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Por que é tão difícil praticar a gratidão?

Marcelo Galuppo e Davi Lago falam sobre as dificuldades em valorizar o que já temos e como nos superestimamos

Por Marcelo Galuppo e Davi Lago em depoimento a Helena Galante 25 jun 2021, 06h00 | Atualizado em 5 jun 2026, 06h34
A imagem mostra uma série de flores enfileiras com uma delas saltando, em uma plano mais alto. Essa flor destacada tem um desenho de uma menina ao lado dela, como se a tivesse levantando.
Gratidão: sentimento traz benefícios para nós e quem convive conosco  (Hannahargyle/Getty Images)
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Não é difícil perceber que a ingratidão é universalmente repudiada. Diferentes tradições religiosas, clássicos literários e sistemas éticos são unânimes em condenar a atitude ingrata. De Dom Quixote, de Cervantes, a O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, a ingratidão é considerada filha da soberba e resposta inadequada diante de presentes recebidos.

O filósofo David Hume afirmou que “de todos os crimes que as criaturas humanas são capazes de cometer, o mais terrível é a ingratidão, sobretudo quando cometida contra os pais”. Contudo, nossa experiência diária revela a grande dificuldade das pessoas em demonstrar mais gratidão. Por que somos assim?

Na pesquisa que realizamos para a obra #UmDiaSemReclamar, constatamos que um grande obstáculo no caminho da gratidão é a tendência em superestimarmos a nós mesmos. Quando alimentamos uma falsa imagem sobre quem somos, passamos a valorizar mais o que pedimos do que aquilo que recebemos.

Ser grato é reconhecer que aquilo que precisamos não depende exclusivamente de nós, mas principal ou exclusivamente de outra pessoa. Gratidão tem a ver com graças, favores, dons que recebemos. Essas graças expõem nossas carências, dependências, necessidades. Quando negamos nossas vulnerabilidades, entramos em ciclos intermináveis de lamúrias e reclamações. A vida se torna triste e desbotada.

A pessoa que vive reclamando alimenta a ilusão de que tudo na vida ou é um direito que lhe devem, ou é uma conquista realizada que deve ser respeitada. Quem é viciado em reclamar perde a capacidade de apreciar o que é simplesmente um presente, um ato de afeto e amor gratuito. O egoísta não gosta de reconhecer que deve algo aos outros. Mas a realidade se impõe: seres humanos são completamente dependentes uns dos outros. Assim, para praticarmos a gratidão, precisamos reconhecer os benefícios recebidos.

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A gratidão resulta da honestidade em reconhecer nossas limitações. Essa humildade é libertadora: como várias pesquisas revelam, aqueles que praticam a gratidão vivem de modo mais saudável! Entre os benefícios fisiológicos comprovados podemos destacar sono tranquilo, maior resistência imunológica e menor propensão à depressão e à ansiedade. Portanto, embora seja difícil, vale muito a pena ser grato. Todos ganham: não apenas quem convive com a pessoa grata, mas a própria pessoa grata.

É possível agradecer mais.

Podemos apontar dois exercícios simples para efetivar a gratidão. Primeiro, valorizar as coisas boas em meio às lutas da vida. Mário Quintana disse que para os jornais “a situação é sempre crítica”. Se dependermos da absoluta paz externa, jamais seremos gratos. Não podemos transferir a gratidão para um passado nostálgico ou um futuro imaginário. A gratidão é para hoje, para as pessoas que estão ao nosso redor, dignas do nosso respeito e reconhecimento. A vida está acontecendo agora, hoje é dia de gratidão.

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Um segundo exercício é celebrar os pequenos dons da vida. Exercitar a gratidão pelos pequenos avanços, por aquilo que está em curso, é um exercício simples contra o vício da ingratidão. Como diz a bela canção de Marcelo Jeneci e Luiz Tatit: “O melhor da vida é de graça”.

A imagem mostra Davi e Marcelo, dois retratos de ambos sorrindo em fotos preto e branco
Davi Lago, à esquerda, e Marcelo Galuppo, à direita (Divulgação/Divulgação)

Davi Lago é professor do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia (LABÔ/PUC-SP) e Marcelo Galuppo é docente da UfMG e da PUC-MG. Ambos escreveram a obra #UmDiaSemReclamar, lançada pela Editora Citadel.

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Publicado em VEJA São Paulo de 30 de junho de 2021, edição nº 2744

 

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