Lollapalooza faz rito de passagem geracional em Interlagos
Mega festival escolheu o caminho mais inteligente: dialogar com quem está chegando
No último domingo, levei minha filha Júlia, de 11 anos, pela primeira vez ao Lollapalooza Brasil. O objetivo era claro: assistir ao fenômeno global Katseye — esse novo pop híbrido, com DNA do K-pop, mas já expandido para além da Ásia, mais diverso, formado através de um reality show totalmente conectado com a linguagem de uma geração que nasceu digital.
O que encontrei por lá- talvez, tão simbólico quanto o show em si – foram milhares de pais e mães acompanhando seus filhos, caracterizando que não era apenas mais uma edição de um dos maiores festivais do mundo, mas um rito de passagem geracional acontecendo ali, no Autódromo de Interlagos.
O Lolla, que já virou tradição na cidade, em sua 14ª edição, fez este ano uma inflexão importante. Ao escalar nomes como Sabrina Carpenter, Chappell Roan, Addison Rae, Turnstile, Lewis Capaldi e o próprio Katseye, novos fenômenos globais juvenis, o festival sinaliza com clareza algo essencial para sua própria sobrevivência: a necessidade permanente de renovação de público. Mesmo Tyler, the Creator e Lorde – artistas que diversificam o pop com mais densidade musical e que misturam públicos de diferentes idades – tiveram também em suas audiências – predominância jovem.
Festivais que se cristalizam em uma identidade geracional correm o risco de envelhecer junto com seu público. E, quando isso acontece, perdem potência, relevância, futuro. O maior desafio para quem atua na cena cultural é justamente entender que a cidade é organismo vivo, e que a cultura, para continuar pulsando, precisa abrir espaço para o novo — mesmo quando esse novo não nos pertence completamente.
O Lollapalooza 2026 compreendeu isso com precisão. Mérito claro da direção artística de Marcelo Beraldo, que aponta um caminho não apenas para o festival, mas para todo o ecossistema desses grandes eventos.
Isso não significa abandonar as gerações anteriores, mas reorganizar os espaços. E, claro, que existe lugar também dentro dos mega festivais para artistas mais velhos que agradam também os país. Talvez não serão os chamados “headliners” mas podem compor a diversidade da festa. Esse ano, tivemos o Cypress Hill no Lolla, afinal. Jump Around!
Os os grandes festivais – esses que acontecem em três dias ou mais, com publico diário de 100 mil pessoas – são plataformas de impacto massivo, motores de turismo, engrenagens importantes da economia criativa das cidades. E, para cumprir esse papel, precisam estar conectados com o presente — e, mas sobretudo, com o futuro.
Ao ver minha filha cantando, cercada por uma multidão da sua idade, ficou evidente que esse futuro chegou também em lugares que até outro dia eu sentia muito pertencimento. As novas gerações precisam de espaço. Cabe a nós não atrapalhar. E, se possível, até cantar juntos.





