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Samba de bumbo paulista pode se tornar patrimônio cultural

O samba de bumbo paulista mescla elementos de dança, poesia e religião e tem origem nas fazendas de café do interior do estado, no século 19

Por Agência Brasil
Atualizado em 22 Maio 2024, 15h49 - Publicado em 5 jul 2023, 17h23

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) recebe, até sexta-feira (7), contribuições sobre o samba de bumbo paulista, expressão cultural negra que está no centro de uma proposta de registro que tramita na autarquia e que pode se consolidar, com isso, como patrimônio cultural do país.

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O Iphan está recebendo as sugestões sobre o samba de bumbo paulista por meio de formulário digital. Há também a alternativa de se enviar as contribuições pelo e-mail do Iphan.

Coube ao Fórum de Culturas Populares e Tradicionais, que tem sede em São Paulo, a iniciativa para início do processo de consulta pública. O samba de bumbo paulista mescla elementos de dança, poesia e religião e tem origem nas fazendas de café do interior do estado, no século 19. Com a migração de uma parcela da população do campo para a capital, na virada para o século 20, a manifestação se difundiu. Os municípios de Pirapora do Bom Jesus e Santana de Parnaíba contam atualmente com dois grupos tradicionais importantes, o Samba do Cururuquara e o Grito da Noite, além de outros contemporâneos.

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Santana de Parnaíba foi o destino de uma parcela significativa de negros escravizados no contexto da mineração de ouro no país, e a região Cururuqura tornou-se referência no campo do samba de bumbo. O que se narra é que, para marcar a abolição da escravatura, em 1888, os ex-escravizados foram à Capela de São Benedito, conhecida como Capela das Palmeiras, e lá permaneceram por quatro dias, tocando samba de bumbo.

Conta-se que plantaram quatro coqueiros em frente à capela e que seus descendentes realizam, todos os anos, durante a Festa de Cururuquara, um encontro no local, para lembrar o 13 de maio, data de assinatura da Lei Áurea.

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No samba de bumbo, predominam instrumentos de percussão, como a caixa, sem nenhum de corda ou sopro, conforme explica o  coordenador da Casa do Samba Parnaibano, João Mário Machado. Segundo ele, a manifestação assimila um traço muito próprio da música africana, que consiste em fazer sobressair as tonalidades mais graves, o que, neste caso, aparece no bumbo, associado ao umbigo do corpo humano e que recebe um nome, quando é feito. Os instrumentos que produzem notas mais agudas fazem apenas a marcação da melodia. Tal peculiaridade é encontrada em qualquer grupo de samba de bumbo, independentemente do “sotaque”, que é o conjunto de particularidades de cada um, como acontece em outras manifestações de cultura popular, como o maracatu.

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“O improviso nos versos também é uma característica. A gente, muitas vezes, canta verso que existe há muitos anos, que os mais velhos passaram para a gente, mas tenta sempre improvisar, utilizando metáforas. Assim como a capoeira, em que se tinha que fingir que se estava dançando, quando, na verdade, se estava aprendendo a lutar, no samba, ao cantar, era um meio de se comunicar”, esclarece Machado.

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Eny Soares, que se aposentou como técnica de enfermagem, jamais largou o samba de bumbo, desde que começou a participar da brincadeira, aos 4 anos de idade. Hoje Eny é mestra do Grupo 13 de Maio. Sobrinha de um dos precursores da manifestação em Santana de Parnaíba, Carmelino Eusébio de Jesus, de 102 anos, e de dona Luíza Camargo de Jesus, de 89 anos, ela assumiu, de repente, uma posição de destaque.

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“Tive o privilégio de sambar com eles e de conhecê-los, poder conviver um pouquinho. Sei de muita história. Aprendi, de pequenininha, de ouvir eles falarem. Não sou tímida. Então, fui a única que conseguiu cantar. Chegou uma época em que os antepassados foram morrendo e só tinha mulher, não tinha quem segurasse o bumbo. Então, eu tinha que tocar, cantar. E sem microfone. Foi superpesado para mim, mas, para o samba não morrer, eu segurei o bumbo. Meus netos foram entrando também, hoje estão moços. São os caixeiros”, relata.

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Mestres

João Mário Machado salienta que o principal préstimo do registro é o que os grupos de samba de bumbo podem conseguir para proteger essa manifestação cultural, por meio de políticas públicas que visem sua perpetuação. Ele acrescenta que os brincantes de samba de bumbo têm outra mentalidade, no que concerne a valores. Por isso, diferentemente do que acontece com outros artistas, a preocupação com o lucro não está em primeiro lugar. A prática do samba de bumbo também significa “cuidar dos mais velhos, cuidar da manifestação”, já que a oralidade e o aprendizado repassado pelos mestres, que têm mais idade e experiência ocupam um lugar de apreço.

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“No samba de bumbo, por ser uma cultura popular tradicional, a perspectiva que a gente tem é diferente da perspectiva que um profissional da música, do teatro ou da dança tem em relação à sua arte. Costumamos chamar as pessoas que fazem samba de bumbo de brincantes. É que, além de ser uma brincadeira muito séria, o termo ‘brincante’ está mais ligado ao lugar de afeto, de troca, de amor, de estar com a família, que é diferente do ‘vou me apresentar, ganhar um cachê’, diz o arte-educador e vivente de cultura popular.

De acordo com Machado, para que o samba de bumbo se mantenha, é preciso pensar nos mestres, em quem faz de fato esse samba, porque, muitas vezes, ao pensar na coisa pronta, isso acaba se tornando um produto. “E o samba se tornar um produto não é uma história longe da gente, que está em São Paulo, onde o samba partiu de Anhembi, que partiu do samba aqui do interior”,acrescenta.

*Colaboraram o produtor Thiago Padovan e a repórter Priscila Kerche, ambos da TV Brasil

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