Amor e hesitações
Cena 1: outubro de 2011. Uma leitora me envia um e-mail contando uma história de amor com um professor do colégio e hesitações da sua juventude. A sua esperança romântica era que o cronista pudesse aproveitá-la, sem citar nomes, e, assim, imagino, ter sua história escrita como um conto, guardada em gaveta menos perecível do que a de seus devaneios. A vida vai colocando outras mensagens por cima daquela, e esqueço-a.
Cena 2: fim de setembro de 2016. Meu laptop tem uma pane, rola incontrolável o meu arquivo de e-mails, aperto teclas que a minha ignorância informática supõe adequadas para o caso, sem nenhum resultado; desligo a máquina, apaga-se tudo, reinicio-a, ela mostra aquelas advertências bem-educadas e inapeláveis dos computadores e, surprise!, para na pasta de e-mails, em 16 de outubro de 2011. Adivinharam: o dia daquele e-mail. Entre outros, lá estava ele. Releio-o. A leitora teve o cuidado de pedir ao cronista “a gentileza” de não lhe responder, “pois este endereço eletrônico é acessado também por outras pessoas” e ela não gostaria que“ficassem sabendo do que vou lhe contar”, “é parte de uma fase linda do meu passado”. Divide o principal em duas cenas, passado e presente, que aqui desdobro em nove, pois, ao decidir retomar sua história, achei interessante manter a estrutura que ela adotou.
Cena 3: ano de 1978. Colégio super conservador em Perdizes, ensino médio. O professor tem uma paixão silenciosa por uma aluna, a narradora. Ela soube como? Elas sempre sabem dessas coisas. Ela sente a mesma afeição por ele, o coração de ambos galopa quando eles se veem nos corredores e na sala de aula, mas se calam. Como, uma garota de 17 anos, um professor de 30? A imaturidade e o receio de se envolver com alguém que aos olhos dela é uma autoridade impedem qualquer movimento. O professor, de longe, “nutre e conserva sua paixão”. Um ano nisso, e termina o curso.
Cena 4: ano de 2011. Ele vive em outra cidade, casou-se, teve filhos, está divorciado, leva a vida.
Cena 5: ano de 2011. Ela continua em São Paulo, mora nas colinas de Perdizes, casou-se, teve filhos, a relação é morna, leva a vida.
Cena 6: setembro de 2011. Morre uma antiga professora dela, amiga comum dos dois, e ela, num impulso disparado por algo lá do passado, decide comunicar a morte ao professor. Depois da época de colégio, 33 anos passados, nunca mais souberam um do outro, mas a internet torna possível o improvável. Ele responde ao e-mail “da maneira mais amável e carinhosa possível!!” — é a leitora contando — e o coração dela balança, acorda a mocinha de 1978.
Cena 7: setembro/outubro de 2011. Eles trocam mensagens diárias, acrescentam-se das coisas que não sabiam um do outro, resgatam momentos e emoções do passado, às vezes comentam como o presente poderia ter sido diferente, e ainda usam reticências. É ela, de novo: “O coração da aluna anda saltitante, ela remoçou, se alegrou! Há uma cumplicidade, uma sintonia, como se os 33 anos de ausência não tivessem acontecido”.
Cena 8: domingo, 16 de outubro de 2011, 8h45. A leitora chega ao final do seu e-mail endereçado a mim: “O fim desta história? Não sei lhe dizer. Tenho um palpite, mas gostaria que o senhor, caso interessasse, desse sua versão de como uma história dessas terminaria. Detalhe: a aluna ainda está casada — mal casada, mas está casada”.
Cena 9: início de outubro de 2016. Cinco anos se passaram. Otimista, e confiante nas engrenagens do amor para resolver complicações desse tipo, escrevo que eles se acertaram e há cinco anos vivem felizes para sempre.
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