A felicidade é verde
A docente em psicologia positiva Carla Furtado explica como o bem-estar proporcionado pela conexão com a natureza resulta na melhora da qualidade de vida
Estou em Bonito, em Mato Grosso do Sul. A razão que me trouxe é estritamente profissional: apresentar uma conferência sobre Felicidade, Natureza e Turismo em um seminário internacional. O que não esperava era ser arrebatada pela natureza, a mesma que apresentei em slides sustentados por evidências científicas da direta relação entre meio ambiente e bem-estar. Na primeira manhã, com o intenso canto das aves na varanda, decidi: após a palestra não iria embora.
+ A tal felicidade: O lugar certo é o aqui e o agora
Um bom início de conversa sobre a relação Natureza e Bem-Estar se dá a partir da compreensão da biofilia, do grego “amor à vida”. Descrita por diversos pensadores, foi finalmente estabelecida enquanto teoria pelo biólogo Edward O. Wilson em seu livro homônimo. O bem-estar experimentado na conexão com a natureza resulta do atendimento a uma necessidade biológica humana de relacionar-se com o meio ambiente e outras formas de vida. Hoje, a biofilia é considerada nas neurociências aplicadas à arquitetura, orientando o design de espaços de moradia e de trabalho que contemplem a conexão com a natureza para favorecer o bem viver.
Na trilha dessa rica temática, aborda-se o ciclo de estresse, que constitui a resposta biológica a um fator estressor — seja uma ameaça física, ambiental, social ou uma preocupação. O estresse é natural e necessário. Contudo, é saudável que o ciclo se encerre, como defendem Amelia e Emily Nagoski, autoras do livro Burnout: o Segredo para Romper o Ciclo de Estresse. Há diferentes formas de ajudar o organismo a compreender que um fator estressor já se dissipou e a natureza é uma importante aliada, especialmente quando se opta por uma caminhada leve ou por uma prática contemplativa ao ar livre depois de um dia extenuante.
Cientificamente sabemos: a conexão com a natureza não só reduz a percepção de estresse, como melhora a qualidade do sono, dos batimentos cardíacos e da pressão arterial. Estudos evidenciam que a exposição a espaços verdes está associada à restauração da atenção e da função cognitiva. Passar tempo na natureza também pode aumentar o contato social, tanto planejado quanto inesperado, o que favorece o bem-estar humano. Além disso, as pessoas costumam ser fisicamente ativas quando estão na natureza, o que igualmente beneficia a saúde física e mental.
Os japoneses conhecem isso tão bem que há mais de quarenta anos instituíram o banho de floresta ou shinrin-yoku. A prática, que já ganhou adeptos em todo o mundo, consiste em mergulhar em um ambiente natural em silêncio e estado de contemplação. As caminhadas são a passos lentos e em parte do tempo pode-se permanecer sentado. Meditar é também recomendado. Amplamente pesquisado, o banho de floresta traz benefícios para o sistema imunológico e também reduz o estresse. Pode ser praticado em parques arborizados, jardins botânicos, bosques e florestas.
Se o turismo é a indústria da felicidade, o turismo de natureza vivido com sentido e absoluto respeito ao meio ambiente é o caminho para a restauração da saúde e do bem-estar em tempos tão desafiadores. Não faltam razões para esticar minha estada em Bonito, este incrível espaço geográfico onde os biomas Cerrado e Mata Atlântica se encontram. Anoitece por aqui enquanto leio as palavras do biólogo Gary Snider: “A natureza não é um lugar. É nosso lar”. Estou em casa.
Carla Furtado é docente de psicologia positiva na PUCRS e no Hospital Albert Einstein, pesquisadora na USP e na Universidade Católica de Brasília. Diretora do Instituto Feliciência e autora do livro Feliciência: Felicidade e Trabalho na Era da Complexidade.
A curadoria dos autores convidados para esta seção é feita por Helena Galante. Para sugerir um tema ou autor, escreva para hgalante@abril.com.br.
Publicado em VEJA São Paulo de 14 de junho de 2023, edição nº 2845.
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