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Caminhada Noturna reúne admiradores do centro toda quinta em passeios gratuitos

Projeto busca ajuda a recuperar a região e valorizar sua memória

Por Laura Pereira Lima
24 jan 2026, 08h00 • Atualizado em 29 jan 2026, 09h57
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 (@rinaldo_lima_/Divulgação)
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  • Cerca de quarenta pessoas caminham pelo centro de São Paulo em uma noite de quinta-feira, equipadas de microfones, caixa de som portátil e uma grande bandeira amarela. Ao dobrar a célebre esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, o grupo é abordado por uma transeunte curiosa. “É manifestação do quê?”, pergunta. A resposta vem quase automática: “Não é manifestação, é a Caminhada Noturna”.

    Cenas como essa se repetem há mais de duas décadas nas quadras históricas da cidade. Desde 2005, moradores e admiradores da região central se reúnem semanalmente para explorá-la sob diferentes óticas. Prédios de arquitetos fugidos do nazismo, pontos que marcaram a história da Bossa Nova e a trajetória de Maria Soldado, que lutou disfarçada de homem na Revolução de 32, foram alguns temas abordados nas caminhadas guiadas, que mudam a cada edição e contam com a presença de especialistas.

    Não deixa de ser, como supôs a moça, uma espécie de manifestação. “Somos militantes pela recuperação do centro”, aponta Carlos Beutel, criador do tour e dono do restaurante vegetariano Apfel, no Viaduto Nove de Julho.

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    Carlos Beutel, idealizador da Caminhada (Leo Martins/Veja SP)

    A ideia inicial era fazer o percurso durante o dia, mas, como Carlos trabalhava, a caminhada passou a acontecer à noite. O horário, visto com desconfiança por muitos, nunca resultou em problemas de segurança, segundo o idealizador da iniciativa. “Peço para que não portem o celular ostensivamente. E andamos sempre todos juntos”, justifica.

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    O passeio é gratuito — não há sequer a sugestão de gorjeta, comum em outros tours guiados. Quem arca com os custos é o próprio Carlos. “Faço por amor à minha cidade”, diz. A principal despesa é a contratação de um guia — indicado para qualquer tour na cidade —, que presta suporte ao palestrante convidado do dia, sempre um voluntário. “O máximo que eu remunero é uma pizza”, brinca Carlos, que costuma jantar com parte do grupo após a caminhada.

    Em uma quinta-feira normal, a atração reúne de quarenta a setenta pessoas, entre frequentadores assíduos e novos integrantes, mas houve edição que atraiu mais de 500 participantes, o que aconteceu em duas ocasiões: na inauguração do passeio nos jardins do Edifício Matarazzo, na primeira vez que o espaço foi aberto ao público, em 2015, e na reinauguração da Fonte dos Desejos, no Vale do Anhangabaú, em 2017.

    O arquiteto Roberto Sambi Colotto conta que sua vida mudou completamente após começar a frequentar o grupo, em 2008. Atribulado com a rotina profissional exaustiva, ele lutava contra a depressão e não via perspectivas de futuro na carreira que escolheu. Foi nos passeios que ele descobriu sua verdadeira vocação: guia de turismo. “Saúde mental não se cura só dentro de consultório nem só à base de medicação. Você também precisa tentar modificar seu ambiente”, defende ele, que se profissionalizou e hoje atua no programa Vai de Roteiro, da prefeitura de São Paulo.

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    (Rinaldo Lima/Divulgação)

    Além da transição profissional, contou para o atual bem-estar o senso de comunidade e contato próximo com pessoas com interesses em comum. “Eu gostava do centro, mas me sentia solitário nesse interesse. Quando comecei a frequentar a caminhada, vi que havia dezenas de pessoas que pensavam como eu”, conta Roberto, que fez grandes amigos nos passeios e é padrinho de casamento de outro guia que conheceu lá.

    Para alguns participantes, amizades criadas no percurso evoluem para algo mais. É o caso de Luis Simardi, guia de turismo que conheceu a esposa, Gizele Comunello, durante uma das caminhadas, em 2009. “Frequentava para renovar um pouco os conhecimentos e encontrar pessoas. Até que um dia a Gizele apareceu, nos conhecemos, ficamos amigos e começamos a namorar”, conta Luis, pai de dois filhos com Gizele. Esse é um dos dezesseis casais unidos pela Caminhada Noturna, segundo contabilização de Carlos Beutel.

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    A próxima edição, marcada para o dia 29 de janeiro, abordará o paredão que cercava o centro no século XVI, um muro feito com pau-a-pique para proteger a região de ataques de indígenas.

    As caminhadas são anunciadas semanalmente no Instagram (@caminhadanoturnacentrosp), com ponto de encontro na Biblioteca Mário de Andrade, todas as quintas, às 20h.

    Publicado em VEJA São Paulo de 23 de janeiro de 2026, edição nº2979.

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