os indígenas estão reivindicando é antigo. Não tem novidade nenhuma o fato de estarmos metendo a mão na ópera do Carlos Gomes.

Você citou o Executivo. O novo governo pode mudar esse panorama?

O governo Lula vai ter que entregar o que ele prometeu em campanha, que é o cessar da violência em cima da vida indígena e da invasão dos nossos territórios. É um armistício. Nós estamos metidos em um épico mais agudo que o do Peri, porque ele só tinha que convencer os aimorés a deixar aquela família portuguesa em paz. Agora nós precisamos conciliar a realidade de um país fraturado com as demandas de povos indígenas que nunca foram atendidas. Eu acredito que, se o governo Lula for muito competente, sortudo e feliz, vai atender 10% da demanda indígena. A gente não pode esperar que o Estado brasileiro resolva o que todos os governos desde a Constituição, que estabeleceu um prazo para a demarcação das terras indígenas, não resolveram.

Você completa 70 anos em setembro. Que balanço faz do resultado das suas décadas de ativismo?

Eu fico admirado com o tanto de retornos que se apresentam para mim, como a Academia Mineira de Letras, que fui convidado a integrar. Nos últimos anos, recebi o título honoris causa de três universidades e estou com um memorial na UFMG para um título de Notório Saber. Ora, um sujeito chegar aos 70 anos com tanto reconhecimento é o suficiente para festejar. E não é muito comum, na cultura do nosso país, as pessoas serem reconhecidas em vida. O que costuma acontecer é as pessoas serem enterradas antes de morrer. Ser celebrado é um luxo.

Publicado em VEJA São Paulo de 10 de maio de 2023, edição nº 2840

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