Gloria Pires: “Fazer 60 anos foi mais simples do que fazer 30”
Atriz carioca estreia na direção com o filme 'Sexa' e reflete sobre velhice saudável, falta de políticas públicas dedicadas ao audiovisual e próximo projeto
O tempo tem sido gentil com Gloria Pires. Hoje, aos 62 anos, com uma carreira sólida, desde a infância na TV, usufrui do autoconhecimento para uma vida mais plena e saudável.
A situação não é bem a mesma para Bárbara, personagem que interpreta no filme Sexa, que acaba de estrear nos cinemas. Ela vê o mundo através de uma lente mais negativa e sua velhice tem um gosto amargo.
Ao se tornar sexagenária, desabafa sobre a vida, o filho ingrato e as injustiças do machismo com a melhor amiga e vizinha, Cristina (Isabel Fillardis). Até que tudo muda quando conhece Davi (Thiago Martins), um viúvo de 35 anos, na noite do aniversário. Reacende-se a esperança na vida amo rosa e novos questionamentos sur gem, diante da diferença de idade.
O longa marca a estreia de Gloria na direção e simboliza o momento prolífico do seu ofício, com mais um projeto como diretora em vista, e do cinema nacional. Mesmo com as vitórias, ela reivindica um projeto governamental mais forte e robusto de apoio à produção audiovisual.
Como esse projeto surgiu?
Recebi o argumento para ser a Bárbara quando estava terminando a filmagem de Vovó Ninja (2024). Achei muito interessante a ideia de uma comédia romântica com uma personagem sexagenária. Nunca tinha pego um projeto em estágio tão inicial. Quis conversar sobre o assunto e tirei um tempo para estudar. Aquilo começou a criar um volume na minha cabeça, percebi que estava me levando para um lugar que eu namorava havia um tempo. Achei que tinha chegado a hora de ser diretora. Estava terminando o contrato de mais de cinquenta anos com a Globo, teria tempo disponível. Todos ficamos empolgados com a possibilidade.
Que diretores foram referência ao assumir o cargo?
Mesmo sendo atriz, sempre tive um olhar para os processos. Para começar, o Daniel Filho foi muito inovador fazendo novelas, saindo daquela coisa do rádio e misturando com cinema. A abordagem dele foi muito marcante para mim e levei para todos os meus trabalhos. Uma diretora com quem trabalhei uma única vez e ficamos amigas, que faz um cinema muito interessante, é a Anna Muylaert. E o Roberto Berliner, com quem fiz Nise: o Coração da Loucura (2015), também me proporcionou uma experiência incrível com um método mais documental.
Dona Déa, mãe de Paulo Gustavo (1978-2021), aparece como figurante no filme. Por que decidiu elencá-la?
É um momento em que a Bárbara está em crise, machucada, conflituada com o filho e a idade, aí chuta o pau da barraca. Queria que tivesse o lema que a Dona Déa diz: “Ganhei essa coroa e vou usá-la com orgulho”. Achei importante ter a criadora da frase marcando aquele ponto de transição. A Dona Déa é icônica, pela história que conhecemos e pela gargalhada inconfundível.
O que você tem em comum com a personagem?
Me assemelho à Bárbara nos questionamentos sobre feminilidade e as caixinhas em que colocam a mulher, mas nossas realidades são muito diferentes. Não experimentei essas agruras do tempo. Desde muito cedo eu trabalho e escuto pessoas da minha idade ou mais velhas dizerem que me assistiam desde criança. É normal, porque o tempo é muito relativo para cada pessoa. Eu não fui assaltada pela questão do envelhecimento. Me preparei para ter 62 anos. Estou feliz, realizada no meu trabalho e na minha vida pessoal com meu caminho e minha jornada.
Como é a vida aos 60?
Fazer 60 foi mais simples do que fazer 30. Os 30, para mim, foram conturbados demais. Eu tinha muito a conquistar, filhos chegando. Hoje, tenho autoconhecimento, uma vida estabelecida e uma saúde mil vezes melhor. Reencontrei a minha beleza e o meu poder pessoal. Estou aberta ao que há de vir. Além do Sexa, estou terminando meu documentário sobre balé folclórico da Bahia, um projeto muito importante para mim, e ainda tenho outras iniciativas no radar.
“Eu não fui assaltada pela questão do envelhecimento. Me preparei para ter 62 anos. Estou feliz e realizada no meu trabalho e na minha vida”
Gloria Pires
Você se considera uma pessoa mais ou menos paciente?
Nunca tive questão da urgência. Eu era ansiosa, a ansiedade me dominava em alguns momentos. Não tinha tanta sabedoria, tanta estrutura para lidar, o fato de o prato estar muito cheio piorava isso. Com a idade, isso foi se suavizando, mas sempre fui paciente. Meus pais eram kardecistas, fui criada nesse ambiente, meu pai fazia ioga, tinha um entendimento da questão do tempo. Embora tivesse sido criada em cidade, entendia o tempo da natureza, da fruta, da flor.
Qual é o seu roteiro em São Paulo?
Eu moro aqui em Higienópolis. Moro não, eu pouso aqui (risos). Venho, passo temporada trabalhando e volto (para Goiânia e Rio). Recentemente, a Cleo me levou em um lugar do lado da minha casa em que nunca tive tempo de entrar: a Praça Buenos Aires. Fiquei encantada, fomos fazer um piquenique. Esse bairro é muito legal. Também adorei conhecer o Museu da Língua Portuguesa e a Estação da Luz. Dois lugares em que só fui para trabalhar e quero voltar são a Faap e a Pinacoteca. São Paulo está apanhando com a questão do clima e a desordem social que está assolando o Brasil, com desmatamento e descompromisso com a vida pública. Pensa-se no próprio bolso, mas não no coletivo.
Que momento as novelas vivem?
Desde criança escuto que a novela está fadada ao fim. Olhando tudo que se faz hoje, acho que andamos um pouco para trás, de forma geral, no mundo. Mas é o fim das no velas? Estagnou? A gente vê que não, porque novos formatos estão surgindo. O pensa mento antigo ficou relegado por conta das novas tecnologias. Caminho sempre há, co mo está acontecendo com a novela vertical. Quem produz novela está enfrentando desa fios. O streaming traz um pouco a ideia de que ninguém é de ninguém, agravada pelo fato de a gente ainda não ter batido o martelo sobre a proteção da nossa autoria. Os artistas ainda não têm o seu direito de recolhi mento pelas obras em que participam.
E o cinema brasileiro? Como avalia?
Fico muito feliz com as vitórias e o reconhecimento, mas me pergunto em que momento os governantes vão entender que precisa haver uma política pública. Houve um desmonte gigantesco, que dificultou a implantação de medidas. Falta ouvir o setor. O público gosta de cinema, mas ainda é uma luta para conseguir exposição. Um filme é feito para as pessoas. O Brasil tem uma potência, um poder suave mal explorado, que faz bem para a nação e faria muito bem para a economia.





