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O refúgio do slow fashion

Helena Pontes deixa o agito de Pinheiros rumo ao Jardim Paulistano para oferecer uma experiência de moda autoral sem pressa

Por Vanessa Barone 6 ago 2026, 08h00
Mulher de cabelo curto e escuro, com batom vermelho, sorri enquanto segura uma caneta sobre moldes de papel pardo em uma mesa. Ela veste uma blusa branca de gola alta e ombros estruturados. Ao fundo, um manequim com uma peça preta e uma arara com roupas em tons neutros, como cáqui, bege e preto
Helena em seu espaço de criação: estilo feito de tradição regional e memórias de infância (Leo Martins/Veja SP)
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Vivendo um boom imobiliário, o bairro de Pinheiros, na Zona Oeste da cidade, já foi o ponto ideal para abrigar lojinhas charmosas, ateliês criativos e toda a sorte de estabelecimento que convidasse a uma pausa contemplativa para apreciar o belo. Não mais. Principalmente, no caso de marcas de moda autorais, que propõem um consumo mais demorado e consciente.

Foi a partir dessa conclusão que a estilista pernambucana Helena Pontes, 45, mudou a sua loja na Rua Cônego Eugênio Leite do número 1047 para o 273 — passando para o lado da rua que pertence ao Jardim Paulistano, local mais tranquilo, com menos passantes, mas que respira arte e design.

“Tem mais a ver com o tipo de consumo em que acredito. A minha cliente precisa de tranquilidade para experimentar as peças, pedir ajustes ou encomendar algo diferente. Eu faço roupa para mulheres, para ocasiões especiais”, diz Helena, que agora consegue receber em um espaço com ares de casa para acomodar o seu estilo slow fashion.

Fachada de uma loja branca com telhado de telhas, nome HELENA PONTES acima da vitrine, que exibe um vestido claro em manequim. À direita, porta aberta. Um portão cinza e uma árvore frondosa à esquerda. À direita, muro branco com plantas e o número 273
Nova loja de Helena Pontes: do outro lado da Cônego Eugênio Leite (Leo Martins/Veja SP)

Tudo no ambiente foi pensado para acalmar o olhar e trazer conforto — requisitos essenciais para se apreciar detalhes de costura, sentir a matéria-prima e decidir com calma, enquanto se toma um café passado na hora e se joga conversa fora.

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Na parte da frente, fica o espaço de loja, com araras e provador. Nele, o assistente de estilo David Lannes e a própria Helena se dividem no atendimento às freguesas, enquanto o andar de cima reúne escritório e estoque. “É importante ter tempo para conversar e entender o que a pessoa procura”, afirma David.

Nos fundos, ainda há um quintal e uma espécie de galpão que funciona como ateliê de criação, com iluminação natural e jardim de inverno. É onde a mágica acontece.

Manequim de costura branco sem cabeça, com um vestido bege claro, em uma vitrine. Ao fundo, roupas coloridas penduradas e reflexo de árvores e céu azul.
Vitrine na nova loja: inspiração no maracatu de baque solto (Leo Martins/Veja SP)
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A moda da grife Helena Pontes é artesanal e remonta a um passado de peças feitas sob medida, com acabamento caprichado, desenho original e qualidade para durar uma vida inteira.

A nova casa reúne, além das criações da estilista, peças de designers parceiros. É o caso das araras e do balcão feitos em inox por Gianni Toyoda, do mobiliário do Estúdio Orth, das poltronas do Studio Cerne, das cerâmicas de Rosalva Siqueira, da fragrância desenvolvida pela Saboaria Brasil e das criações da tecelã pernambucana Juliana Maia.

Roupas em tons de bege, vermelho e marrom penduradas em um cabideiro metálico, com uma parede de tijolos brancos ao fundo
Arara com a coleção: estilo minimalista (Leo Martins/Veja SP)
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São itens que conversam muito bem com a nova coleção de Helena, Baque Solto, inspirada pelo maracatu de baque solto (ou maracatu rural) — manifestação cultural tradicional de Pernambuco, surgida no final do século XIX e início do século XX nos engenhos de cana-de-açúcar da Zona da Mata. O ritmo foi criado por trabalhadores rurais como forma de lazer e resistência cultural.

Nesse contexto, o caboclo de lança — símbolo máximo da festividade — veste um manto com fitas coloridas e tem uma flor branca na boca. O ritmo da música é acelerado e fluido, com presença de cantorias e improvisos de versos feitos pelos mestres e tiradores de coco.

Na nova coleção da estilista, imagens e memórias se transformam em linguagem gráfica e modelagem. “A minha primeira expressão artística foi a dança”, diz Helena, natural do Recife. “No Balé Popular eu aprendi a dançar afoxé, maracatu, caboclinho, manifestações da cultura popular que despertaram o meu olhar para as tradições. Foi onde aprendi o maracatu de baque solto”, afirma a criadora, que mesmo longe da terra natal não deixa de homenageá-la com a sua arte.

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Ela começou a desenhar a coleção a partir da lança do personagem central do maracatu, cuja força simbólica e a riqueza das cores foram traduzidas para a moda. Dos desenhos, a estilista passou para a construção de peças que se traduzem em recortes, volumes e na arquitetura das modelagens. “São imagens da minha memória afetiva transformada em roupas.”

Ateliê de costura minimalista com paredes brancas e chão cinza. À esquerda, um tronco de árvore com folhas verdes é visível através de uma divisória de vidro. No centro, manequins exibem roupas e há uma mesa de trabalho de madeira. À direita, um arara de roupas com peças em tons neutros e sacolas de papel. O teto tem estrutura metálica aparente.
Ateliê Helena Pontes: onde a mágica acontece (Leo Martins/Veja SP)

Roupas que, embora inspira – das por uma tradição rural, não têm nada de caricaturais. O estilo da pernambucana, como sempre, é minimalista, composto por peças lisas que remetem à extravagância das vestes folclóricas em detalhes como decotes, fendas e estruturas.

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São criações traduzidas para a linguagem urbana com precisão, sem exageros. “Um de meus mestres é o estilista Jum Nakao, que me ensinou a construir a roupa direto no manequim, usando fita crepe”, conta. Isso permite modelar o tecido de forma a chegar em uma forma perfeitamente anatômica.

Formada em design gráfico pela Universidade Federal de Pernambuco, Helena se especializou em moda na escola Esmod, na França. Mas foi com a avó Maria Anunciada, costureira autodidata, que aprendeu a apreciar uma costura bem-feita. Com ela, na adolescência, costumava percorrer lojas de artigos têxteis em busca da matéria-prima que seria transformada em roupa para a neta. Dona Maria Anunciada costurou até os 98 anos e morreu em 2016, aos 99. “Com ela aprendi a valorizar os processos manuais”. E, hoje, faz dele a sua arte.

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