Fui ver qual é a da convenção de terraplanistas em São Paulo

Evento foi realizado no Teatro da Liberdade no último domingo (10). A organização estima que 400 pessoas participaram da conferência

O ano é 2050. Os Illuminati, a Nova Ordem Mundial e a Maçonaria foram derrotados e finalmente a verdade foi divulgada à população: não vivemos em um globo!!!! Nas escolas (para os poucos que ainda não aderiram ao sistema de homeschooling), este novo modelo já foi completamente interiorizado depois do projeto de lei aprovado pelo presidente Renan Jair Bolsonaro. Conceitos como gravidade e heliocentrismo foram deixados de lado. A Terra é, oficialmente, plana.

Meus filhos agora aprendem que “nossa casa” é estacionária e tem um domo que nos protege e nos impede de sair. Redecoraram também as salas de geografia com a versão correta do mapamúndi. Nela, a Antártida aparece como um paredão que circunda os continentes e oceanos. O Ártico, por outro lado, fica no centro de tudo.

Sol e Lua, que também ficam dentro do domo, têm cerca de 50 quilômetros de diâmetro cada um e percorrem a linha do Equador alternadamente. Talvez por isso, todas as agências espaciais tenham sido descontinuadas por seus países. Não existem motivos cabíveis para criar filmes com computação gráfica para simular que o homem foi ao espaço.

Por falar no astro solar, tem gente que ainda associa o fato do Oceano Atlântico ter engolido parte do litoral Sul de São Paulo à já superada teoria do aquecimento global. Parece que nunca foram a Veneza. Ou pior, que se vacinaram quando eram crianças kkk. Graças a Deus a gente começou a desconfiar da veracidade dessas coisas no início deste século.

Maquete da Terra Plana, vendida na FlatCon

Maquete da Terra Plana, vendida na FlatCon (Matheus Prado/Veja SP)

Eu estava lá, no longínquo ano de 2019, quando foi realizada a primeira convenção de terraplanistas da cidade, a FlatCon. A coisa até começou mal, quando avisaram que o evento seria localizado no Teatro Liberdade. Nada contra os orientais, tenho até amigos que são. Mas na época, esse teatro ficava na frente da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo. Como assim o nosso grande evento seria realizado nas barbas dos nossos maiores inimigos?

O pessoal chiou no Whatsapp, a rede social que se usava na época, sobre a escolha dos organizadores. Teve até gente que preferiu não ir ao evento. Mas chegando lá, tudo valeu a pena. O auditório estava bem composto, com cerca de 400 pessoas (homens em absoluta maioria) para ouvir os nossos dez palestrantes. Além de nós, estavam lá jornalistas, astrônomos, pesquisadores, curiosos. Ficou inegável que estávamos incomodando.

Lembro-me que, por ser um movimento embrionário, as nossas lideranças eram bem difusas. Havia pessoal mais voltado para a religião e as várias passagens da bíblia que já indicavam o real formato da Terra. Mas também tínhamos representantes da área da ciência, que realizavam pesquisas e experimentos para questionar o modelo hegemônico do “globo”. O que nos unia era a plataforma utilizada para veicular tudo o que aprendíamos: o Youtube.

Com o sistema de educação, a mídia e as grandes multinacionais nos empurrando uma mentira goela abaixo a todo tempo, tivemos sorte de encontrar um meio imparcial para que pudéssemos difundir todo conhecimento que alcançamos. Canais como Sem Hipocrisia, Professor Terra Plana e Mistérios do Mundo fizeram um trabalho hercúleo para que loucos como Galileu, Copérnico, Newton e Einstein fossem das páginas de história (e ciência) para as páginas policiais.

Além do conteúdo riquíssimo, também houve entretenimento para os planistas. No hall do evento, pudemos comprar os primeiros maquetes e mapas da Terra Plana, por a partir de 40 reais. Mas o show mesmo, ficou por conta da palestrante Prisca Côco, que nos brindou com uma bela interpretação da música A Terra é Plana, Meu Irmão. Depois de ouvir este hino, tive a certeza que estávamos no caminho certo e que voltaria em 2020.

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