Os problemas que provocaram a decadência do Anhembi

Grandes feiras abandonaram o pavilhão pela má estrutura; local é uma das prioridades do pacote de privatizações do novo prefeito, João Doria

Na tarde da última terça, 15, cerca de 70 000 pessoas se acotovelavam em busca de um espaço nos 90 000 metros quadrados do São Paulo Expo, na Rodovia dos Imigrantes, onde até este domingo, 20, ocorre a 29ª edição do Salão Internacional do Automóvel. A 20 quilômetros dali, em um contraste eloquente, os 75 000 metros quadrados do Pavilhão de Exposições do Anhembi, em Santana — palco do tradicional show bienal de veículos por quase cinco décadas —, estavam completamente desertos.

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A cena é um retrato fiel da triste situação enfrentada pelo gigante da Zona Norte. Inaugurado em 1970, o icônico complexo foi o grande responsável por transformar a cidade no maior polo de turismo de negócios da América Latina. Ali se consagraram algumas das feiras mais badaladas da história da capital, como a Fenit (indústria têxtil) e a UD (utilidades domésticas). Nos últimos tempos, no entanto, a falta de uma reforma de impacto e o fortalecimento dos principais concorrentes relegaram o “cinquentão” a segundo plano nesse setor que movimenta 16 bilhões de reais e realiza 800 eventos por ano na metrópole.

A tendência de abandono fica evidente na movimentação das grandes feiras. Das 25 maiores sediadas aqui, ao menos dezoito ocorriam no Anhembi. Desde o ano passado, duas migraram para o São Paulo Expo — o Salão do Automóvel e a Equipotel (hotelaria), realizada em setembro — e uma para o Expo Center Norte — a Têxtil House Fair, em agosto de 2015. Mais doze, como o Salão Duas Rodas (motos), a Francal (calçados) e a Feicon (construção), deixarão o lugar no ano que vem. Em 2018, a For Móbile (móveis) e a Feira da Mecânica também sairão do tradicional local. Por enquanto, a Bienal do Livro é a única que não decidiu seu futuro.

Salão do automóvelSalão do automóvel

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A debandada soma-se a outros sinais da crise. Desde 2012, o complexo perdeu 1,4 milhão de visitantes. Entre 2015 e 2016, o faturamento despencará pela metade, chegando a 51,5 milhões de reais. O empreendimento terminará o ano no azul, com lucro de 18 milhões de reais, graças a contratos para festas universitárias no Sambódromo e feiras de médio porte no Palácio das Convenções. Mas, mesmo no caso desses eventos menores, há queda de 300 para 150 no último ano. “Mudamos nossa estratégia de captação de recursos”, afirmou em nota a SPTuris, órgão da prefeitura responsável pela gestão do espaço.

Não faltam exemplos das precariedades enfrentadas por organizadores de atrações no Anhembi. Em maio, na Feira de Mecânica, o teto com rachaduras não suportou a chuva e uma cachoeira ensopou a área (confira vídeo abaixo). “Varamos a madrugada para recuperar tudo. O prejuízo foi de 20 000 reais”, conta Varinia Cantaux, diretora comercial da Red Star Brasil, empresa de montagem de estandes. Outras reclamações têm como alvo os desníveis de até 30 centímetros no piso, a ausência de ar condicionado, os problemas hidráulicos nos banheiros e a rede elétrica defasada. “A ‘maquiagem’ é obrigatória. Sempre é preciso cobrir uma parede ou chão em mau estado”, revela Marco Basso, presidente da promotora de feiras Informa Brasil.

Maior empresa do ramo da AméricaLatina, a Reed Exhibitions não realiza mais nenhum de seus trinta eventos paulistanos no lugar. “O Anhembi parou no tempo, tem de ser urgentemente atualizado”, afirma o vice‑presidente executivo Paulo Octavio Almeida. Sem uma reforma de peso, o pavilhão recebeu apenas melhorias tímidas desde o ano passado, como pinturas e uma nova iluminação, de LED.

O momento trágico do Anhembi coincide com a discussão a respeito de sua privatização, uma das plataformas do prefeito eleito João Doria (PSDB). Estima‑se que sua venda possa render 4 bilhões de reais aos cofres públicos. “A ideia é que o local ofereça restaurantes e serviços 24 horas”, diz Wilson Poit, futuro secretário de Desestatização e ex‑presidente da SPTuris.

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Enquanto isso não ocorre, a São Paulo Expo e o Center Norte, que receberam investimentos milionários, abocanharam a maior parte das feiras de negócios. O primeiro duplicou de tamanho em abril após uma reforma de 420 milhões de reais bancada pela gestora francesa GL Eventos. “Trouxemos o que há de mais moderno no mundo”, conta o diretor do grupo, Damien Timperio. O segundo ganhou aporte de 39 milhões de reais para a construção de quatro restaurantes e uma subestação de energia. “Neste ramo, não se pode correr o risco de ficar sem luz”, diz o diretor‑superintendente, Paulo Ventura. Especialistas acreditam que há espaço para três grandes pavilhões na capital. “Se explorado corretamente, o Anhembi voltará a ser protagonista”, diz o professor de direito econômico Luís Felipe Valerim Pinheiro, da Fundação Getulio Vargas.

Desmonte no estande

Os indícios do declínio no empreendimento em Santana

17 grandes feiras sairão do pavilhão até 2018

1,4 milhão de pessoas deixaram de visitar o local desde 2012

50% foi a queda no faturamento apenas no último ano

150 eventos de menor porte abandonaram o complexo

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