Isay Weinfeld: a arquitetura vista pela lente de um diretor
Retrospectiva inédita em São Paulo mergulha no universo particular do profissional que une rigor modernista e sensibilidade cinematográfica
Ele não gosta mais de ser fotografado. Acredita que seu trabalho merece os holofotes, e não a sua pessoa. “Sou reservado”, justifica o arquiteto Isay Weinfeld, 74. Mas é difícil não ficar curioso para descobrir quem é o criador de projetos arquitetônicos que jamais passam despercebidos na paisagem, seja em São Paulo, seja em Nova York, Lisboa ou Punta del Este.
e não na minha pessoa”. (Bob Wolfenson/Divulgação)
Com cinquenta anos de carreira, Isay precisará deixar a timidez de lado. Isso porque seu vasto trabalho criativo — que, além de arquitetura, inclui design, artes visuais e cinema — é tema de uma retrospectiva que ocupa o Instituto Tomie Ohtake entre o sábado (7) e 17 de maio.
Com curadoria do também arquiteto Agnaldo Farias, a exposição Isay Weinfeld — Etcétera percorre as diversas vertentes de seus projetos e obras, evidenciando o modo particular de pensar, criar e fluir em diferentes segmentos com igual maestria. A mostra tem identidade gráfica de Giovanni Bianco e catálogo de fotos de Bob Wolfenson.
Cerca de 180 itens, entre maquetes, móveis, filmes, joias, peças de moda, textos do próprio Isay e documentos diversos, ocupam as duas grandes salas do espaço expositivo. Para melhor contextualizar a carreira do arquiteto, a mostra traça um panorama a partir de 1973, quando ele abriu o primeiro escritório, sem deixar de lado trabalhos de formação e as referências artísticas que foram decisivas em sua construção criativa.
Entre as obras mais curiosas em exibição está o primeiro desenho de uma casa, feito por ele ainda na infância — que vai ocupar a entrada da exposição. O esboço deixa evidente ao visitante que aquela não é uma exibição tradicional ou acadêmica.
Muito mais do que apresentar projetos prontos, a mostra coloca ênfase no processo criativo do arquiteto que, segundo Agnaldo, “faz arquitetura sem saber desenhar”, apesar da representação da casinha da infância.
“Isay sempre foi contra a corrente. Além disso, bebeu de muitas fontes. Gosto de dizer que, como arquiteto, ele é um ótimo diretor de cinema”, brinca o curador, que ressalta o vasto conhecimento do arquiteto sobre fotografia, música e direção de arte — o que o levou a se aventurar pelas telas.
“A arquitetura não ocupa exatamente o primeiro lugar em sua hierarquia íntima. Antes vêm a música e o cinema”, diz Agnaldo, que procurou, com a montagem, desvendar a maneira como o colega compreende o espaço, a partir de suas múltiplas aptidões.
Um exemplo é a série IW Filmes (2013- 2025), composta de 34 curtas de um a três minutos, sendo que cada um é dedicado a uma obra do arquiteto e estruturado a partir de uma música escolhida por ele mesmo. “Isso estabelece um diálogo sensível com o projeto, o lugar, o cliente ou o momento de sua concepção”, explica Agnaldo.
Mas, afinal, como definir o estilo arquitetônico de Isay, autor de projetos tão marcantes quanto distintos, como dos hotéis e restaurantes do Grupo Fasano, da churrascaria Rodeio, da Livraria da Vila, da academia Bodytech, da Casa Cubo, no Jardim Europa, e dos edifícios 360°, no Alto de Pinheiros, e Santos Augusta, nos Jardins?
A alcunha de “arquiteto do luxo” é refutada por ele, apesar do que já se disse e se escreveu a seu respeito. “Não me defino e não gosto de ser definido ou enquadrado numa só gaveta”, afirma Isay. “Seja qual for o nome que me derem, é sempre muito redutor.”
De fato, além de originais, os projetos concebidos por ele são difíceis de enquadrar em uma definição estética, embora seja possível identificar a influência do modernismo, em especial, pelo uso de alguns materiais e das linhas retas. “O trabalho que ele faz não se enquadra em um só estilo, mesmo que a gente reconheça a limpeza formal em seus projetos”, assegura Agnaldo. Cada um deles é único e isso vem do respeito às expectativas do cliente. “Isay não impõem, ele escuta”, diz o curador.
Para Gero Fasano, do Grupo Fasano, Isay é um gênio. “Ele tem uma capacidade única de transformar ideias em lugares que emocionam, que têm alma, e isso é raro. Nossa parceria vai muito além dos projetos que realizamos juntos ao longo de anos, é uma amizade da vida toda”, diz o restaurateur.
“Trabalhar com ele foi, e continua sendo, um privilégio, não apenas pela genialidade que ele traz para cada projeto, mas pelo ser humano extraordinário que ele é.” Para Gero, celebrar cinquenta anos de carreira é celebrar um artista que mudou a arquitetura brasileira.
Ainda assim, Isay reforça que nunca deixa de lado seu gosto pessoal. “Essa é uma das razões que faz o cliente me procurar”, afirma. “O que eu faço é tentar entender o que o cliente busca e interpretar sob meu olhar. As observações do cliente sempre melhoram o resultado.” E ainda reforça: “Não tenho um estilo, e acho que isso seria o pior que poderia me acontecer”.
Cada projeto, diz Isay, traz condicionantes diferentes — programa, lugar, orçamento — e, portanto, soluções diferentes. “Detesto me repetir, pois significaria que meu trabalho ficou previsível.”
O que se vê nas manifestações artísticas do arquiteto não tem nada de previsível. Basta atentar para obras como Colar, Brinco e Anel Viário, criada em parceria com o arquiteto Marcio Kogan para uma exposição no Museu da Casa Brasileira, em 1995.
Em outra obra que tem o humor como crítica, Incredulidade (2024), Isay usa um cabide de metal que encontra um crucifixo de madeira e revela uma associação inesperada pela forma. “Isay é culto e bem-humorado. Tem um trabalho irônico que não é muito comum entre arquitetos”, elogia Agnaldo Farias. Trata-se de uma alma inquieta, que se aventura também pelo cinema, com curtas e longas-metragens.
No audiovisual, o destaque é Fogo e Paixão, de 1988, que traz um elenco estrelado com participação de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. É como fotógrafo, porém, que Isay demonstra seu olhar mais curioso sobre a capital paulista com uma série feita com celular durante uma década. Inclui detalhes como placas, pichações, grafites e cenas corriqueiras que constroem um estudo semiótico da vida paulistana — que deram origem ao livro ISAY W (Oscar Riera Ojeda Publishers, R$ 250,00, 416 págs.), com projeto gráfico de Giovanni Bianco.
“Há beleza dentro do caos de São Paulo. É só saber olhar”, define ele, que se diz impulsionado pela energia da cidade onde nasceu. Mesmo ela estando em constante mudança. “Não sou contrário à verticalização, ela é necessária neste gigante polo urbano. Mas precisa ser planejada, garantindo a presença de áreas verdes, e a preservação dos conjuntos de interesse histórico”, afirma o arquiteto, que, mesmo sem respeitar fronteiras, conhece limites.





