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Do Recife para o mundo: Kleber Mendonça Filho sob os holofotes com ‘O Agente Secreto’

Cineasta vive momento único na carreira com o filme, que estreia na próxima semana e já lhe trouxe prêmio em Cannes e torcida pelo Oscar

Por Mattheus Goto 31 out 2025, 08h00 • Atualizado em 11 mar 2026, 16h32
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 (Christian Gaul/Veja SP)
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  • “Ver um Glauber ou Hitchcock, só se for de joelhos, em louvor.” É assim que Kleber Mendonça Filho fala, em Retratos Fantasmas (2023), da sensação de assistir a uma obra de Glauber Rocha (1939-1981) ou Alfred Hitchcock (1899-1980). Pode-se fazer uma analogia com a expectativa para ver seus filmes. Neste ano, o cineasta recifense de 56 anos foi prestigiado com um título à altura de um de seus ícones ao receber o prêmio de melhor diretor em Cannes por O Agente Secreto — o único outro brasileiro a alcançar o feito foi justamente o baiano Glauber, em 1969.

    O novo longa tem trilhado uma bela trajetória em festivais. Levou um grupo de frevo ao tapete vermelho no festival francês, onde ganhou mais dois prêmios — melhor ator para Wagner Moura e melhor filme pela Federação Internacional de Críticos —, e fechou parceria com as distribuidoras Neon e Mubi. Nas últimas semanas, atraiu multidões a exibições especiais na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, como destaque nacional.

    “Eu nasci para trabalhar com o Kleber”, diz Wagner Moura, que interpreta o protagonista do longa (Laura Castor/Divulgação)

    Não por acaso, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional. Finalmente chegou a hora: O Agente Secreto entra em cartaz em todo o país na quinta-feira (6). Ambientada em 1977, a produção acompanha o especialista em tecnologia Marcelo (Wagner Moura), que sai de São Paulo e retorna ao Recife, sua cidade natal, na intenção de deixar para trás um passado enigmático.

    A obra figura entre apostas da mídia americana para a grande premiação do cinema. Um ano depois do fenômeno Ainda Estou Aqui (2024), a torcida surge com força mais uma vez. “A conexão dos brasileiros é enorme, um orgulho quando tem um pedaço do Brasil lá fora”, comenta o diretor e roteirista pernambucano.

    O papel principal foi escrito especialmente para Wagner Moura, 49. “Eu nasci para trabalhar com o Kleber”, comenta o ator. “Somos muito parecidos na forma como vemos a arte, o cinema e a política.” Para o artista baiano, Kleber é daqueles “bons diretores” que também são cinéfilos. “Ele sabe muito da história do cinema mundial, se apropria disso nos filmes e faz com que vire muito brasileiro.”

    Wagner Moura em performance contida e madura em 'O Agente Secreto'
    Ao chegar em Recife, Marcelo (Wagner Moura) descobre que está sendo espionado por vizinhos (Victor Jucá/Divulgação)
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    Quem rouba a cena em O Agente Secreto é Tânia Maria, artesã de 78 anos que foi descoberta pelo cineasta enquanto fazia uma figurante em Bacurau (2019). “Como diretor, Kleber é incomparável”, ela descreve.

    Gabriel Leone compartilha do orgulho e gratidão por fazer parte do projeto: “O cinema de Kleber me instiga demais, sempre quis estar num set com ele”.

    Tânia Maria em 'O Agente Secreto'
    Tânia Maria em ‘O Agente Secreto’ (Victor Jucá/Divulgação)

    Apesar de se passar em Pernambuco, o longa teve gravação na capital paulista. As cenas de um escritório foram filmadas em uma fábrica do fim dos anos 1940. “Passamos dois dias lá e foi incrível”, relata Kleber. “Tenho um apego grande pelo centro histórico de São Paulo, o que sobra dele.”

    Na terça-feira (28), a cidade serviu de cenário para uma pré-estreia no Cultura Artística, com toda a equipe. O sucesso é resultado de uma extensa e prolífica carreira.

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    Nascido em 1968, de um casal de cinéfilos, Kleber Mendonça Filho é apaixonado pela sétima arte desde pequeno. Na adolescência, morou na Inglaterra por cinco anos, enquanto a mãe fazia doutorado, e voltou aos 18. A primeira vez que teve vontade de filmar foi em uma festa de aniversário em 1988. “Tinha um amigo da família com uma câmera, eu peguei em uma pela primeira vez e filmei a festa.”

    Kleber Mendonça Filho na juventude, no Recife
    Kleber Mendonça Filho na juventude, no Recife (Arquivo pessoal/Divulgação)

    Começou a cursar jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco em 1990 e passou anos atuando como programador e crítico para o Jornal do Comércio e as revistas Continente e Cinética.

    Em paralelo, a carreira de realizador germinava. “Desde a primeira vez que o vi, em um festival no Ceará, em 1997, sou fã”, diz a diretora Anna Muylaert, 61. “É um cara muito ligado no mundo, muito autêntico. Vejo nele um farol. É um grande visionário do Brasil.”

    Kleber Mendonça Filho e Anna Muylaert
    (Da esq. para a dir.) Kleber Mendonça Filho, Cleodon Coelho, Ivana Moura e Anna Muylaert em festival no Ceará em 1997 (Cleodon Coelho/Arquivo pessoal/Divulgação)
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    Em 1998, Kleber virou coordenador de cinema da Fundação Joaquim Nabuco, onde trabalhou por dezoito anos, até 2016, quando assumiu a programação do Instituto Moreira Salles (IMS). No cargo, encara o desafio de fazer uma curadoria em uma cidade “muito bem servida de salas e programações especiais”.

    “Encher a sala faz parte da alegria de programá-la, mas temos o privilégio de não ter esse objetivo e é importante entender que algumas sessões terão quatro pessoas e talvez duas delas saiam mudadas.”

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    “O Agente Secreto vem do meu desejo de reconstruir o passado com base em memórias pessoais”, revela Kleber (Christian Gaul/Veja SP)

    A carreira de cineasta deslanchou a partir dos anos 2000, quando curtas como Vinil Verde (2004) e Recife Frio (2009) e o longa documental Crítico (2008) chamaram a atenção da crítica Brasil afora.

    Nessa época, conheceu uma grande amiga e parceira. Maeve Jinkings, 49, participou do teste para seu primeiro longa de ficção. “Tivemos uma conexão imediata”, ela conta. Assim, fizeram O Som ao Redor (2012) e formaram uma amizade. “Por fora, Kleber tem uma placidez e uma quietude, mas por dentro tem um mundo inquieto e sensível, que acho fascinante.”

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    Segundo a atriz, ele formou uma geração do cinema no Recife. Um fato crucial para isso foi a criação do festival Janela Internacional, em 2008, que abre espaço para realizadores brasileiros e estrangeiros.

    Um marco na cinematografia do diretor: 'Aquarius', com Sonia Braga
    Um marco na cinematografia do diretor: ‘Aquarius’, com Sonia Braga (CinemaScópio/Divulgação)
    Sucesso internacional: 'Bacurau' deu ao cineasta o prêmio do júri em Cannes
    Sucesso internacional: ‘Bacurau’ deu ao cineasta o prêmio do júri em Cannes (Victor Jucá/Divulgação)

    O segundo longa de ficção, Aquarius (2016), consolidou-o no audiovisual e segue sendo um dos mais aclamados. “O roteiro foi um dos mais lindos que já li”, elogia Sonia Braga, a protagonista. “Depois fizemos Bacurau (2019), e o resto é história.” Esse filme rendeu-lhe o prêmio do júri em Cannes.

    Antes de O Agente Secreto, o cineasta se debruçou sobre uma história pessoal e coletiva a partir da linha do tempo dos cinemas do Recife em Retratos Fantasmas (2023). O material foi fundamental para inspirar o longa que estreia na próxima semana. “O Agente Secreto vem do meu desejo de reconstruir o passado com base em memórias pessoais”, revela Kleber.

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    Kleber e a esposa Emilie Lesclaux, produtora de ‘O Agente Secreto’ (Soraya Ursine/Divulgação)

    Essa trajetória não seria possível sem a esposa e produtora, Emilie Lesclaux, 46. “Nos conhecemos em 2003 por causa do trabalho”, ela conta. “O Kleber é muito inteligente, muito observador. Viramos um casal, comecei a ajudá-lo nos curtas e criamos a nossa empresa.”

    Hoje, na CinemaScópio, produzem obras dele e de outros talentos, como Tião e Nara Normande, Leonardo Lacca e a alemã Nele Wohlatz. Trabalhar com o companheiro tem vantagens. “Antecipo muita coisa, pois o conheço bem, e não me preocupo com algumas coisas porque sei que vão dar certo. A gente é parceiro”, explica. Por outro lado, a profissão “invade” uma boa parte do tempo. “Não acaba às 17h. Nossos filhos participam, visitam set, viajam conosco, parecem achar interessante.”

    Os gêmeos Tomás e Martin, 12, ainda não miram uma carreira, mas já foram letrados no cinema de diferentes épocas e países. “Tenho prazer em apresentar meu universo a meus filhos”, completa o pai. Ele confessa gostar mais de filmes e músicas antigas, mas se desafia a acompanhar novidades, pois “seria muito ruim envelhecer dentro de uma caverna”. Gosta de escutar podcasts e está lendo A Questão da Palestina, de Edward W. Said.

    O diretor celebra o bom momento: “Com a retomada de um governo democrático, os elementos de apoio ao audiovisual voltaram a funcionar. O cinema brasileiro tem hoje uma diversidade saudável, nunca antes vista”. O foco é total em O Agente Secreto, mas a mente do cineasta já está no próximo projeto. “Estou aberto para coisas fora do Brasil, mas acho improvável”, diz. “Tem uma nova ideia em amadurecimento. Neste momento, estou sentindo uma certa alegria de achar que sim, tenho uma ideia para um próximo filme.”

    Roteiros de Kleber

    Em São Paulo…

    › Avenida Paulista.
    “Fico muito por lá pois vou muito IMS.”

    › Restaurantes Gopala e Muquifo.
    Kleber elogia o almoço do primeiro, de comida indiana, e adora o nome “bem pernambucano” do segundo, uma das casas da chef Renata Vanzetto.

    › Centro.
    À noite, gosta de sair com um amigo e ir à parte histórica da cidade.

    › E mais.
    “Gosto muito dos cafés de São Paulo, dos Jardins, de Perdizes.”

    No Recife…

    › Passeio de bicicleta nos bairros de Boa Vista e Santo Amaro.
    “Mudamos para uma área mais central, teve a construção de um parque na beira do rio, fazemos tudo de bicicleta”, conta Emilie.

    › Cine São Luiz.
    “Um cinema como esse ajuda a construir caráter”, diz Kleber em Retratos Fantasmas.

    › Endereços gastronômicos
    Os favoritos são Retetéu, Cá-já, Arvo, Oficina do Sabor, Quina do Futuro, Leite e Café Castigliani.

    Publicado em VEJA São Paulo de 31 de outubro de 2025, edição nº 2968

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