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Futuros: de dentro pra fora

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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

Quando o cansaço se instala como pano de fundo, descansar vira lucidez

Relatórios internacionais sobre burnout apontam níveis recordes de estresse no trabalho, especialmente entre os mais jovens

Por Sabina Deweik 22 dez 2025, 08h00 • Atualizado em 22 dez 2025, 19h44
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Paradoxo: enquanto tentamos fechar ciclos, metas e pendências, o corpo pede pausa (Freepik/Reprodução)
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  • O cansaço já não aparece apenas depois de uma semana intensa ou de um projeto que exigiu mais fôlego. Ele se instalou. Virou pano de fundo. Entramos na reta final do ano com corpos funcionando no automático e uma sensação persistente de que estamos sempre devendo energia, atenção e foco. Como se o descanso tivesse sido adiado tantas vezes que passou a parecer um privilégio, quando, na verdade, é necessidade básica.

    Nos últimos meses, tenho ouvido variações da mesma frase em contextos muito diferentes: “está pesado”. Pesado o trabalho, a rotina, o clima, o noticiário, o futuro. Essa sensação difusa ganhou contornos mais claros em pesquisas recentes sobre o humor do brasileiro. Um levantamento da Hibou mostra que 2025 tem sido vivido com uma mistura de exaustão, pessimismo e frustração cotidiana. Não há alívio no bolso, nem muita fé de que a política vá destravar mudanças reais. Segurança, saúde e trabalho parecem andar para trás.

    Esse mal-estar não é exclusividade nossa. Relatórios internacionais sobre burnout apontam níveis recordes de estresse no trabalho, especialmente entre os mais jovens. Gerações que entram no mercado já cansadas, com dificuldade de desligar e cada vez menos à vontade para falar sobre saúde mental com seus líderes.

    Aqui no Brasil, esse desgaste começa a se materializar também em números jurídicos e econômicos, com aumento de 14,5% de ações trabalhistas relacionadas a esgotamento nesse ano. O corpo dá sinais e adoece. O sistema só escuta quando vira custo.

    Mas talvez o dado mais revelador não esteja nos relatórios, e sim no cotidiano. Está na normalização da indisponibilidade emocional. Na agenda sempre cheia. Na sensação de que descansar precisa de justificativa. Vivemos uma cultura que fala de bem-estar, mas ainda opera no modo da urgência permanente.

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    Como nos esclarece o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, “A sociedade do desempenho explora a si mesma e acredita que isso é liberdade.”

    No fim do ano, esse paradoxo fica ainda mais evidente. Enquanto tentamos fechar ciclos, metas e pendências, o corpo pede pausa e menos estímulo. Não é vontade de festa; é vontade de alívio. De alguns dias em que a vida não precise ser otimizada.

    Esse cansaço que sentimos e que marca este fim de ano não é pontual. Ele é o sintoma de um modelo que precisa ser revisto. Há algo latente no ar que pede por rever ritmos que já não cabem na vida real e uma ideia de sucesso que precisa ser atualizada.

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    Por isso, o descansar, hoje, virou quase um gesto subversivo. Não porque seja raro, mas porque contraria a lógica da performance contínua. E talvez seja justamente por isso que ele se tornou tão necessário. Descansar não é abandonar o futuro, é criar condição para que ele exista.

    Às vésperas de um novo ano, o convite é que possamos pausar sem pedir desculpas. Entrar em 2026 sem pressa. Porque não há futuro possível, pessoal, organizacional ou coletivo, construído sobre corpos exaustos.

    Relaxe. Respire. Regenere. Sem culpa.

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