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“Somente tiranias exigem desculpas dos inocentes”, diz Ronaldo Fraga

Estilista explica inspiração para uso de perucas de palha de aço em desfile e critica "patrulha ideológica" que o acusa de racismo

Por Lívia Roncolato Atualizado em 5 dez 2016, 16h13 - Publicado em 22 mar 2013, 13h56

Conhecido por ser um amante da cultura brasileira e por criticar o padrão de beleza das passarelas, desta vez o estilista mineiro Ronaldo Fraga foi o alvo. Numa coleção inspirada no futebol, no desfile da São Paulo Fashion Week na última terça-feira (19), Fraga apresentou suas modelos vestindo perucas de palha de aço, o que acabou gerando uma polêmica nas redes sociais.

Em uma conversa na noite desta quinta (21), Fraga esclareceu no que se baseou para montar sua nova coleção de verão e reafirma que não foi, em nenhum momento, racista. Leia a seguir os principais trechos da conversa.

Você sempre fez críticas contra os padrões de beleza  impostos pela moda. Como explicar para pessoas que não  conhecem o seu trabalho a escolha da beleza no seu último desfile na SPFW? O objeto de pesquisa desta coleção foi o futebol brasileiro das  décadas de 1930, 40 e 50.  O ¨bombril¨ usado nas antenas de  TV na tentativa de conseguir um melhor sinal de conexão nos anos  50 foi a referência para as esculturas usadas nas cabeças de  todas as modelos do casting. Poderia até lhe dizer que era uma  crítica ao racismo vigente nas primeiras décadas do esporte no Brasil, mas a ideia original não foi essa. 

Você não acha que usar palha de aço lembrando os negros que fizeram história nos primórdios da história do futebol  brasileiro não é ser conivente com o discurso racista? Pois  incentiva e ressalta os aspectos sempre usados  pejorativamente na história brasileira. Sempre coloco modelos brancas e negras nos meus desfiles. Não foi a primeira vez que a palha de aço foi utilizada. Em  Eu  amo coração de galinha, em 1996,  e Quantas Noites não Durmo, em 2004, eu usei este  recurso para dar forma aos  cabelos conforme o tema daquela coleção.  Esta situação é bem irônica, pois nos anos 30 os jogadores negros eram surrados em público quando cometiam falta, já que o futebol é de origem inglesa e vem de uma elite branca. Foi no  Brasil que nasceu o futebol arte, por influência da capoeira, com os negros e mestiços em campo. Esta minha coleção fala justamente disto e acabei sendo taxado de preconceituoso. Isto  até  poderia parecer piada.  Justo eu, mulato, filho de  descendentes de escravos e defensor convicto da cultura brasileira, conivente com um discurso racista? Mas é muito  sério quando revela uma patrulha ideológica que toma conta do  país enquanto crianças negras e mestiças continuam sem condições de sentar no banco de uma escola de qualidade. O  mundo não se resume a um desfile de moda! O corredor  polonês que foi armado em torno desta questão nos coloca lado a lado à forma como os Estados Unidos tentam resolver seus  conflitos raciais. Minha gente, nós nunca fomos assim… O que  seria de Tarsila do Amaral ao pintar A Negra  ou Os Mulatos, de Di Cavalcanti? Iriam para forca em companhia de Lamartine  Babo. 

Daqui pra frente, como você pretende lidar – pois Frei  David Santos, diretor executivo da Educafro, disse que você  devia desculpas pelo ocorrido – com a polêmica que o desfile gerou e como serão seus próximos trabalhos (que podem  ser influenciados pela confusão)?  Somente as tiranias exigem desculpas dos inocentes… acho que não é o caso.

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