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“Os indígenas vivem um genocídio de 500 anos”, afirma Daiara Tukano

Prestes a estrear exposição individual na Millan, a artista reflete sobre suas inspirações ancestrais e a importância de ensinar sobre os povos originários

Por Mattheus Goto
Atualizado em 3 fev 2023, 17h18 - Publicado em 3 fev 2023, 06h00

Daiara Hori Figueroa Sampaio, também conhecida como Daiara Tukano, ou Duhigô, é paulistana de nascença, mas em suas veias corre o sangue do povo indígena tukanos, do Alto Rio Negro, no Amazonas.

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Além de sua origem, outra característica inata determinante em sua vida é a vocação artística. Desde pequena, dedica-se a criar pinturas sobre e para seu povo.

Aos 40 anos, ela celebra uma parceria de representação comercial com a galeria Millan, em Pinheiros, e a abertura de Amõ Numiã, sua primeira mostra individual, em cartaz a partir de sábado (4) até 11 de março (segunda a sexta, das 10h às 19h, e sábados, das 11h às 15h).

À Vejinha, a artista graduada em artes visuais pela Universidade de Brasília fala sobre seu trabalho, a falta de reconhecimento à arte indígena e o contexto sociopolítico atual — marcado pela criação do Ministério dos Povos Indígenas e a tragédia humanitária dos yanomamis.

Como e quando você começou a se expressar e a se interessar por arte?
Desde criança. Minha mãe sempre me incentivou porque viu que eu tinha paixão. Sou filha primogênita e no nosso povo a ordem de nascimento é importante. Meu próprio avô falava que, se eu tivesse nascido homem, seria cacique. Mas nasci mulher e sou contadora de histórias. Tem muitas figuras femininas na nossa cultura  que o pessoal não dá muita bola, mas são importantes e sagradas. Gosto muito de explorá-las para desenvolver a filosofia dos tukanos. A ideia mais importante do nosso povo é a transformação. Moramos em casas da transformação. Nós somos os povos da transformação.

Que mensagem quer passar com as obras?
Poder contar essas histórias. O nome da exposição (na Millan) faz referência às primeiras mulheres. São telas com mulheres gigantes, oito de 2,5 metros de altura e uma de 4 metros. É um momento feminino, uma geração feminina. Espero possibilitar o debate sobre a importância delas, que cuidam do nosso povo, que se transformam e fortalecem a relação com a terra. Compartilhar essa cosmopotência é a maior provocação.

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O que o contrato com a Millan representa para você?
Quero fazer circular esse tema em mais espaços. Dentro e fora do Brasil. Está na hora de conectar artistas indígenas ao redor do mundo. A arte indígena contemporânea é um fenômeno mundial. Está acontecendo em todos os continentes. A gente tem de elevar essa presença.

Que obstáculos enfrentou para ser reconhecida no meio artístico?
Existe um racismo muito grande no Brasil sobre povos indígenas, que passa pela exotização das pessoas, dos corpos e dos fazeres indígenas. Em muitos momentos, quando a gente se coloca como um indígena que faz arte, esse preconceito fala mais alto do que a própria arte. Aconteceu várias vezes de me questionarem por que pinto com tinta acrílica e não com jenipapo, por exemplo. Como se fôssemos limitados a trabalhar com materiais específicos e não enxergássemos outras possibilidades e técnicas. Também já recusei vários convites para mostras que me convidaram só por eu ser indígena, sem nem sequer conhecer o meu trabalho.

Como as obras conversam com o contexto de São Paulo?
O brasileiro nunca aprendeu direito sobre povos indígenas. Qualquer oportunidade a gente tem de correr atrás para ensinar. São Paulo pode parecer muito grande, mas é uma bolha pequena. É uma cidade grande neste Brasil muito maior. A exposição chama para conhecer não só a história do meu povo, mas de todos os outros povos originários do Brasil. São Paulo sempre foi um lugar importante, onde aconteceram muitas discussões e que reuniu lideranças indígenas. Meu pai é uma delas. Ele veio com a minha mãe na década de 80 e foi quando eu nasci.

“Nos últimos quatro anos, houve uma guerra declarada contra os povos indígenas. É isso o que revela a situação dos yanomamis. Um cenário de extermínio”

O Masp tem como pauta neste ano as histórias dos indígenas. O Museu da Língua Portuguesa e o Instituto Moreira Salles (IMS) também estão com exposições sobre o mesmo tema. Há uma evolução dessas discussões em São Paulo?
Faço parte de uma geração que insistiu e provocou as instituições para que elas pudessem se abrir para a temática e presença indígena. Não só dentro do museu, mas também da escola e da universidade. A gente entende que a luta antirracista e contracolonial passa por todas as linguagens. A arte é um lugar privilegiado de construção dessas narrativas. Dentro da história da arte do Brasil, se você olhar em um livro, vai ver lá que índio bom só é índio morto ou ajoelhado na frente de uma cruz. A visualidade é um campo de linguagem, de pensamento e de disputa identitária. Estar nesse espaço é uma maneira de defender nosso território. Isso só foi feito com muita luta, para poder abrir as portas. Se há hoje um movimento um pouco mais forte em São Paulo, é por insistência dos artistas e dos fazedores de cultura. Conseguimos, por exemplo, o Museu das Culturas Indígenas, que é muito legal, porque é feito em colaboração com as comunidades indígenas da cidade, principalmente a guarani. Também tivemos exposições na Pinacoteca, na Bienal e no Museu de Arte Moderna nos últimos anos, e agora no Masp, IMS e Museu da Língua Portuguesa.

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Como você avalia o contexto sociopolítico dos indígenas hoje?
O ministério acabou de ser criado, agora precisamos de políticas públicas. Fico muito feliz com a criação dele, é um fato histórico. Tivemos de fazer muita coisa com a ausência do Estado. A partir de agora, o governo não pode se omitir dos indígenas. Estamos vivendo um genocídio de 500 anos. Especialmente nos últimos quatro anos, houve uma guerra declarada contra os povos originários. É isso o que revela a situação dos yanomamis. Um cenário de extermínio e perseguição causado principalmente por interesses sobre o garimpo e a mineração no território deles, protagonizado por figuras políticas de Roraima e do Brasil. No governo Bolsonaro, eles sofreram uma série de ataques, que resultaram no estado de calamidade que temos hoje. Precisamos de toda a nação envolvida para mudar e fazer com que nossos direitos já constituídos sejam respeitados.

Publicado em VEJA São Paulo de 8 de fevereiro de 2023, edição nº 2827

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