Teatro Baccarelli abre temporada em Heliópolis: “A música clássica se tornou coisa de favela”
A primeira sala de concertos da cidade erguida em território periférico inaugura a sua programação no aniversário de 472 anos de São Paulo
Não é um lugar qualquer. De dentro, basta ver as fileiras coloridas de poltronas para entender que o Teatro Baccarelli, em Heliópolis, tem algo diferente. Do lado de fora, a localização por si só é um feito inédito: uma sala de concertos de excelência erguida em um território de favela — e que estreia sua temporada inaugural neste domingo (25), aniversário de 472 anos de São Paulo, com o espetáculo da série Heliópolis e Simoninha Convidam, às 15h.
O espaço é um presente para todos os paulistanos e, em especial, para os moradores da comunidade, retratada abaixo na arte de Carla Caffé criada especialmente para a Vejinha. “Quisemos trazer o colorido da região para o teatro. Não queríamos um lugar sisudo”, diz o maestro Edilson Ventureli, CEO do Instituto Baccarelli, organização social focada em ensino de música que nasceu em 1996.
Inaugurada em novembro, a sala tem 1 300 metros quadrados de área construída e 533 lugares, com projeto arquitetônico de Frank Siciliano e acústica de José Augusto Nepomuceno, responsável pela Sala São Paulo. A ideia do palco próprio para as quatro orquestras e dezenove corais da instituição começou a tomar forma em 2005. “Na época encontrávamos muita resistência para tocar em locais públicos. Circulamos pelo Brasil e exterior, mas não em Heliópolis. Tínhamos que ter a nossa casa”, explica Edilson.
As portas se abrirão nos fins de semana, com música clássica aos domingos e outras linguagens aos sábados, como dança, teatro, rap e funk. A série erudita tem direção artística do maestro Isaac Karabtchevsky. “Queremos que seja uma grande sala de concertos, para subir a régua cultural da comunidade”, diz o regente. Os ingressos custam até 20 reais a inteira. “A intenção é que o teatro seja ocupado por outros artistas periféricos, não só os de Heliópolis. O palco está aberto para todas as favelas”, completa.
Toda a história que deságua nessa inauguração começa trinta anos atrás. Compadecido por um incêndio que aconteceu em Heliópolis em 1996, o maestro Silvio Baccarelli (1931-2019) decidiu contribuir com as famílias desamparadas da melhor forma que conseguia: ensinando música. No início eram 36 crianças atendidas — atualmente, são 1 650 pequenos e jovens matriculados a partir dos 2 anos, que estudam gratuitamente.
“Queremos que o teatro seja ocupado por todos os artistas periféricos, não só de Heliópolis. O palco está aberto para todas as favelas”
Em 1998, a ação virou uma instituição formalizada, desde aquele ano sob o comando de Edilson, que conviveu com o fundador desde a pré-adolescência. “Meus pais cantavam no coral profissional do maestro, então, aos 13 anos, comecei a trabalhar com ele. O meu primeiro registro em carteira foi de montador de orquestra, logo fui promovido a arquivista e, aos 18, me tornei regente preparador do coral profissional”, diz o CEO, que nasceu na Vila Alpina, Zona Leste, e começou a estudar piano aos 5 anos. “Venho de uma família bastante humilde, mas tive pais que sempre acreditaram que o melhor que podiam fazer pelos filhos era a educação”, conta.
Segundo ele, o projeto enfrentou preconceito da classe musical no início. “Quando começamos, ouvi colegas músicos dizerem, de forma pejorativa, que queríamos associar música de concerto à periferia. Com o nosso teatro, definitivamente a música clássica se tornou coisa de favela”, afirma, com orgulho.
Cerca de 85% do financiamento do Instituto Baccarelli vem da Lei Rouanet — o restante é fruto de doações de pessoas físicas e outras leis de incentivo. Os 48 milhões de reais investidos na obra do teatro foram obtidos dessas mesmas fontes. “A Lei Rouanet é o principal instrumento de fomento da cultura no Brasil. Se não fosse ela, o Baccarelli não existiria”, ressalta Edilson.
Segundo pesquisa de 2023 do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), cada 1 real investido no Baccarelli gera 3,49 reais em benefícios para a comunidade, incluindo a ampliação das perspectivas de futuro dos alunos e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e cognitivas. “Estamos dispostos a depender cada dia menos das leis de incentivo, mas não vejo possibilidade de os projetos culturais no Brasil se manterem sem uma subvenção direta ou indireta do governo”, detalha.
A abertura da sala aumenta ainda mais o desafio. “As pessoas veem o Baccarelli desse tamanho e pensam que estamos muito bem financeiramente — você não imagina o quanto estamos apertados, tivemos um alto investimento nesses dois anos. O teatro tinha que surgir neste momento, em que temos uma gestão madura”, complementa.
O Baccarelli não se resume a instrumentos e partituras. “Não somos uma escola de música, e sim um projeto social que utiliza a música como ferramenta de transformação social”, define Edilson. Tanto que, desde 2022, a instituição participa da gestão de doze CEUs na cidade, cuidando da manutenção dos prédios e promovendo atividades de esporte, cultura, lazer, entretenimento e profissionalização. A organização também integra o projeto Escola Aberta, da Secretaria Municipal de Educação, que leva atividades para dez escolas periféricas.
Em 2024, o instituto passou a atender pais e mães com corais, aulas de violão, dança e culinária. O próximo passo é expandir as formações para os jovens. “Com o teatro, começamos a frente de artes do palco. A ideia é formar engenheiros de som, produtores audiovisuais, cinegrafistas, fotógrafos, contrarregras, camareiras, iluminadores, designers de iluminação”, adianta.
O teatro será importante também para os ensaios das orquestras, que terão ao seu dispor uma acústica semelhante à das salas em que se apresentam. “Se hoje a Orquestra Sinfônica Heliópolis é um dos bons conjuntos do Brasil, tenho certeza que seremos ainda melhores”, acredita o maestro.
Segundo Cleide Alves, presidente da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (UNAS), a maior favela de São Paulo em extensão territorial sofre com a falta de equipamentos culturais. “Trabalhamos com o número de 220 000 habitantes, são mais de 1 milhão de metros quadrados. É muita gente e poucos espaços de lazer. A maioria da população é jovem. Onde eles vão se divertir?”, questiona a líder comunitária. A sala nasce como um espaço estratégico de cultura.
Com sua memória auditiva precisa, Edilson ainda guarda as palavras que ouviu de uma mãe em 2005, quando a visita do maestro indiano Zubin Mehta ao instituto foi notícia. “Estou muito feliz de ver Heliópolis nos jornais, agora no caderno de cultura, falando do talento dos nossos filhos, e não nas páginas policiais”, ele recorda, com toda a emoção de quem também foi um jovem da periferia apaixonado por música. “É lindo andar pela Estrada das Lágrimas e ver as crianças com violinos nas costas”, diz o maestro, orgulhoso.
Teatro Baccarelli. Estrada das Lágrimas, 2317, Cidade Nova Heliópolis. Acess. teatrobaccarelli.byinti.com.
Histórias de transformação
CAUÃ GIUNTI, 21. A música surgiu como um escape para o violinista. “Minha mãe sempre trabalhou em escola, e não tinha muita supervisão para uma criança elétrica como eu (risos). Eu queria ficar na rua e, para ela não ficar preocupada, uma amiga indicou o Baccarelli”, conta o instrumentista, que começou a estudar aos 5 anos, passando por todas as etapas, desde a musicalização infantil até encontrar o seu instrumento. Nascido e criado no bairro, Cauã é violinista da Orquestra Juvenil Heliópolis e também participa do Coral Jovem Heliópolis. Fã de Beatles, Elvis Presley e Queen, ele se apaixonou por música clássica — seus compositores favoritos são Vivaldi, Bach e Tchaikovski. “O trabalho do Baccarelli não é só música, é respeito, educação, é uma coisa diferente que transforma todo mundo”, define.
YAMINAH DOS SANTOS, 19. A cantora entrou no Instituto Baccarelli aos 8 anos, por influência do avô. “Ele viu o potencial desse lugar e matriculou o meu irmão aqui. Um ano depois, foi a minha vez”, relembra. Ela começou com o violino, mas não se identificou, então foi para a trompa — e se encontrou. “Me apaixonei pelo som, pelo jeito de tocar, me identifiquei muito.” Hoje ela integra o Coral Jovem Heliópolis. “Não abro mão, porque a música transforma a gente”, diz Yaminah, que vê a abertura da sala de concertos como um marco. “É a realização de vários sonhos ter um teatro acessível para todos da comunidade”, conta. A artista planeja continuar com a cantoria presente na sua vida. “Aqui eu me encontrei. Sei quem sou através da música, carrego essa paixão comigo.”
MATHEUS FIRMINO, 22. O jovem músico chega aos ensaios e apresentações no Instituto Baccarelli de bicicleta, vestindo seu terno e carregando o violino nas costas. “Em casa a gente sempre ouviu muita música, só que antes era sertanejo, agora é música clássica”, diz ele, que ingressou na escola aos 9 anos. Para Matheus, as aulas chamam a atenção dos jovens por serem atividades diferentes. “Se eu não estudasse aqui, nunca teria visto um violino de perto”, conta o instrumentista, que faz parte da Orquestra Sinfônica Heliópolis. “Ter um teatro para estudar nos ensaios faz muita diferença. Nas salas de concerto o som se propaga de maneira diferente”, explica. Para ele, um dos principais benefícios do aprendizado musical é a disciplina. “O compromisso nos estudos, chegar no horário — isso muda muito a pessoa.”
THYFANI SANTOS, 18. Mesmo com a pouca idade, a violista realizou um grande sonho com o Instituto Baccarelli: tocar na Sala São Paulo. Mas ainda restam muitos outros, como entrar na Juilliard School, em Nova York. “Agora que terminei a escola, meu foco é o instrumento”, afirma Thyfani, que toca na Orquestra Juvenil Heliópolis e entrou no instituto aos 7 anos. “Meu avô foi um grande incentivador. Ele levava eu e a minha irmã para as aulas e nos ajudava a estudar”, conta. Para ela e a família, o teatro na comunidade fará toda a diferença. “Meus parentes trabalham a semana inteira e não têm tempo para pegar metrô e assistir a uma apresentação longe de casa”, diz. “A música deveria ser um direito para todos. Esse teatro não é um privilégio da favela, mas sim algo que deveríamos ter tido há muito tempo.” ■
Publicado em VEJA São Paulo de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979





