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Minha São Paulo: personalidades revelam lugares e memórias da cidade

Nomes como Projota, Paula Lima e Nany People elegeram seus espaços preferidos e falaram sobre o que gostam na maior metrópole do Brasil

Por Tatiane de Assis Atualizado em 21 jan 2022, 11h10 - Publicado em 21 jan 2022, 02h30

São Paulo ostenta títulos grandiosos. Um deles é a de cidade mais populosa do Brasil, com seus estimados 12,3 milhões de habitantes, de acordo com o IBGE. Contudo, aqui, vamos olhar esse vaivém de gente, de forma mais íntima. Afinal, a capital paulista é também as histórias que se vivem em suas ruas, museus e parques.

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Confira a seguir a “Pauliceia particular” dos cantores Projota e Paula Lima, da atriz Nany People, do arquiteto Martin Corullon e dos ativistas Vivi Torrico e Gilson Rodrigues.

Projota, o rap e a vitrine da Olido

No verão de 2005, o rapper Projota, hoje com 35 anos, começou a frequentar a Galeria Olido, no centro da cidade. Seu codinome na cena cultural ainda levava um hífen: Pró-Jota, junção entre parte da palavra profissionalismo e a primeira letra do que está escrito no seu registro, José Tiago Sabino Pereira.

Em 2022, ele revisitou o lugar na companhia da reportagem de VEJA São Paulo. “Estou arrepiado, a primeira vez que a gente veio aqui, eu e meus amigos, ficamos sentados naquele canto”, diz ele, apontando para um espaço no lado esquerdo da sala, conhecida como Vitrine da Olido, onde também ocorrem aulas de dança.

Ele havia descoberto o rolê pela internet e seguiu à risca o que dizia no pôster. “Na divulgação, eles falavam que a sessão de microfone aberto começava às 18 horas. Ficamos com medo de perder o começo das apresentações, então chegamos mais cedo, umas 17h30. Depois, esperamos até, porque, na verdade, começava umas 20 horas.”

Quem organizava os futuros músicos por lá era o também rapper Kamau, um ídolo de Projota. “Fiquei muito feliz quando ele disse que eu tinha mandado bem e me chamou pelo nome na sessão seguinte. Também na Olido, conheci o Rael, o Emicida, o Criolo, que ainda era Criolo Doido. Era tanta gente que o vidro ficava embaçado”, enumera o cantor, que nasceu no bairro de Lauzane Paulista, Zona Norte.

“Antes, ficava só na minha quebrada. Com o rap, de evento em evento, eu rodava a cidade. Não tinha preguiça não, a minha São Paulo era a visão que eu tinha dentro dos ônibus, eram as caminhadas de chinelo, pelo centro”, afirma ele, que lançou em janeiro A Saída Está Dentro (2022).

No álbum novo, as músicas foram produzidas junto a uma banda, em estúdio, algo novo em sua trajetória. O “cancelamento” na edição do BBB em 2021 e suas consequências também são alguns dos temas que ele aborda nas canções.

Imagem mostra homem de jaqueta preta e calça preta encostado em parede de mármore escrita
Projota: de volta ao lugar onde conheceu Emicida e Criolo. Wanezza Soares/Veja SP

Nany e sua capela no bairro da Liberdade

A religiosidade de Nany People, 56 anos, remete a suas raízes mineiras, a atriz nasceu na cidade de Machado, mas viveu a infância e a juventude em Serrania e Poços de Caldas. Em São Paulo, onde mora há quase quatro décadas, ela frequenta a Capela dos Aflitos, na Liberdade.

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A história do lugar é contada por ela com detalhes: “Aqui, teria sido preso o soldado Francisco José das Chagas, mais conhecido como Chaguinha. Ele foi condenado à forca, por ter liderado uma rebelião em favor de salários melhores para militares. Ele pediu pela intercessão de Nossa Senhora dos Aflitos e foi atendido.”

Reza uma das versões da lenda que por três vezes a corda que enforcaria Chaguinha se rompeu. “Contudo, mataram ele a pauladas”, conta Nany o desfecho triste, sem perder a fé: “Sou Chaguinha na cabeça. Em 2018, quando estava em uma fase difícil, pedi ajuda. Logo veio um convite para um filme, para um teste na Globo e a alteração do meu nome social.”

Imagem mostra mulher de cabelo vermelho e vestido preto.
Nany: Chaguinha na cabeça. Marcelo Justo/Divulgação

Paula de salto alto no Ibirapuera, entre skatistas

A cantora Paula Lima não titubeia ao eleger um lugar especial para ela em São Paulo: “Moro no bairro do Ipiranga, minha vista é o museu, mas meu parque preferido é o Ibirapuera”.

A relação com o local, seus prédios e marquise, nascidas nas pranchas de Oscar Niemeyer (1907-2012), vem da infância. Do tempo em que seu tio Zeca, ou melhor, José Carlos Alves Lima, engenheiro, o primeiro membro da família a se formar no ensino superior, levou a menina Paulinha, com seus 7 anos, ao planetário. Foi um deslumbre que seguiu dando ecos.

Mais tarde, já rainha dos palcos, ela se apresentou por lá, em 2004 junto a outras duas grandes estrelas, Zélia Duncan e Rita Lee. “Me lembro também de caminhar de salto, indo para o São Paulo Fashion Week, entre skatistas, fazendo manobras. É um lugar muito livre”, defende ela, que é também uma amante do verde.

Imagem mostra mulher de vestido vermelho em frente a multidão, segurando um microfone.
Paula Lima: no Parque Ibirapuera, amor de infância. Felipe Vieira/Divulgação

A Pauliceia coletiva e cheia de esperança de Vivi Torrico

A Matilha Cultural é um cantinho especial para Vivi Torrico, 49 anos. A jornalista argentina se recorda dos primeiros contatos com o lugar. Quando seu caçula, Pietro, tinha 5, 6 anos, ela levava ele e a primogênita, Victória, hoje com 17 anos, para fazer trabalho voluntário na ONG Natureza em Forma, em prol dos direitos dos animais, localizada a uma quadra do centro cultural.

Aos domingos, 8 da manhã, o trio partia da organização para dar uma volta com cachorros em processo de adoção. O destino final era a Matilha, que antes da pandemia, naquele dia, reservava o salão do subsolo para os bichinhos, que ficavam brincando sob o olhar de pessoas que tinham interesse de levá-los para casa.

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Além dessa “função”, a Matilha também era um lugar de festas, de reunião de parte do circuito alternativo, que a ativista argentina, que vive em São Paulo há 21 anos, frequentava com o marido, o vocalista da banda Ratos de Porão, João Gordo.

O lugar se tornou ainda, em 2020, com a pandemia, a semente para expansão do Solidariedade Vegan, projeto que começou com a distribuição de marmitas nos arredores do restaurante que Vivi e João mantinham no Bexiga, o Central Panelaço.

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“A Jaque, uma das três cozinheiras do projeto, passou por aqui e viu que o pessoal também estava dando quentinhas. Falou para eu entrar em contato e tentar uma parceria”, recorda ela, que hesitou, sabia que talvez a junção das iniciativas tomasse proporções que alterasse o movimento que sua vida tinha.

A sua intuição estava certa, da união com a Matilha surgiu também um café da manhã para pessoas em vulnerabilidade social. Além de atividades em ocupações, como a Alcântara Machado, na Zona Leste, e a Luís Gama, no bairro do Cambuci, Vivi também é parte da equipe que toca o Trampolink, que buscar realocar no mercado de trabalho moradores em situação de rua.

“Aqui no Brasil, quem faz trabalho voluntário, o pessoal pensa que é louco, ou hippie, ou milionário. Na Argentina, é diferente. Minha mãe era mãe-solo, morava na periferia, tinha cinco filhos e no domingo participava de iniciativas de filantropia”, afirma ela, que define qual é a sua São Paulo: “É principalmente coletiva, de muito trabalho e esperança.”

Imagem mostra mulher de vestido vermelho sentada sobre bancada, em frente a parede com diversos adesivos.
Vivi na Matilha: passado e presente de voluntariado. Wanezza Soares/Veja SP

MuBE e o desvio de rota de Martin Corullon

No 3º ano na Faculdade de Arquitetura (FAU) da USP, Martin Corullon, hoje com 49 anos, recebeu o convite para estagiar no escritório do renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha (1928-2021), que também era seu professor.

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“Fui para experimentar. A FAU tinha um formação bastante ampla e me interessava mais o cinema”, explica. Ele mudou seu rumo, porém, em uma visita ao Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE).

“Era dia de semana, tinha um silêncio lá. Com generosidade, o Paulo detalhou o conceito do projeto que estava na reta final de construção. Ali, decidi que seria, sim, arquiteto”, afirma Corullon, um dos sócios do Metro, escritório que assina o projeto do novo prédio do Masp.

Imagem mostra homem de camisa branca apoiado sobre corrimão branco.
Martin: “virou” arquiteto depois de visita ao MUBE. Ilana Bessler/Divulgação

Gilson indica: samba e feijoada em bistrô

O líder comunitário de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, 37 anos, também presidente da organização sem fins lucrativos conhecida como G10 Favelas, está na cidade de Itambé, na Bahia, ajudando na mobilização em favor de famílias que perderam casas com as chuvas torrenciais que ocorreram no mês de dezembro de 2021 no estado.

A distância da cidade de São Paulo, contudo, não é motivo para ele não eleger o seu lugar do coração na capital paulista. “Minha escolha é o Mãos de Maria. Um bistrô charmoso que fica em uma laje aqui na comunidade, onde há também uma horta”, aponta.

Ele ainda dá uma dica de prato: “Todos os sábados, é feita uma feijoada maravilhosa, por mulheres que passaram por um processo de formação e empoderamento na produção de doces e salgados da culinária brasileira. Junto, também acontece um samba, que é incrível”. Dica boa e anotada, hein?!

Imagem mostra homem de camisa azul e os braços cruzados. Ao fundo, uma favela.
Gilson: dica de lugar charmoso em Paraisópolis. Alexandre Battibugli/Veja SP

ESPECIAL SP 468 ANOS> Em comemoração ao aniversário de São Paulo, a Vejinha também entrevistou crianças paulistanas, além de separar 11 transformações que a cidade sofreu e os melhores restaurantes veteranos da capital. Confira as outras matérias especiais da semana:

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Publicado em VEJA São Paulo de 26 de janeiro de 2022, edição nº 2773

 

 

 

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