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O paulistano que pagou dívida milionária ao virar estrela do xadrez no YouTube

Rafael Leite passou a narrar partidas com o entusiasmo de um locutor esportivo, sem deixar de trazer os ensinamentos técnicos necessários

Por Pedro Carvalho Atualizado em 15 abr 2021, 22h18 - Publicado em 16 abr 2021, 06h00

No xadrez, a expressão “gambito”, tornada popular após a série O Gambito da Rainha (Netflix, 2020), significa um tipo de movimento arriscado. O jogador entrega uma peça ao adversário, na esperança de que a perda material traga um ganho estratégico mais tarde. Pode não funcionar. Em 2012, o paulistano Rafael Leite tentou algo parecido nos negócios — e levou um xeque-mate. Formado em engenharia de produção pela USP, ele tinha uma importadora de artigos esportivos, com sete funcionários e escritório em Moema. Resolveu se endividar para trazer ao Brasil um calçado de apelo duvidoso, o five fingers, uma espécie de luva para os pés. A novidade não emplacou e Rafael ainda recebeu uma multa milionária das autoridades portuárias, que entenderam que a peça era um calçado e não uma luva, como declarado nos formulários. “Da noite para o dia, eu estava quebrado e devia 2 milhões aos bancos”, ele diz, hoje aos 38 anos. “Foi uma fase bem difícil. É como ter uma doença, você acorda todo dia lembrando que possui uma dívida impagável. Comecei a questionar se eu era útil para a sociedade.”

Após anos de incertezas financeiras, entre modestos empregos no centro e tímidas aventuras empreendedoras, Rafael conseguiu pagar a dívida em 2020, quando já dava por certo que passaria a vida com o nome sujo. A virada aconteceu graças ao famoso tabuleiro de 64 casas. Em abril de 2018, o engenheiro criou um canal no YouTube chamado Xadrez Brasil. Queria, no primeiro vídeo, apenas anunciar o surgimento de uma inteligência artificial que havia se tornado uma “fera” no jogo usando uma tecnologia chamada redes neurais. “Nos primeiros meses, eu tinha pouquíssima audiência. Cheguei a fazer lives (transmissões ao vivo) sem ninguém assistindo”, conta. O baixo interesse era a regra, naqueles tempos, para esse nicho do YouTube. “O Brasil só tinha canais muito técnicos, ou que misturavam xadrez a outros assuntos”, diz.

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Rafael posando para a foto segurando sua placa comemorativa de 100 mil inscritos no youtube
Uma placa de reconhecimento do YouTube: mais de 200 000 inscritos no canal Fabiano Inamônico/Divulgação

Inspirado por youtubers estrangeiros, Rafael decidiu apostar em uma fórmula inédita por aqui: o xadrez de entretenimento. Passou a narrar partidas com o entusiasmo de um locutor esportivo, sem deixar de trazer os ensinamentos técnicos necessários. Foi uma jogada digna de um Kasparov das mídias digitais. A audiência começou a crescer — e acabou turbinada por dois golpes do acaso. O primeiro foi a pandemia, que fez disparar o apelo ao xadrez on-line. No site mais popular entre os praticantes, o Chess.com, 43% dos usuários se cadastraram nos últimos doze meses, embora a plataforma exista há dezesseis anos. No Brasil, o número de novas contas mensais saltou de 38 000 antes da pandemia para 144 000 no mês passado. O segundo impulso veio da aclamada série de streaming, estrelada pela americana Anya TaylorJoy.

“Vi que os jogadores ganhavam mal e desisti de competir. Popularizar o esporte ajuda a mudar isso”

Tudo somado, o Xadrez Brasil agora ultrapassa a marca de 204 000 inscritos no YouTube. Só fica ligeiramente atrás do gaúcho Raffael Chess, um dos vários “filhotes” de Rafael Leite que surgiram no rastro do sucesso do paulistano. Rafael também atraiu 18 000 usuários para sua academia com aulas pagas da modalidade. Em dezembro, após quitar as dívidas, ele deixou o emprego de cientista de dados na Coteminas para viver dos vídeos caseiros. “O trabalho tomava 70% do meu tempo e trazia só 20% dos meus rendimentos”, diz.

Foto antiga de Rafael jogando um campeonato durante sua adolescência
Rafael jogando um campeonato na adolescência Reprodução/Arquivo Pessoal/Veja SP

Jogador talentoso na adolescência, Rafael lembra com tristeza do dia em que precisou optar pela faculdade e deixar de lado os campeonatos. “Vi que o pessoal do Clube de Xadrez de São Paulo tinha muitas dificuldades financeiras e desisti da carreira”, conta. “Popularizar o esporte, por meio do YouTube, vai ajudar a mudar esse cenário para as gerações futuras”, acredita.

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Publicado em VEJA São Paulo de 21 de abril de 2021, edição nº 2734

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