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Mistura de teatro, cinema e instalação, peça gratuita sobre o Leste Europeu estreia em SP

Obra, que entra em cartaz na Casa do Povo, é inspirada em texto de diretor polonês e vai até dezembro; ingressos já podem ser reservados

Por Guilherme Queiroz Atualizado em 28 out 2021, 21h33 - Publicado em 28 out 2021, 21h30

A Casa do Povo, centro cultural judaico localizado no Bom Retiro, estreia no dia 11 de novembro a obra Leste, com direção de Martha Kiss Perrone. Inspirada em um texto do diretor polonês Jacob Rotbaum, a atração promete um misto de instalação, teatro e cinema para o público, com ingressos gratuitos que podem ser reservados pela internet (mais informações ao final).

A história de Leste é adaptada do musical Um Sonho de Goldfadn, escrito originalmente em iídiche, uma língua germânica de comunidades judaicas da Europa Oriental. A narrativa começa na Varsóvia, Polônia, quando o diretor de um teatro ordena que um contrarregra se livre de diversas roupas e fantasias usadas em peças populares da cultura iídiche.

Imagem mostra mulher sentada diante de plateia, com bandeira balançando na sua frente
Trecho de Leste Divulgação/Divulgação

Antes de se jogar os itens fora, o homem fica embriagado e, nos sonhos, encontra os personagens de cada uma das fantasias que deveria levar ao lixo. “Os personagens são todos de peças do Avram Goldfadn, um dramaturgo judeu que era muito popular. É como se vários personagens de Shakespeare se encontrassem em um espetáculo e começassem a dialogar”, diz Benjamin Seroussi, 41, diretor-executivo da Casa do Povo.

O espetáculo, que foi apresentado pela primeira vez no Brasil em 1948, no Teatro Municipal, foi reformulado para uma experiência que começa no Teatro Taib, no subsolo da Casa do Povo. “Ali terá uma instalação, que vai ser um prólogo, com sons, textos gravados pelos atores, e uma iluminação ativa. O público vai encontrar o palco que foi o cenário do set de filmagens”, explica a diretora Martha Kiss, 39, sobre a narrativa que tem 90 minutos de duração.

Logo depois, o espectador sobe o segundo andar, onde vai se deparar com duas telas dispostas paralelamente, onde a peça será projetada. Martha conta como a narrativa foi traduzida para a linguagem cinematográfica. “O público vai poder observar as duas telas, que passarão simultaneamente as mesmas cenas, mas de pontos de vista diferentes. Existe edição, plano-sequência, a ideia foi trazer a mesma tridimensionalidade que a gente tem quando está diante de uma peça de teatro”, afirma.

Imagem mostra grupo de pessoas com roupas de época
Trecho de Leste, na Casa do Povo Divulgação/Divulgação

Ao todo são cerca de quatorze canções, com a cantora Assucena Assucena, do extinto trio As Baías, no elenco, e mais treze atores, como Amanda Lyra, Nina Hotimsky, Ícaro Pio e André Lu. Boa parte das músicas é cantada em iídiche, mas os diálogos são em português. “Tem o mocinho, a mocinha, o policial corrupto, um jovem que é lutador pela liberdade, é uma peça que segue muito atual. Eu era muito jovem, mas nunca esqueço da mensagem do espetáculo, de esperança”, lembra Hugueta Sendacz, 95, regente do coral da Casa do Povo, que esteve na primeira exibição no Teatro Municipal em 1948.

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A ideia de resgatar o espetáculo partiu de Hugueta. Depois de expressar a vontade para Benjamin, os membros da Casa do Povo chegaram a viajar até a Polônia, em 2014, na busca do texto original. “(Nos anos 40) o diretor Jacob Rotbaum apresentou a peça em diversas cidades pelo mundo, Detroit, Chicago, Londres, Paris, São Paulo, e sempre que chegava em cada país montava o show com atores judaicos locais”, diz Benjamin Seroussi.

O roteiro original foi encontrado em um arquivo judaico na Varsóvia, em iídiche, por Dorota Kwinta, que auxiliou a Casa do Povo. Com o texto em mãos, ele foi escaneado, enviado para o Brasil e traduzido por Hugueta.

Imagem mostra fachada de prédio, com árvores na calçada
Fachada da Casa do Povo, no Bom Retiro André Penteado/Divulgação

“Temos músicas de raiz do Leste Europeu. A gente não sabe exatamente o que era esse teatro iídiche, então reimaginamos ele para os tempos atuais”, explica Martha. “É um espetáculo que sonha o melhor para a vida. Fala de São Paulo, do Bom Retiro e da paulicéia desvairada. O Teatro Taib,  que está desativado e ainda busca reforma, é um lugar importantíssimo. Atores como Sérgio Mamberti começaram a carreira lá”, conta Benjamin.

O Taib foi um dos palcos efervescentes da cidade entre as décadas de 1960 e 1970. Recebeu grandes sucessos de bilheteria nos anos 1980, mas entrou em declínio até fechar as portas no começo dos anos 2000. Em 2019, o crítico de teatro Dirceu Alves Jr. relembrou o passado do Taib, quando uma campanha de financiamento para a restauração do endereço foi lançada.

O espetáculo, gratuito, contou com a participação de uma equipe de cerca de quarenta pessoas e financiamento do Ministério do Turismo, governo de São Paulo e outras instituições. As exibições são às quintas, sextas e sábados, sempre às 20h, e aos domingos, às 19h, até o dia 5 de dezembro, com capacidade para cinquenta pessoas por sessão. O uso de máscara é obrigatório. Adquira seu ingresso aqui.

Leste. Casa do Povo. Rua Três Rios, 252, Bom Retiro. De 11 de novembro a 5 de dezembro.

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