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“É mais fácil vender produto com causa do que receber doação”

Fundadores da ONG Reviva criaram rede de varejo com sete unidades mais e-commerce para financiar projetos de impacto social no Brasil e na África

Por Helena Galante Atualizado em 5 fev 2021, 02h53 - Publicado em 5 fev 2021, 03h00

A Reviva tem um fim social. Entre tantas demandas atuais, como escolher qual a mais urgente?

Bruno — Assistencialismo e caridade não transformam, por isso temos foco no desenvolvimento comunitário.
Bia — Identificamos que a mulher precisa trabalhar, ela é que vai apoiar seus filhos futuramente. Montamos uma escola em Moçambique, por exemplo, mas não podemos cuidar de todas as crianças. As mulheres, com poder e independência, podem.

Qual o papel das doações no trabalho social?

Bruno — Começamos com doações de pessoas físicas, mas em 2017 a Reviva começou a trilhar o caminho da independência. Hoje, vivemos 101% do trabalho das nossas lojas

Como foi erguida a primeira escola em Moçambique?

Bruno — Vendendo camiseta, quadro e saia. Em 2017, tivemos apoio de um shopping para abrir uma loja, eles nos isentaram dos custos do espaço.
Bia — Começamos a trabalhar com capulanas, tecidos típicos de Moçambique. Em 2018, surgiu a primeira Casa Reviva, em Pinheiros, e passamos a trazer a pluralidade do trabalho de pequenos produtores.

Esses produtores precisam ser bem remunerados. Há os custos e o trabalho social a ser mantido. Como a conta fecha?

Bia — O pequeno produtor faz parte da cadeia de impacto, ele não é o impactado. Ele está junto conosco, fornece o produto em consignação para as nossas lojas físicas e para a on-line. Ele é remunerado por isso. A porcentagem que eles deixam é para custear as despesas comuns, aluguel, luz, impostos… O impacto vem das marcas próprias, a Voz e a Sinta-se Em Casa. Com elas conseguimos bancar os projetos.

O consumidor compra porque o dinheiro do produto será usado para um projeto social?

Bruno — As pessoas gostam de comprar. O consumo acontece independente de uma causa, ou não. Tivemos o insight de aproveitar isso. Não tem a cultura da filantropia no Brasil. As pessoas querem ter coisas novas, uma pequena parcela é mais consciente, quer mudar seus hábitos, pensa em comprar em um lugar que não utiliza trabalho escravo, mas não é a maioria. Então, as pessoas vêm pela curadoria, pela qualidade.

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Como se manter competitivo nesse mercado de varejo?

Bruno — Sempre dizemos para os nossos colaboradores: a gente não pode usar do escudo que nós somos ONG para ganhar vantagem. Sem inovação, a gente vai morrer no mercado tradicional. Então, nós usamos a lógica do capitalismo, mas para beneficiar quem precisa. Se você não pode ir contra seus inimigos, junte-se a eles e faça o que você acredita. Destine o resultado para a sua missão.

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“As pessoas gostam de comprar. O consumo acontece independente de uma causa”

Por que começar uma franquia da Casa Reviva?

Bia — Foi uma atitude para chegar a lugares do Brasil que, com nosso próprio recurso, não conseguiríamos. Em agosto, começamos a receber perfis de interessados. Mas fizemos uma seleção. O franqueado precisa entender que a Casa Reviva tem um fim social — mas ele também vai viver disso. A ideia é que cada operação seja responsável por uma unidade ou parte do projeto. Os royalties serão destinados para a manutenção do lugar.

Já há franqueados em ação?

Bruno — Identificamos uma oportunidade: investidores que buscavam negócios que tivessem sustentabilidade, uma causa social enraizada, produtos rastreáveis e fim social. No primeiro mês, recebemos 76 inscrições. Dispensamos quem estava de olho só no sentido financeiro. O impacto positivo é a prioridade. Temos dois franqueados em fase de assinatura de contrato. Queremos construir uma rede de varejo que tem suas obrigações, mas sabe pelo que trabalha.

Tem a ver com propósito?

Bruno — Hoje ficou comum as empresas falarem de propósito, mas a gente reforça isso desde sempre. Nós, Bruno e Bia, não recebemos dividendos, não temos distribuição de lucro. O lucro vai para o impacto, é o nosso propósito. Recebemos nossos salários, mas vivemos uma vida simples. Tem muito trabalho para chegar ao que a gente acredita.

Em dezembro, a Vejinha fez uma matéria de capa sobre o balanço da solidariedade em 2020. Qual a percepção de vocês sobre o tema?

Bruno — Teve uma movimentação de grandes empresas, mas esse efeito Covid passou. Quem não teve autocrítica, quem não mudou, não muda mais.
Bia — No site, a gente mantém uma opção de doação, mas aparecem duas ou três pessoas a cada dois meses. O valor não faz nem cócegas. Por isso recomendamos que a pessoa conheça nossas lojas.
Bruno — Ainda é mais fácil vender um produto que tenha uma causa do que receber uma doação.

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Publicado em VEJA São Paulo de 10 de fevereiro de 2021, edição nº 2724

 

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