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Marilene Felinto: “Eu escrevo para entender quem sou”

A escritora e jornalista fala sobre seu mais recente romance, premiado pelo APCA de Literatura, a trajetória literária e as mudanças no mercado editorial

Por Mirela Costa
20 fev 2026, 08h00 •
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Marilene Felinto: escrita premiada sobre ancestralidade (Leo Martins/Veja SP)
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  • Pelo seu romance de estreia, As Mulheres de Tijucopapo (Ubu, 240 págs., R$ 74,90), de 1982, a jornalista, tradutora e escritora pernambucana Marilene Felinto conquistou o Prêmio Jabuti de Autor Revelação, com apenas 24 anos. Ali, ela já traçava núcleos temáticos que permeariam seu percurso literário: o trauma da migração e a busca por pertencimento interrompida durante a infância, quando deixou Recife para viver em São Paulo.

    Formada em letras pela USP e mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Marilene vive agora, aos 68 anos, a conquista do Prêmio APCA de Literatura, cujos vencedores foram anunciados em janeiro. Na categoria romance, seu lançamento mais recente, Corsária (Fósforo, 176 págs., R$ 79,90), de 2025, venceu ao narrar a jornada de uma mulher que abandona uma vida confortável em Houston, nos Estados Unidos, para retornar ao interior do Nordeste brasileiro, onde viveram seus familiares. Em meio a pesquisas e testes de hereditariedade, a protagonista busca investigar as explorações trabalhistas sofridas pelos pais e a reparação de um passado marcado por violência e racismo.

    Segundo a autora, as semelhanças entre os livros premiados não foram essencialmente planejadas, mas resultam de suas próprias vivências: “Minha escrita de ficção é totalmente simbólica, por vezes surge de fatos verídicos que me ocorreram”. Confira a entrevista.

    Entre o Jabuti e o APCA, o que mudou e o que permaneceu?

    Escrevi As Mulheres de Tijucopapo ainda muito jovem, aos 20 e poucos anos, em um período de formação. É uma fase totalmente diferente da que vivo agora com Corsária, na minha maturidade. Hoje também tenho mais liberdade, já que a maioria das minhas editoras são mulheres e mais abertas às minhas ideias. O mercado editorial mudou bastante nas últimas décadas. Antigamente, ele era marcado por uma lógica machista, patriarcal e perversa, o que tornava as negociações com editores mais complexas.

    Como funciona seu processo de escrita?

    Escrevo para tentar entender quem sou. Mas nem sempre consigo me decifrar. Na adolescência, achava a prática da escrita algo anormal, esquisito e vergonhoso, porque, entre meus cinco irmãos, só eu precisei escrever. Nunca partiu de um desejo, mas, sim, de uma necessidade de tornar concretas as alegrias, traumas e medos que me dominam. Apesar de ser um processo doloroso, hoje em dia eu acho que escrever é saudável, é uma conquista quando você consegue vencer as palavras. E o engraçado é que prefiro não reler o que já escrevi, porque um livro é como um filho. Você coloca no mundo e, à medida que ele entra em contato com outras pessoas, vai se transformando, ganha novos conceitos, valores e visões.

    Falando nas necessidades que a levam a escrever, qual delas desencadeou seu último romance?

    Corsária foi motivado pela morte da minha mãe, em 2022. Não é um livro sobre ela, mas foi disparado a partir desse fato estrondoso na minha vida. Para mim, foi fundamental escrever esse livro para conseguir receber esse luto de uma forma que não me deixasse muito desestruturada. Algumas vivências que a protagonista enfrenta, como a usurpação do direito de saber a origem da própria família, dialogam com a realidade da minha mãe.

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    Sua literatura permeia o feminismo e a ancestralidade. São abordagens essenciais para você?

    Nunca penso nas histórias antes de tê-las escrito, meus romances não costumam ter temas muito redondos. Escrevo sobre o que vivo, o que me atravessa. O enredo de Corsária acaba abordando a ancestralidade de forma natural, justamente porque parte da morte da minha mãe. Mas não elaborei uma narrativa baseada nisso.

    Escrever nunca partiu de um desejo, mas, sim, de uma necessidade de tornar concretas as alegrias, traumas e medos que me dominam

     

    Qual é o papel da ficção na realidade?

    Em setembro do ano passado, fui fazer uma fala na Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), onde os alunos tinham lido não só meu primeiro livro, como meu último também. Gente muito jovem, de 19, 20 anos. Eles fizeram uma encenação teatral de Corsária, e eu fiquei impressionada! Uma menina, inclusive, chorou na plateia, dizendo que As Mulheres de Tijucopapo a formou. Aquilo foi importantíssimo para mim, no sentido de ouvir pessoas que sentiram coisas parecidas às que eu sinto desde adolescente. Acho que a literatura de ficção tem esse papel de tocar a realidade do outro.

    Quais são as referências literárias que te marcam como leitora e escritora?

    Tenho uma identificação enorme com Graciliano Ramos, além de outros poetas pernambucanos, como Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, e o paraibano José Lins do Rego. Todos esses tratam de uma realidade de miséria que meus pais viveram e que eu também vivi um pouco. Já mais velha, a escritora que mais me marcou como mulher foi, sem dúvidas, Clarice Lispector. É a minha grande ídola desde o ensino médio.

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    Se na infância a mudança para São Paulo foi um processo traumático para você, qual sua relação com a cidade hoje?

    Quando cheguei aqui, aos 11 anos, tive que me acostumar com tudo. Desde a roupa que eu tinha que vestir por causa do frio, até a comida, que eu detestava porque não tinha as frutas que eu queria. Foi um período que eu, inclusive, lia muito para me isolar, considero realmente uma perda da minha terra de infância. Ainda assim, ter feito graduação em São Paulo, na faculdade de letras da USP, teve um papel essencial para mim no sentido de perder a baixa autoestima que eu tinha até então, de cavar meu lugar no mundo e de conquistar espaço para o que hoje chamam de voz, coisa que eu nem pensava sobre na época. Depois logo me destaquei na universidade, que foi uma grande escola na minha vida. Atualmente, eu não moraria em nenhum outro lugar. Já perdi uma cidade e não quero perder outra.

    Quais conselhos você daria a jovens escritores?

    Diria para irem escrevendo o que sair, porque nunca vai ser o resultado perfeito. Não dá para escrever pensando na publicação, e menos ainda na repercussão midiática ou em possíveis prêmios. Isso pouco importa no início, não são essas consagrações que vão fazer alguém produzir um livro verdadeiramente. Não acho que a escrita parta do desejo por grandes reconhecimentos, mas, sim, das próprias inquietações do escritor.

    Publicado em VEJA São Paulo de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983.

     

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