A volta por cima de Ney Latorraca

Sucesso em 'Vamp — O Musical', o ator reencontra o grande público e se prepara para protagonizar 'Rei Lear'

O ator Ney Latorraca é mestre em formular frases de efeito e fica feliz de muita gente ainda levar a sério suas piadas. Poucos dias antes da estreia de Vamp — O Musical em São Paulo, declarou que, depois dessa temporada, entraria para o time dos
aposentados. Segundo ele, foi o que bastou para que todos os holofotes se voltassem para o seu lado.

“Imagina, eu recebi um convite para protagonizar Rei Lear, de William Shakespeare, em 2018, e jamais desperdiçaria essa grande oportunidade”, conta o intérprete santista, de 73 anos, criado em São Paulo e radicado há quatro décadas no Rio de Janeiro. “Até tenho condições de me sustentar pelo resto da vida, não sou um homem caro, mas só abro mão do palco quando tiver o risco de ficar babando diante da plateia”, completa.

Vamp — O Musical, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista, tem ingressos esgotados com, pelo menos, uma semana de antecedência, e o ator recebe aplausos em cena aberta. Latorraca voltou a encarnar o Conde Vladimir Polanski, o Vlad, sucesso na novela exibida pela TV Globo em 1991, que inspirou a peça.

Entre 32 artistas, o astro improvisa piadas certeiras, canta trechos de sucessos do passado como Gita, de Raul Seixas, e dança uma coreografia impagável, embalada por Thriller, de Michael Jackson. Ele divide o protagonismo com Claudia Ohana, intérprete da cantora Natasha, que entrega a alma ao vampiro em troca do sucesso.

“O Ney parece uma eterna criança que fez um pacto com o tempo, e, por essa energia, é um colega doce e comprometido”, elogia. Além de ter sido sua parceira na novela, Claudia contracenou com ele nos filmes Ópera do Malandro (1986) e A Bela Palomera (1989).

Latorraca e Claudia Ohana: parceiros no musical

Latorraca e Claudia Ohana: parceiros no musical (Caio Gallucci/Veja SP)

 

O atual momento coroa uma fase de superações. Em 2012, o ator enfrentou as complicações de uma infecção depois de uma cirurgia na vesícula que o deixou quase dois meses em coma. O homem de 1,80 metro e habituais 80 quilos chegou a pesar 40, e por pouco não carregou sequelas. Teve dificuldades para caminhar, usou fraldas por meses e não tomava banho sozinho.

O ator Edi Botelho, companheiro de Latorraca há 22 anos, assumiu as rédeas no período difícil. “O Edi virou praticamente um médico, e percebi que temos muito mais que um caso de amor, estamos unidos para toda a vida”, afirma, emocionado. Foi ao lado de Botelho que o profissional voltou ao seu ofício, há três anos, ainda driblando a fragilidade, na peça Entredentes, escrita por Gerald Thomas em sua homenagem.

Ney Latorraca, Claudia Ohana e Guilherme Lema na novela Vamp, da Rede Globo

Ney Latorraca, Claudia Ohana e Guilherme Lema na novela Vamp,</em (Paulo Jares/Veja SP)

“O Ney jamais demonstrou insegurança, e mordeu o texto como um leão. Nunca o tinha visto com tanta vontade de estar em cena”, conta Thomas, que também dirigiu a peça.

Outros trabalhos promissores, porém, foram recusados devido a limitações durante a recuperação. Latorraca abriu mão do personagem Téo Pereira da novela Império (2014), que ficou com Paulo Betti, e do filme Quase Memória, ainda inédito. Os fãs dos folhetins amenizaram um pouco a saudade do artista nos últimos capítulos de Novo Mundo, trama das 6 recém-encerrada.

Latorraca, no entanto, reconhece não ter mais a mesma paciência para decorar textos de um dia para o outro durante meses. “Televisão é para quem gosta, precisa e é jovem”, diz. “Aprendi a valorizar meu tempo, nem que seja para não fazer nada.”

Na estada paulistana, Latorraca fica no apartamento mantido em Higienópolis e aproveita para reviver o passado em longas caminhadas. Foi visitar o Colégio Claretiano, em Santa Cecília, onde estudou e fez a primeira comunhão, seguiu pela Haddock Lobo, via em que se localizava uma das pensões onde morou com os pais, e, depois de comer um quibe na Oscar Freire, foi a pé até sua casa pela Rua Augusta.

Entredentes (2014): no palco com seu companheiro, o ator Edi Botelho, e a atriz Maria de Lima

Entredentes</em (Allison Louback/Veja SP)

“Às vezes acho a cidade degradada em relação à minha juventude, mas amo tudo por aqui”, conta. Uma questão, no entanto, tem feito o artista pensar até em deixar o Brasil. “Se o Jair Bolsonaro ganhar a Presidência, eu vou me mudar para o Uruguai, porque adoro Montevidéu e posso visitar meu país a hora que quiser”, afirma ele, testando mais uma de suas frases de efeito.

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