Grupos de desenho em São Paulo se reúnem para trocar experiências e registrar a cidade
Movimentos como o Urban Sketchers e o Saideira Ilustrada agregam desenhistas em encontros que transformam a ilustração em experiência coletiva
O ritmo frenético é inerente ao dia a dia paulistano. Longos trajetos, agendas cheias e milhares de histórias que se cruzam pelas ruas e avenidas atribuem a São Paulo — aniversariante deste domingo (25) — a alcunha de “cidade que não para”. Há, no entanto, uma prática que leva seus adeptos a pausar a rotina acelerada e voltar olhares atentos ao espaço urbano a fim de registrá-lo: o desenho de observação.
O maior representante global da atividade é o Urban Sketchers, movimento criado em 2007 pelo jornalista e ilustrador espanhol Gabriel Campanario e presente em mais de setenta países, conectando interessados em desenhar cenários cotidianos e construir narrativas artísticas a partir da contemplação in loco. A iniciativa chegou ao Brasil em 2011, quando os ilustradores Eduardo Bajzek, Juliana Russo e João Pinheiro fundaram o Urban Sketchers Brasil, em São Paulo.
Ativa há quinze anos em território nacional, a comunidade se expandiu pelo país e tem na capital paulista sua participação mais expressiva: a cada encontro, reúnem-se aqui entre setenta e 120 sketchers — como são chamados os integrantes do grupo —, segundo o arquiteto Breno Burrego, que coordena o núcleo paulistano ao lado de Nicolie Duarte e Ronaldo Kurita.
“O desenho de observação é uma atividade aberta a todos, sem julgamentos ou necessidade de experiência. Todos chegam, desenham o local e depois observam os trabalhos dos outros”, comenta Breno. Em eventos quinzenais, o grupo se reúne em museus, instituições culturais ou marcos históricos da cidade. Após percorrer mais de 200 pontos icônicos, como o Theatro Municipal e a Estação da Luz, o coletivo anuncia uma edição comemorativa dos 472 anos de São Paulo, com um encontro no Largo Santa Ifigênia no próximo domingo (25), das 10h às 12h30.
Ao final das reuniões, os sketchers posicionam suas ilustrações lado a lado no chão, contrapondo diferentes perspectivas do espaço observado. Para a engenheira civil Aretusa Sousa, que frequenta os encontros desde 2024, a “exposichão” — como é chamada a ação de encerramento — é uma forma de trocar diferentes visões críticas e estéticas acerca da mesma paisagem urbana: “É incrível ver a quantidade de detalhes que podem ser explorados em um único lugar”.
Breno também destaca os desenhos como um meio de documentação histórica da cidade, sobretudo em locais que enfrentam renovações estruturais e processos de gentrificação. “Registramos a Vila Itororó, na Bela Vista, em 2015, quando a região tinha acabado de ser desapropriada e passava por obras. Desde que a vila reabriu como centro cultural, em 2021, voltamos algumas vezes e os registros foram bem diferentes”, relata.
A conexão entre desenhistas profissionais e amadores também se dá em outros grupos de ilustração, caso do Saideira Ilustrada. Criada em abril de 2023 pelo ilustrador e diretor de arte Natan Nakel, a iniciativa reúne mensalmente artistas de variadas áreas, níveis de experiência e estilos gráficos. Ao contrário do desenho de observação, o Saideira propõe encontros de temática livre que acontecem no Restaurante Dines Sensação, no Paraíso.
Entre comes e bebes, os participantes trocam experiências e rabiscam extensas folhas de papel Kraft que cobrem as mesas. “A mesa vira quase um divã. Além da troca de técnicas artísticas, o desenho em conjunto promove um intercâmbio de vivências”, afirma Natan.
Assim, despretensiosamente, vai sendo criado um rico acervo visual da cidade.





