Avatar do usuário logado
Usuário

Leci Brandão: “Depois de 81 anos, estou vivendo, ainda estou aqui”

Entre os palcos e a política, a artista relembra memórias do Carnaval e comenta a internação recente e o retorno à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Por Livia Uchoa 6 fev 2026, 08h00 •
Leci Brandão
Em recuperação, a artista está animada em voltar às atividades: “Sou muito dinâmica” (Leo Martins/Veja SP)
Continua após publicidade
  • Leci Brandão tem uma história de pioneirismo. Primeira mulher a integrar a ala de compositores da escola carioca Estação Primeira de Mangueira, na década de 1970, ela abriu portas para a representatividade feminina nos sambas-enredo. Além de compor para a agremiação, Leci comentou os desfiles do Rio de Janeiro na TV Globo de 1984 a 1993 e os de 2000 e 2001. Depois, de 2002 a 2010, desempenhou a mesma função no Carnaval paulistano.

    Em 50 anos de carreira, celebrados no ano passado, a artista carioca gravou 25 álbuns que abrigam hits como Zé do Caroço e Isso É Fundo de Quintal, ambos do LP Leci Brandão (1985). O disco marcou sua retomada artística após uma pausa de cinco anos. Fez tanto sucesso na capital paulista que no ano de lançamento foi tocado quase diariamente no programa O Samba Pede Passagem, da Rádio USP.

    A cidade, onde vive desde 2002, marca outras transformações em sua vida. Aqui, foi convidada a se filiar ao PCdoB, partido pelo qual se elegeu deputada estadual em 2010, cargo que ainda exerce — foi a segunda deputada negra da história da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Depois de vinte dias internada e seis meses afastada de suas atividades por problemas de saúde, Leci fala à Vejinha, de sua casa no bairro de Indianópolis, sobre a volta, nesta semana, à Alesp e relembra memórias de outros Carnavais.

    Onde foi seu primeiro contato com o samba?

    Na minha infância. A minha avó e a minha mãe sempre frequentavam a Estação Primeira de Mangueira. A minha madrinha também morava no Morro da Mangueira. Então, meu contato com a escola e com o samba é desde pequenininha.

    Você sente que o Carnaval mudou muito em relação àquele que viveu no início de sua carreira?

    Demais. Eu vivi o Carnaval quando ele era cercado por uma corda. Não tinha arquibancada, foi uma coisa de anos depois. Vim acompanhando as escolas de samba desde menina, elas eram bem menores. Outra realidade.

    Tem alguma lembrança marcante que guarda dos desfiles?

    Naquele tempo, as pessoas iam para a avenida, os carros não tinham tamanhos alegóricos, eram pequenos. Era uma coisa assim, muito familiar. Eu me lembro que nós fazíamos lanches para levar numa sacolinha, para poder comer durante a noite, como pão de queijo. É algo de que recordo muito, é uma memória afetiva que tenho da época.

    Continua após a publicidade

    Em 2012, a Acadêmicos do Tatuapé subiu para o grupo especial com o enredo Tatuapé 60 Anos — Da Arte do Samba, Nasci para Comunidade, Defesa e Essência. Sou Guerreira! Sou Leci Brandão!. Como foi receber essa homenagem de uma escola paulistana?

    Fiquei muito emocionada, porque eu nunca tinha sido homenageada por uma escola de samba. E foi justamente aqui que isso aconteceu. Na verdade, São Paulo trouxe muitas transformações na minha vida. Foi o primeiro lugar em que recebi homenagem, aqui recuperei a minha carreira artística, porque estava sem gravar de 1981 a 1985, com o sucesso do LP Leci Brandão. Aqui também fui convidada a entrar na política. Muitas mudanças boas.

    Qual sua relação com a escola hoje?

    Não participo do dia a dia da escola nem dos ensaios, mas tenho muita afeição e carinho por ela.

    O que o Carnaval representa para você?

    É uma arte, algo especialmente brasileiro. Faz parte da minha vida. Sempre estive muito envolvida, desde a Mangueira, onde fui a primeira mulher a integrar a ala de compositores, nos anos 70, e depois como comentarista na TV Globo, no Rio e em São Paulo.

    São Paulo trouxe muitas transformações na minha vida

    Leci Brandão
    Continua após a publicidade

    E que importância ele tem para a sociedade brasileira?

    As escolas de samba têm uma responsabilidade muito grande na construção do país, porque os enredos contam a história do Brasil e da sociedade. Os artistas, os componentes conseguem passar para o público toda a verdade, a importância da democracia e da luta. Muitas vezes as pessoas não têm consciência da história do país, e através dos enredos elas podem conhecer. Isso é fundamental.

    Se pudesse dar um conselho a mulheres que desejam entrar no mundo do samba, o que diria?

    Eu diria que, se elas têm consciência de que vão fazer músicas com letras legais, que têm a ver com o povo e com a comunidade, que elas jamais desistam e continuem batalhando. Estou muito feliz porque hoje em dia existem muitos grupos femininos. Muita mulher fazendo samba, algumas inclusive com uma vantagem sobre mim, porque eu não toco nada. Tocava pandeiro, mas, depois que fiquei doente, eu parei. Vou voltar, se Deus quiser.

    Além da carreira musical, você atua como deputada estadual de São Paulo. Quais as principais causas que busca defender?

    Cuido muito da questão da igualdade racial. Sempre defendi o movimento negro, as religiões de matriz africana, o movimento LGBT, a favela e a periferia. Meus mandatos (está no quarto seguido) sempre foram voltados para a proteção das cidadãs. Tenho uma carreira com muita música, então entendi que ia fazer um mandato autêntico, de acordo com minha arte e com tudo o que eu já tinha escrito.

    Como concilia as obrigações políticas com os shows?

    Tento fazer tudo. Depois que fui eleita deputada, sei que tenho uma grande responsabilidade na minha presença e nas minhas atuações dentro da Assembleia Legislativa. Minhas atribuições em São Paulo são muito grandes. São mais de 600 municípios, e tento atuar em todas as pautas que têm a ver com meu mandato.

    Continua após a publicidade

    Em 2025 você foi internada por causa de uma gripe, como está a recuperação?

    Fiquei muito doente no ano passado. Me afastei dos shows e da Assembleia, com problemas de pressão, coração, diabetes. Saí do hospital e estou me recuperando aos pouquinhos. Perdi muita massa muscular, estou magrinha, não estou caminhando muito bem, mas estou aí. Depois de 81 anos ainda estou vivendo, ainda estou aqui.

    Tem algum sonho que ainda deseja realizar?

    Graças a Deus, já realizei muita coisa. Gravei DVDs, fiz tudo direitinho. Agora estou com um trabalho de vídeo que vai ser lançado em março. Mas queria dizer que tenho pedido a Deus mesmo pela minha saúde. Estou querendo retomar, sinto falta das minhas atividades. Embora eu tenha mais de 80 anos, sou uma pessoa muito dinâmica. Sempre trabalhei, sempre atuei

    Publicado em VEJA São Paulo de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.
    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja SP* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do SP

    A partir de 29,90/mês