Fé, botox e celebridades: Aldo Quintão, o pároco moderninho

Celebrar casamentos gays e defender o uso da camisinha são alguns dos diferenciais do reverendo

Em uma missa antecipada de Natal, realizada há uma semana, com a presença de um Papai Noel puxado por renas falsas e um rebanho de pais e filhos, Aldo Quintão, de 54 anos, pregou sobre a importância de doar tempo e dinheiro para aqueles que necessitam. “Nasci pobre, sem condições para comemorar a data”, disse o pároco da Catedral Anglicana de São Paulo, localizada no Alto da Boa Vista, na Zona Sul.

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De cima do púlpito, mostrou os modelos de bicicleta que cada uma das 800 crianças de creches bancadas pela igreja ganharia minutos mais tarde. Depois de ler uma passagem de Mateus, capítulo 11, na qual Jesus justifica por que escolheu ter a seu lado os excluídos, o religioso prestou homenagem às pessoas que comemoravam aniversário de casamento. Pediu ao advogado Marcelo Gallego e ao maquiador Lucio Serrano, um ano juntos, que se levantassem. “Eles em nada são diferentes de nós”, afirmou.

Todos os 1 500 presentes aplaudiram. Fez o mesmo com os empresários Margot e Fernando Alessio, que comemoravam cinquenta anos de união, e solicitou-lhes uma demonstração de afeto. “Se for um beijo ordinário, mando voltar para casa”, brincou, emendando uma piada com referência ao Viagra. “O remédio azul deu um revertério positivo na vida deles, olha que alegria.” A cerimônia terminou com um coral cantando Oh Happy Day, tema do filme Mudança de Hábito.

O maquiador Serrado e o advogado Gallego - Reverendo AldoO maquiador Serrado e o advogado Gallego – Reverendo Aldo

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Recheadas de gracinhas e tiradas espertas, suas missas atraem cerca de 16 000 pessoas todos os meses. “Quem são os coxos e os cegos de hoje? Os desprezados pela Igreja Católica, como os divorciados e os jovens que usam preservativo”, compara. “Minha casa não fecha as portas para ninguém.” O discurso liberal caiu nas graças de jovens, celebridades e políticos. É comum ver no lugar gente como a atriz Gabriela Duarte e o cantor Paulo Ricardo. No escritório de Quintão, há um mural cheio de fotos dele ao lado de artistas como os cantores Michel Teló e Toquinho. Além disso, ele mantém contato com alguns dos fiéis via WhatsApp.

O reverendo consegue atrair público graças ao sucesso dos casamentos que celebra. São trinta por mês, totalizando 360 por ano. Há sábados em que chega a fazer seis. Atualmente, a fila de espera é de quatro meses. O religioso cobra uma taxa de 2 000 reais. “A cada evento, três convidados da cerimônia acabam fechando contrato comigo na sequência”, diz, sem falsa modéstia. Foi assim com Silvia Abravanel, a filha número 2 de Silvio Santos.

Casamento Silvia AbravanelCasamento Silvia Abravanel

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Há dez anos, ela esteve no casamento do primo Leon Abravanel. Ficou encantada. “Aldo fala da liturgia sem ser maçante”, elogia. Ela iniciou uma amizade com o pároco e passou a frequentar a Igreja Anglicana, mesmo sendo seguidora do kardecismo. Em 2013, recorreu a ele quando decidiu trocar alianças com o cantor sertanejo Kleiton de Abreu. “Ele já casou metade do SBT”, brinca Silvia. O pai dela conhece o reverendo há quinze anos. “Mesmo sendo judeu, o Silvio admira muito o meu trabalho”, orgulha-se.

Quando entrou nessa igreja, em 1998, o lugar estava às moscas. “Numa missa de lava-pés, não havia ninguém”, conta seu filho, Leonardo Quintão, 27 anos. “Meu pai tinha de lavar meus pés quatro vezes para dar tempo de a música acabar.” Aos poucos, a propaganda boca a boca operou o milagre da multiplicação. Na época dos primeiros casamentos para os quais foi contratado, Aldo teve uma ideia. Imprimiu cartões de visita e, nos bufês das festas, deixava-os sobre os pratos nas mesas. “Era uma forma de as pessoas terem nosso número”, lembra a mulher dele, Ana Paula. Aos poucos, a catedral começou a encher. “A partir de 2002, nossas missas já estavam lotadas”, comemora o reverendo.

Aldo e SilvioAldo e Silvio

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A porta de entrada de Aldo para o mundo sacerdotal foi o catolicismo. Nascido em um barraco de madeira em Taguatinga, cidade-satélite da capital federal, ainda criança começou a trabalhar como engraxate. Seu pai era sapateiro e a mãe, faxineira. O pouco que ganhava reforçava o apertado orçamento doméstico (também viviam com ele outros seis filhos). “Meu passatempo era brincar de padre”, lembra.

O rapaz reunia colegas na rua de terra para encenar uma procissão. Na adolescência, resolveu levar a vocação a sério. A vida religiosa foi um caminho natural tanto por aptidão quanto por necessidade. Quando, aos 16 anos, ele se mudou para um seminário em Itu, no interior paulista, em sua mala havia mudas de roupa confeccionadas com saco de estopa. Durante o tempo de reclusão, o pai nunca lhe escreveu uma carta porque era semianalfabeto e tinha vergonha da própria letra.

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Chegou a ser ungido frade da Ordem dos Carmelitas, na Bela Vista, mas abandonou tudo três meses antes de se consagrar padre. Havia cansado de dogmas que considera retrógrados. “Entre outras coisas, éramos orientados a não deixar as mulheres se divorciar, mesmo quando apanhavam dos maridos”, exemplifica. Semanas depois, morando em um cortiço na Liberdade, onde dormia em um colchonete no chão, começou a namorar sua futura mulher. “Nós nos conhecemos dentro da Ordem dos Carmelitas”, conta Ana Paula.  Católica assídua, ela fazia trabalho voluntário no local.

Para sobreviver, o ex‑celibatário prestou concurso público para ser carcereiro de uma unidade da antiga Febem, no Tatuapé. Passou na prova e atuou ali durante um ano. “Vi muitas rebeliões de perto e negociei com menores para me entregarem suas facas”, lembra. Por se destacar, acabou sendo transferido para uma casa que cuidava de jovens em situação de risco, no Grajaú. Foi quando conheceu Geraldo Alckmin, em 1986, durante a campanha dele para deputado federal. “Pedíamos votos para o Geraldo em bairros pobres da Zona Sul”, lembra o reverendo. “O Alckmin trocava de roupa dentro do carro.” Mesmo sendo católico, o atual governador mantém relação com o religioso e visita sua catedral com frequência.

Reverendo Aldo Geraldo AlckminReverendo Aldo Geraldo Alckmin

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Quintão abandonou o serviço público quando recebeu um convite para dar aula de religião no Colégio Pio XII, no Morumbi, e depois no São Luis, na região da Avenida Paulista. “Ele foi fundamental para formar meu caráter”, conta o ex‑aluno Carlinhos Nascimento, filho do jornalista Carlos Nascimento. “Em sala de aula, falávamos de sexo e éramos incentivados a fazer trabalho comunitário em favelas.”

Mesmo tratando de religião no dia a dia das escolas, Quintão começou a sentir falta do ambiente da igreja. Por sugestão de amigos, resolveu conhecer a Anglicana. “Senti uma empatia imediata, pois o clima ali era mais liberal”, recorda. Depois de fazer um curso no Canadá, assumiu o cargo de pároco da igreja da Zona Sul em 1998. Quinze anos depois, rompeu com a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que possui sete templos em São Paulo. “Ele não se submetia às regras eclesiásticas, discordava da hierarquia”, afirma o reverendo Arthur Cavalcante, secretário‑geral da entidade. “A catedral dele, hoje, funciona de forma independente.” Aldo Quintão comemora que seis colegas o acompanharam na cisão, engrossando as fileiras de sua catedral. “Tenho recebido também padres católicos”, diz.

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Uma parte importante do seu trabalho envolve os cuidados com quatro creches e um total de 800 crianças. Na capital, as unidades ficam na Brasilândia, no Jaguaré e em Paraisópolis. Essa última foi construída em 2011, com 2,7 milhões de reais (investimento bancado pelo dízimo), e atende crianças até 4 anos. Também há uma unidade no município de Botucatu. Um dos apoiadores do projeto é o jornalista Cesar Tralli, da Rede Globo. “Aldo consegue agregar juízes, promotores, empresários e pessoas do bem para ajudar”, comenta. “O reverendo é um importante teólogo e um grande evangelizador”, define Geraldo Alckmin.

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O sucesso da igreja fez o próprio religioso ficar famoso. Ele conta com orgulho sobre as duas vezes em que foi entrevistado por Jô Soares e os amigos famosos feitos ao longo dos anos. Vive com a mulher em um apartamento de dois dormitórios em Santo Amaro, na companhia do lulu-da-pomerânia Teodoro. Vai aos seus compromissos com um Renegade, da Jeep. Vaidoso assumido, aplica Botox no rosto, pinta os cabelos para esconder os fios brancos e tira a cutícula. Sua defesa pelos direitos dos gays já gerou comentários maldosos. “Ser chamado jocosamente de bicha não me ofende, sei bem da força do meu casamento”, rebate.

Por passar férias nos Estados Unidos com frequência, especularam também que seria proprietário de um imóvel em Miami. “Outro absurdo”, indigna-se. “Um dos meus irmãos, o Aníbal, mora na Flórida há vinte anos. Sou hóspede da casa dele.” O reverendo tem uma coleção de tênis Converse, nas cores que vão do preto ao pink. Em ocasiões especiais, tira um par de sapatos Prada do guarda-roupa (“Presente dado pelo meu filho”).

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Um dos religiosos que mais realizam casamentos no país, Quintão diz que essa fama já lhe trouxe problemas. “Por ciúme, fui proibido de celebrar missa na Nossa Senhora do Brasil”, afirma. “A ordem teria partido do padre de lá”, completa, referindo-se a Michelino Roberto, responsável pelo local. Michelino dá de ombros. “Ele fala isso para encher a paciência, pois nós nem sequer nos conhecemos. Não costumamos emprestar nossa igreja para outras religiões.”

O carisma e a ampla rede de contatos renderam ao reverendo convites para tentar o sucesso nas eleições. “O Alckmin me queria como vereador por São Paulo”, diz. PT, PV e PMDB também fizeram propostas. “Prefiro usar essa turma a favor das minhas causas, como as creches”, justifica, afastando a tentação de trocar a batina pelo mundo da política.

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SERMÃO DIFERENCIADO

Alguns dados e curiosidades sobre o religioso

Nome: Aldo Pereira Quintão, 54 anos.

Estado civil: casado com a psicóloga Ana Paula Quintão.

Função: pároco da Catedral Anglicana de São Paulo.

Formação: teologia, filosofia e pedagogia pela Unifai, no Ipiranga.

Diferencial: celebra até trinta casamentos por mês, de héteros e gays.

Rebanho: sua igreja é frequentada por políticos e celebridades, como Geraldo Alckmin, Gabriela Duarte e Paulo Ricardo.

Trabalho social: cuida de 800 crianças em quatro creches, em Paraisópolis, Brasilândia, Jaguaré e Botucatu.

Vaidades: pintar o cabelo, aplicar Botox no rosto e tirar as cutículas.

Coleção: de tênis Converse (tem mais de dez modelos).

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