Do crime real ao palco: Eduardo Moscovis traz debate sobre violência em novo monólogo
Indicado ao Prêmio Shell, ‘O Motociclista no Globo da Morte’ reflete sobre atos impulsivos; em entrevista, o ator detalha sua rotina entre o teatro e a TV
Depois de interpretar um serial killer na bem-sucedida série Bom dia, Verônica (Netflix), Eduardo Moscovis volta a se debruçar sobre a questão da violência.
Porém, desta vez, de outro ponto de vista: o de um homem pacífico e sensato que comete um ato brutal – de matar uma pessoa que matou um cachorro, caso que remete ao ocorrido em Florianópolis, com o cão Orelha e tem gerado comoção nas redes sociais.
O ator de 57 anos acaba de estrear no Teatro Vivo, no Morumbi, o elogiado monólogo O Motociclista no Globo da Morte, espetáculo do qual também é produtor.
Com três indicações ao Prêmio Shell (ator, dramaturgia e iluminação) e duas ao APTR, da Associação de Produtores de Teatro (ator em papel protagonista e dramaturgia), a peça, dirigida por Rodrigo Portella, fica em cartaz até 29 de março, período em que também estará à venda, no teatro, o livro com o texto escrito por Leo nardo Netto.
Na véspera da estreia, no último dia 23, depois de dirigir cerca de seis horas do Rio de Janeiro, onde mora, para São Paulo, Moscovis conversou com a Vejinha sobre o espetáculo, a novela Três Graças, no ar na TV Globo, em que vive um empresário dado como morto após ser obrigado a forjar um suicídio, e a série Fúria (Netflix), que estreia neste ano.
Falou ainda sobre saúde mental — ele enfrentou uma síndrome do pânico por volta dos 20 anos —, a decisão de parar de beber, há dez meses, e a educação de seus quatro filhos.
Por que falar da violência no palco?
Acredito que um espetáculo de teatro deva ser provocador. Nós estamos num nível muito grave de violências. E elas acontecem toda semana, quase todo dia. Ao mesmo tempo, hoje tudo passa por uma espetacularização. O tempo todo as pessoas estão filmando acidentes, discussões e violências.
Como foi a reação da plateia diante da narrativa?
Teve gente, pouca, que saiu no meio da peça. Por sugestão de uma amiga que se incomodou porque é muito sensível ao tema, incluímos um aviso (“Contém cenas que podem despertar gatilhos emocionais”) no site de compra de ingressos. No Rio, duas pessoas não se sentiram bem. Uma delas foi uma mulher. A pressão dela baixou e ela se deitou no chão. Nós interrompemos para cuidar, foi um momento rápido. Não precisava, mas ela se virou para a plateia depois que ficou bem, pediu desculpas e me falou para continuar.
Você se considera como seu personagem: um homem pacífico que já foi tomado em algum momento pela agressividade?
Sou. Há na minha vida um trabalho de auto percepção e aprimoramento a partir disso. Mas, sim, já vivi momentos em que tive rompantes, fossem verbais ou explosões.
Como a violência esteve inserida na sua educação?
Fui criado num universo masculino: eu e meu irmão com amigos meninos e poucas amigas meninas. Até tínhamos amigas, mas sempre com uma aproximação afetiva. Havia naquela época uma preocupação em criar homens resistentes para o mundo, com aquele clichê perverso de criar um “homem-homem”.
Como educa o seu filho, Rodrigo, a partir dessa reflexão?
Ainda consigo perceber na geração do meu filho, que tem 13 anos, muitos meninos parecidos com os da minha geração. Porém já vejo muitos outros que têm uma relação completamente diferente com a masculinidade. Meu filho é um garoto supersensível, carinhoso, afetuoso, atento. Ele cria em mim uma expectativa de otimismo, de que podemos conseguir ter uma geração que se relacione de forma diferente com questões como poder, insegurança, sensibilidade.
Você também é pai de três meninas. Como conjuga na educação delas liberdade e empoderamento? Já se viu querendo controlar as roupas que usam, por exemplo?
Isso já passou. Elas têm seus direitos, sim, e ponto-final. Podem usar a roupa que quiserem, apertada como quiserem, curta como quiserem. Porém, eu como pai, educador e um cara mais velho, tenho que falar também: “Fique atenta e fique preparada por que infelizmente pode ser que aconteçam coisas, e, principalmente, num país como o nosso, pode ser que a justificativa seja essa (a roupa) e você vai ter que lidar com isso”.
A peça discute a civilidade e o comportamento em público também. O que o incomoda no convívio social?
O barulho, tocar no outro, pessoas do seu lado vendo um vídeo sem fone. É abusivo e me incomoda que as pessoas não saibam o limite. O que acontece na peça é o que acontece todos os dias: o freguês que pega na pessoa que está atendendo e, coincidentemente ou não, essa pessoa é do sexo feminino. Tenho vários amigos que são assim. Tem gente que entra num bar, pega na pessoa que está servindo, tenta forçar uma intimidade ou intimidar. O limite entre intimidade e intimidação é muito estreito e arriscado.
Você ficou sem beber durante um tempo no ano passado e perdeu 15 quilos. Voltou a beber?
Estou sem beber desde o fim de março. Minha escolha de parar não estava relacionada à dieta que eu queria fazer, mas acabou funcionando, porque ajuda bastante. Minha ideia inicial foi ficar uns cinco dias sem beber, mas fui ficando e estou até agora, feliz da vida.
Qual foi a motivação?
Liguei um sinal de alerta num momento da vida em que estava sendo submetido a uma grande demanda. Tive uma perda repentina de uma pessoa muito próxima, estava em cartaz com uma peça (Duetos), ia começar a ensaiar e produzir esse monólogo e tinha toda a preparação e gravação da série (Fúria), sobre um universo que eu não domino, que é a luta.
Teve crises de pânico na juventude?
Tive pânico nos meus 20 e poucos anos. Naquela época, não era diagnosticado como síndrome do pânico ainda. Mas eu tinha taquicardias. Em algumas situações, conseguia me controlar e reverter, em outras não adiantava e eu precisava ir para o hospital.
Ainda precisa estar atento para as crises não retornarem?
Tenho total consciência até hoje de que, de pendendo da vida que eu estiver levando, da pressão e de como eu estiver lidando com isso, fico propício a perceber o que está por vir. Preciso dormir melhor, me alimentar bem, fazer exercícios. Agora, conversando com você, acho que esse movimento de parar de beber foi um pouco intuitivo neste sentido.
Faz terapia?
Lógico.





