Na Ponta da Faca estreia segunda temporada com restaurantes de SP e do Rio
A série, com produção do chef britânico Gordon Ramsay, revela parte dos bastidores da conquista, pelo Evvai, das três estrelas máximas do Guia Michelin
É uma honraria e tanto. Na segunda temporada de Na Ponta da Faca — Buscando Estrelas Michelin, com produção do chef britânico Gordon Ramsay, vemos uma parte dos bastidores da conquista das três estrelas máximas do Guia Michelin por um restaurante paulistano.
O Evvai, do chef Luiz Filipe Souza, um dos contemplados, é retratado pelo programa no quarto e no quinto episódios. Embora não esteja na série, o outro ganhador é o Tuju, com cozinha capitaneada por Ivan Ralston.
Pela primeira vez, dois representantes da América Latina recebem essa distinção. Também estão na série dois restaurantes cariocas, o Oseille e o Madame Olympe.
Aliás, diante do ambiente descontraído e casual da casa do filho, o pai, um chef com carreira brilhante, ele mesmo apresentador de TV, adverte: “Se você realmente quiser conquistar a segunda estrela Michelin, vai precisar mudar a decoração, deixá-la mais sofisticada”.
Ao que o rebento responde: “Não quero mudar. Quero conquistar a estrela do meu jeito”. O diálogo, entre Claude Troisgros e o filho, Thomas, faz parte da série que estreia nesta sexta (25) na Apple TV.
São três representantes do Brasil entre os dezesseis estabelecimentos filmados. O primeiro episódio “brasileiro” entra na plataforma em 9 de outubro.
Ainda que sempre tenha um clima de tensão e entretenimento, é possível ver a importância que os cozinheiros profissionais dão às estrelas conferidas pelo guia, lançado em 1900 pelo francês André Michelin especialmente para quem rodava de carro pelas estradas da França com pneus Michelin e teria de escolher onde se hospedar e também saber o que comer.
A atribuição de uma única estrela surgiu somente em 1926. Cinco anos mais tarde, passaram a ser de uma a três. Finalmente, em 1936, definiram-se as regras com avaliações por inspetores anônimos e não por críticos consagrados.
Apresentados por Jesse Burgess, os oito episódios evidenciam como restaurantes em cidades onde o guia é publicado lutam para obter o reconhecimento da publicação.
No Brasil, os estabelecimentos brasileiros selecionados pelo guia foram anunciados em uma cerimônia em abril no Copacabana Palace. O Madame Olympe foi brindado com a primeira estrela, enquanto o Oseille manteve a única conquistada anteriormente.
“Sou um grande fã da série e gostei demais de participar, mostrar um pouco da nossa rotina”, diz o chef Luiz Filipe, que lançou em março um novo menu do Evvai.
“Esse resultado é fruto de muito trabalho de equipe. Nesses dez anos de casa, acredito que conseguimos unir qualidade, curadoria e sustentabilidade, com a prática de preços justos”, afirma ele, embora o menu custe a pequena fortuna de 1 650 reais sem o serviço e as bebidas. “E, para isso, não é preciso só usar ingredientes como caviar. Mas tratar coisas como a mandioca com a mesma excelência.”
O crítico gastronômico Arnaldo Lorençato, editor-executivo de Vejinha, participou de uma das sessões de filmagem no Evvai. “Constatei o que o Michelin demorou a perceber. O Evvai é o melhor restaurante de cozinha autoral de São Paulo. Tem as cinco estrelas máximas de VEJA SÃO PAULO COMER & BEBER desde 2023. Agora, tem as três estrelas Michelin e uma projeção mundial”, diz Lorençato, o principal responsável pelo anuário de gastronomia da Vejinha. “Confirmando o que já sabíamos, Luiz Filipe foi de Chef Revelação a Chef do Ano. E Bianca Mirabili, também do Evvai, é a Chef de Confeitaria de 2026.”
Para Thomas Troisgros, do Oseille, a participação na série foi uma forma de mostrar seu estilo como chef. “O meu objetivo sempre foi colocar o cliente em primeiro lugar. O Oseille tem só um balcão, é informal, tem música alta e é como se fosse a minha casa”, afirma o chef, tudo do seu jeitinho — que difere do pai, Claude, como mostra o diálogo no início do texto.
“Conheço bem as exigências do Michelin, convivo com elas desde pequeno”, diz Claude, nascido na França e radicado no Brasil há 47 anos. Naquele país, sua família mantém o Maison Troisgros, com três estrelas Michelin desde 1968.
A conquista da primeira estrela para o Madame Olympe — aberto em agosto de 2025 — é motivo de orgulho. “É o guia mais sério do mundo.”
O melhor trabalho do mundo
Apresentador da série e criador do canal de gastronomia e viagens Topjaw, Jesse Burgess, 35, conversou com a Vejinha
Como o seu trabalho com gastronomia moldou o seu gosto?
Eu sou um pouco mimado. E acho que, quanto mais você prova novas coisas, mais você desenvolve o seu paladar, entende melhor a comida e começa a apreciar as nuances, os diferentes sabores. A gente aprende o quanto um ingrediente pode mudar a qualidade de um prato ou a experiência do sabor. É como se você realmente começasse a dar valor ao sabor diferente que as coisas têm em determinadas estações do ano e em certos países. Um tomate na África do Sul vai ter um gosto muito diferente do de um tomate na Suécia e, às vezes, só esse ingrediente consegue te surpreender completamente. Quando a gente come profissionalmente, passa a procurar o tipo de coisa estranha, maravilhosa e que talvez nunca tenha provado antes, em termos de texturas e sabores. Eu faço bastante isso e acredito que é um dos melhores trabalhos do mundo.
Você já conhecia a culinária brasileira?
Até começar a filmar a segunda temporada de Na Ponta da Faca, não muito. Mas já tinha ido para Minas Gerais, em 2022, e comido muito pão de queijo, que eu adorei. Dessa vez, passei mais tempo e pude conhecer feijoada. Amei esse tipo de feijão ensopado. Tem uma profundidade de sabor. Fiquei com vontade de comer mais comida brasileira. Procurei em Londres, mas é difícil de achar. Foi uma experiência maravilhosa poder viajar e ficar imerso numa cultura e numa culinária, descobrindo mais sobre ela.
Qual o segredo dos melhores restaurantes do mundo? O que conta mais: os ingredientes, a criatividade ou a técnica?
Acredito que a criatividade é uma das coisas que mais conta, porque o acesso a ótimos ingredientes muitos têm. Mas tem outras coisas que impactam, como a qualidade da equipe, o quanto ela está alinhada com a missão e com o seu líder. O que posso dizer é que os melhores restaurantes do mundo não são apenas lugares onde você entra, se senta e come, mas aqueles que proporcionam uma experiência inesquecível. Eles precisam ter um ótimo atendimento, uma equipe que realmente queira estar ali, uma comida excelente, com muita técnica, além de um ambiente adequado. Tudo precisa estar impecável. É como um time de futebol ou uma banda de rock: tudo precisa estar em sintonia.
Publicado em VEJA São Paulo de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014.
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