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“Precisamos entender o que acontece nas ruas e trazer para cá”, diz Leandro Lehart

Novo diretor do Centro Cultural São Paulo, famoso por liderar o Art Popular, diz que não quer local só para nichos e que trocar curadores revigora trabalho

Por Tatiane de Assis Atualizado em 10 jun 2021, 20h34 - Publicado em 11 jun 2021, 06h00

O anúncio de seu nome para a direção do CCSP foi recebido com surpresa. Por que acha que foi escolhido para esse cargo?

Acho que o Alê (Youssef, secretário municipal de Cultura) me viu como um cara principalmente do diálogo. Tenho muitas ideias, acompanho a efervescência cultural. E acho que ele entendeu que a minha personalidade pode me ajudar a ser um cara que funcione como o grande maestro de uma orquestra. Posso não entender tecnicamente de tudo, mas posso ajudar as pessoas a se juntarem e conversarem. Ele me disse: “Você sempre se reinventou, se colocou no mercado de diferentes maneiras. Preciso de uma pessoa que tenha essa visão lá”.

O Alê Youssef disse em entrevista à Vejinha que quer o CCSP mais popular. O que significa isso na prática?

O Alê percebeu que nos últimos anos o CCSP tinha tido trabalhos muito bons. A Erika Palomino é uma grande profissional, uma jornalista com conhecimento cultural muito vasto, mas era preciso uma retomada, pensando no que foi proposto no início do centro cultural. Aqui era um ponto de encontro das massas. O CCSP não era de pequenos nichos. É importante que eles estejam aqui, não quero mudar isso, mas desejo fazer uma ampliação.

Dentro dessa ampliação, está nos seus planos pensar em como atrair pessoas que moram nas periferias e usam a estação de metrô Vergueiro, próximo ao CCSP, para se deslocar entre sua casa e o trabalho?

Isso mesmo. E pessoas que se sentem intimidadas de estarem aqui. Nos últimos anos, o espaço que era do CCSP foi também ocupado pelas oficinas culturais e pelos CEUs. Estamos pensando em como nos adequar aos novos horários de trabalho das pessoas, seja em regime de home office, seja em regime presencial.

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leandro lehart sentado em cadeira de auditório da ccsp com o busto arqueado horizontalmente olhando para cima
Além de querer trazer uma parcela maior da população para dentro do CCSP, Lehart quer incluir novas formas de se fazer arte, o que se refletiu na mudança em alguns curadores Leo Martins/Veja SP

Você tem falado bastante da valorização do samba na programação. Como ficam outros gêneros com raízes na periferia, como o funk e o rap?

Eu vim do samba, mas não quero valorizar somente esse gênero. Como equipamento cultural, precisamos entender o que acontece nas ruas e trazer para cá. Não só na música, mas em todo tipo de arte. Eu vivi uma época muito romântica do samba, antes dos anos 90, em que o CCSP fazia parte desse movimento. No extinto projeto Seis e Meia, eu vi aqui Fundo de Quintal, Leci Brandão, Reinaldo, era como uma espécie de vitrine.

O senhor pode adiantar algum projeto que vai acontecer, além da roda de samba gratuita, que foi anunciada?

Estamos preparando uma mostra de cinema de países africanos de língua portuguesa, que é uma atitude superimportante de reconhecimento dessas imigrações que vêm para a nossa cidade. Fazer projetos também de música e dança com a terceira idade. Eles sofrem muito com essa ideia de que, na velhice, você não é criativo, não é atuante.

A programação começa a ter sua marca a partir de quando?

A partir do fim de junho, já tive muitas ideias. Já falei com os curadores de todas as áreas. Nos próximos meses, a gente vai tentar se adequar à agenda macro da Secretaria Municipal de Cultura, considerando a celebração do centenário da Semana de Arte de 1922 no ano que vem. Depois também temos o aniversário dos quarenta anos do CCSP, igualmente completados em 2022.

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“O legado que quero deixar é a transformação do CCSP em um espaço de todo mundo”

Pode detalhar as mudanças na equipe de curadores?

Achei que era importante trazer um gás novo, mas sempre respeitando o que foi feito e construído. Foram mudanças para dar uma revigorada. Os profissionais anteriores fizeram excelentes trabalhos, mas acho fundamental pensar no revezamento. Na dança, o novo curador é Mark Van Loo. No teatro, agora temos a Aline Mohammed. Na música, ainda não foi anunciado, mas quem assume é a Kátia Bocchi.

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Fazendo um exercício de futurologia, como quer que sua gestão seja lembrada?

Uma coisa que eu notei, sendo músico, é que pessoas que não têm acesso à cultura se sentem inibidas quando estão em espaços públicos, como o CCSP. Nos anos 80, quando eu comecei a frequentar aqui, também me sentia assim, isso foi mudando no decorrer dos anos. Pensando nisso, o legado que eu quero deixar é a transformação deste lugar em um espaço de todo mundo.

Antes da pandemia, por quais lugares de São Paulo o senhor tinha mais carinho?

O CCSP, claro. Pensando lá atrás, de quando eu era pivete, lembro de clubes, que acho que eram estaduais, que tinham piscina. Também gosto muito do Parque Ibirapuera e do Horto Florestal.

Em 2020, ficou internado na UTI devido à Covid-19. Houve sequelas?

Graças a Deus não tive sequelas físicas, as minhas foram mais emocionais. Fiquei internado seis dias. Depois que fui para casa, fiquei fazendo as minhas coisas, muito reservado. Perdi muita gente com essa doença. Neste momento até, tenho um amigo lutando pela vida.

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Publicado em VEJA São Paulo de 16 de junho de 2021, edição nº 2742

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