Mostra na Casa-Ateliê Tomie Ohtake compila projetos de casas feitas por Ruy Ohtake
'Percursos do Habitar' inaugura programação cultural do espaço no Campo Belo
Ao longo da vida, Ruy Ohtake (1938-2021) produziu quase 300 edificações espalhadas pelo mundo, entre elas cartões-postais paulistanos, como o hotel Unique, e obras internacionais, como a Embaixada Brasileira em Tóquio. Seis dessas construções são tema da mostra Ruy Ohtake — Percursos do Habitar, em cartaz a partir de sábado (7) na Casa-Ateliê Tomie Ohtake.
A sede da expografia não poderia ser mais adequada: um dos primeiros projetos da carreira do arquiteto, a casa no Campo Belo foi lar e ateliê da mãe dele, Tomie Ohtake (1913-2015), durante quase cinco décadas. Percursos do Habitar marca a abertura do espaço, que passará a receber exposições temporárias e programação cultural — outras duas mostras estão previstas para o segundo semestre deste ano.
O imóvel é uma das moradias investigadas na mostra, ao lado da Residência Chiyo Hama (1967), da Residência Nadir Zacarias (1970), da Residência Domingos Brás (1989), da Residência Zuleika Halpern (2004) e do Condomínio Residencial Heliópolis (2009), conhecido como “Redondinhos”. Documentos, imagens, croquis, maquetes e entrevistas com moradores das residências são reunidos para revelar os bastidores e processos das construções, que, por serem propriedades privadas, não são abertas para visitação — à exceção da Casa-Ateliê.
“O Ruy defendia a ideia de casa como praça, como um lugar de sociabilidade”, explica Sabrina Fontenele, que assina a curadoria da exposição ao lado de Catalina Bergues. Como exemplo, ela cita a Casa-Ateliê, que tem pouquíssimas portas, em um convite ao contato familiar, e o conjunto habitacional de Heliópolis, cuja estrutura inclui espaços de convivência e de lazer no térreo. “Ele era um arquiteto que convocava a conviver”, completa a curadora.
O conjunto dos famosos “Redondinhos”, uma parceria de Ruy Ohtake com a prefeitura, foi um dos projetos mais marcantes da carreira do arquiteto. “Ele trabalhou de maneira muito próxima dos moradores. Mesmo depois de construído, ele ia lá visitar”, comenta Fontenele, que descobriu essa proximidade durante as entrevistas com moradores do conjunto.
As transformações estilísticas da produção de Ohtake se evidenciam na exposição, que traz projetos da década de 1960 até os anos 2000. “No começo, ele tinha uma arquitetura bruta, com materiais aparentes e instalações expostas, como na Casa-Ateliê. Nos anos 90, começou a usar outros materiais, como o aço e o vidro”, destaca. A constante repaginação parece vir do DNA ou da cultura familiar. “Tomie também se reinventou muito ao longo da carreira, pensando constantemente em novas linguagens, como a pintura, as esculturas e as obras públicas”, sugere Fontenele.
Casa-Ateliê Tomie Ohtake. Rua Antônio de Macedo Soares, 1800, Campo Belo. Não tem telefone. Qui. a dom., 10h/17h. →. R$ 50,00. Até 31/5.
Publicado em VEJA São Paulo de 6 de março de 2026, edição nº2985





