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Rodrigo Teixeira: “Antes de pensar em Oscar, precisamos colocar filmes nos festivais”

O produtor indicado ao Oscar celebra vinte anos da RT Features, elogia o trabalho de Kleber Mendonça Filho e comenta sobre a temporada de prêmios

Por Mattheus Goto
20 mar 2026, 08h00 •
Rodrigo Teixeira
Rodrigo Teixeira: trabalho consagrado dentro e fora do Brasil (Leo Martins/Veja SP)
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  • Nos bastidores da indústria cinematográfica brasileira, uma figura influente reúne, com discrição, um robusto portfólio internacional e uma cobiçada agenda de contatos. Ele trabalha com diretores como Walter Salles, Karim Aïnouz, James Gray, Robert Eggers, Luca Guadagnino e Noah Baumbach em produções como Ainda Estou Aqui (2024), A Vida Invisível (2019), Ad Astra (2019), O Farol (2019), Me Chame Pelo Seu Nome (2017), A Bruxa (2015) e Frances Ha (2012).

    Indicado ao Oscar, o produtor Rodrigo Teixeira, 49, vive um ano especial. Além de ele completar 50 anos em dezembro, sua empresa, a RT Features, comemora duas décadas com uma mostra na Cinemateca, a partir desta sexta-feira (20) até 29 de março. Todos os longas citados fazem parte da programação, com ingressos gratuitos, distribuídos 1 hora antes de cada sessão na bilheteria do local.

    Depois do fenômeno Ainda Estou Aqui, a produtora inaugurou uma nova fase e tem diversos projetos engatilhados, um atrás do outro. Na entrevista a seguir, o carioca, que mora em São Paulo, dá detalhes dos próximos passos e, mesmo com a derrota do Brasil no Oscar, no domingo (15), elogia a campanha de O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, e comenta sobre a temporada de prêmios.

    Como se sente com os vinte anos da RT Features?

    É um sentimento de realização e maturidade. O primeiro filme da empresa, O Cheiro do Ralo (2007), foi meu laboratório de for mação. Eu repito o modelo dele até hoje. Os primeiros dezenove anos foram um ciclo importante. Quando o dólar estava mais parelho com o real, resolvi apostar no exterior. Teve um deslumbramento com a indicação de Me Chame pelo Seu Nome ao Oscar. De pois, houve uma decaída com a pandemia. O Ainda Estou Aqui foi um recomeço. Um reboot. Abriu uma nova etapa, já tivemos seis filmes rodados desde então. Estou bem feliz. Seguimos assim por mais vinte, 25 anos de trabalho. Aí eu me aposento. Não vou ser um daqueles produtores com 100 anos.

    Existe uma identidade nos projetos em que busca trabalhar?

    Eu tento desafiar minha cabeça. Penso primeiro como espectador. Se eu pagaria ingresso para ver esse filme, é porque ele tem algo interessante. Mas, se eu pensar apenas nos temas que interessam à minha idade, vou perder relevância e contato com o público jovem. Por isso tento manter projetos que dialoguem com gerações mais novas. Recentemente, me identifiquei muito com algo que Harrison Ford falou: “Fiz filmes de arte e filmes de entretenimento, mas às vezes dei sorte e fiz arte com entretenimento”. É o que eu faço.

    O que aprendeu e que contatos criou com as produções internacionais?

    É um ambiente muito meritocrático. Você precisa mostrar serviço o tempo todo. Criei muitas relações. Fiz uma conta e, olhando para os indicados ao Oscar de melhor filme deste ano, entre os dez indicados, cinco tinham produtores ou profissionais com quem já trabalhei ou que conheço há muito tempo. Isso mostra que estou ficando velho (risos) e como as relações se constroem ao longo dos anos. Valorizam muito lá fora o fato de eu ser um produtor latino-america no trabalhando com grandes nomes. Não são muitos nomes da região que fazem isso.

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    Como avalia a campanha de O Agente Secreto?

    Acompanhei claramente essa trajetória. O Kleber já tinha uma carreira consolidada na Europa, mas ainda não tinha a mesma pene tração no mercado americano. Os últimos meses foram quase uma faculdade para ele. A campanha foi brilhante. A Neon (distribuidora do filme nos EUA) realmente investe muito e faz um trabalho fora da curva. Houve uma estratégia de marketing muito bem coordenada. O Kleber é muito consistente no que faz. Para qualquer diretor que queira construir uma carreira internacional, a traje tória dele é uma grande aula.

    “A campanha de O Agente Secreto foi brilhante. Eu votei no filme em todas as categorias. O resultado é uma questão estatística”

    Rodrigo Teixeira

     

    Valor Sentimental venceu em filme internacional. O que aconteceu?

    Para mim, é uma questão estatística. Alguns filmes têm mais oportunidades de voto. Valor Sentimental tinha nove indicações, mais que o dobro de O Agente Secreto. Isso aumenta naturalmente o alcance. Eu votei em O Agente Secreto em todas as categorias em que estava indicado, mas sou apenas um membro entre 11 000. A diferença para o Emilia Pérez (2024) no ano passado é que a campanha deles foi trágica. Eles começaram a trocar os pés pelas mãos. A postura importa. Quem tinha mais chance de levar neste ano era o Adolpho Veloso (pela fotografia de Sonhos de Trem). Nas últimas semanas, Pecadores ganhou força e roubou o voto. Eu troquei minha escolha de ator coadjuvante do Stellan Skarsgård (Valor Sentimental) pelo Delroy Lindo (Pecadores).

    Que mudanças o Oscar do Brasil trouxe dentro e fora do país?

    Além da consagração de O Agente Secreto, existe uma mudança na autoestima do cinema brasileiro, que agora está cheia, e da percepção de talento. O Brasil tem diretores, diretoras, atores e atrizes que poderiam trabalhar em qualquer cinematografia do mundo, não é só Fernanda Torres e Wagner Moura. Há uma curiosidade pelo nosso cinema.

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    Como está o horizonte para o Brasil nas premiações internacionais?

    O Brasil vai ter dificuldade de chegar ao Oscar nos próximos dois anos. Os filmes do Cao Hamburger (Escola sem Muros) e do Carlos Saldanha (100 Dias) são possíveis candidatos. A Carolina Jabor fez um longa excelente (No Jardim do Ogro), e não é só porque é minha mulher. Mas, antes de pensar no Oscar, precisamos pensar em colocar filmes nas competições principais dos festivais de Cannes, Veneza ou Berlim. Sem isso, fica difícil. Eles são um filtro importante para o mercado e os distribui dores internacionais. E, para isso, precisamos de investimento em desenvolvimento de projetos, planejamento nos editais, a regulação das plataformas de streaming e a certeza de que, no fim do ano, as possibilidades de incentivo público não serão canceladas. Estamos em ano de eleição. Muitas produções que poderiam ser feitas em 2026 vão ficar para 27.

    Quais são os próximos passos?

    Temos vários filmes prontos que vão começar a circular em festivais. Dois nacionais: Isabel, com a Marina Person, e Privadas de Suas Vidas. Estou trabalhando em um do James Gray, que acho que vai ser um dos grandes da minha carreira. Temos outros do Chile, Argentina e Líbano. A Cachorra, da diretora chilena Do minga Sotomayor, tem Selton Mello no elenco. Nesta semana comecei a rodar uma ficção científica body horror de um diretor estreante americano, que quem sabe pode ser um novo A Bruxa. Daqui a 45 dias eu inicio outra filmagem, daqui a setenta dias, outra, e assim vai.

    Publicado em VEJA São Paulo de 20 de março de 2026, edição nº 2987

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