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De Carla Madeira a Socorro Acioli: confira a trajetória de autoras em projeção no Brasil

Autoras estarão no Festival Fronteiras São Paulo, que ocupa o Parque da Água Branca nestes sábado (7) e domingo (8)

Por Laura Pereira Lima e Luana Machado
6 mar 2026, 08h00 •
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 (Nina Jacobi/Veja SP)
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  • Em 2020, autores, leitores e produtores de conteúdo iniciaram uma trend nas redes sociais. “Olhe para sua estante e pense: se eu tirar todos os livros escritos por homens, como ela ficaria?”, convocou o influenciador literário Bookster (Pedro Pacífico), um dos precursores do movimento. As lacunas eram gritantes e levantaram um alerta que não foi ignorado. Nos últimos seis anos, a amplitude das publicações de mulheres — que, desde os tempos de Maria Firmina dos Reis (1822-1917), autora do pioneiro romance Úrsula, já demonstravam sua força — ganhou proporções admiráveis, não só na literatura, mas também no teatro e no audiovisual, com adaptações cada vez mais frequentes.

    Carla Madeira, por exemplo, já vendeu mais de 1,2 milhão de obras. “Por muitos anos nos acostumamos a ver o mundo a partir da perspectiva do homem branco hétero. Aí cansamos dessa visão única e fomos buscar outras literaturas”, explica Roberta Martinelli, apresentadora do programa de rádio Clube do Livro Eldorado, que atribui o aumento de visibilidade dessas autoras a um movimento dos leitores e clubes de leitura. Esse interesse move a criação e permanência de livraria e editoras especializadas na curadoria de autoras, como a Bazar do Tempo. Criada pela carioca Ana Cecilia Martins, a casa editorial tem um catálogo de maioria absoluta feminina e possui um clube de assinatura mensal que envia livros inéditos de escritoras.

    Em comum, as obras se beneficiam de uma lacuna histórica de diversidade de visões de mundo na literatura. Mas as formas como o fazem são as mais variadas: do realismo fantástico de Socorro Acioli às pesquisas históricas de Mary del Priore, passando pela prosa em verso de Aline Bei. Eventos como o Festival Fronteiras, que acontece no Parque da Água Branca nestes sábado (7) e domingo (8) — Dia Internacional da Mulher —, atestam isso ao escolher uma grade homenageando a autoria feminina, como os nomes perfilados a seguir. “Reflete o momento que estamos vivendo. As mulheres vêm assumindo espaços de protagonismo”, indica Fernando Schüler, curador do evento, que pretende entrar no calendário oficial da cidade.

    De fato, a potência da mulher ultrapassa o papel. Um exemplo disso foi a mobilização de 75 autoras brasileiras em resposta à absolvição (já revogada) do homem acusado de estuprar uma criança de 12 anos em Minas Gerais. “A literatura sempre está lidando com política. As pessoas que escrevem estão muito conectadas e são cúmplices do mundo atual”, aponta Mariana Salomão Carrara, uma das que assinaram a nota.

    Aline Bei

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    (Nina Jacobi/Veja SP)

    A escrita é um processo de mergulho interno e silencioso para a autora paulistana conhecida pela prosa intimista e poética. Em seus livros, Aline Bei, 38, experimenta com os espaços da página. Forma e conteúdo são palavras que estão sempre unidas em suas produções, em especial no mais novo lançamento, Uma Delicada Coleção de Ausências (Companhia das Letras, 288 págs., R$ 69,90), que chegou às livrarias em 2025. O fim de uma “trilogia não intencional”, como define a escritora, que explorou os temas da solidão feminina e dos traumas familiares, abriu espaço para mais uma criação, que está nascendo aos poucos. “Comecei o processo de escrita e pesquisa neste ano. Mas já estava pensando sobre essa história desde o ano passado”, confidencia Aline, que irá dividir o tempo nos próximos meses entre a escrita e uma pós-graduação em literatura, arte e pensamento contemporâneo na PUC-Rio.

    A produção se desenrola no ateliê, que fica no seu apartamento, na Vila Madalena, e, vez ou outra, em espaços como a Casa do Sol, em Campinas, instituto cultural que funciona na antiga residência da escritora Hilda Hilst (1930-2004). Embora preze pelo isolamento durante o processo criativo, Aline terá de circular nas próximas semanas em São Paulo (para o Fronteiras), na Bahia (para a Bienal do Livro) e na Itália (promovendo a tradução da nova obra). No Fronteiras SP, ela integra a mesa “A palavra como casa”, no domingo (8). “Me sinto muito orgulhosa de estar participando. Se não fosse como autora, iria como leitora para ouvir essas mulheres maravilhosas contando os seus processos criativos. Estamos vivendo um momento especial da nossa produção literária, com trabalhos muito sólidos de autoras já experientes, no meio da jornada e jovens. Tudo isso flui para enriquecer a nossa cultura e aumentar as possibilidades de leitura no nosso país”, afirma.

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    Acostumada a explorar temáticas que investigam o íntimo do feminino, seja através das relações parentais ou românticas que permeiam suas histórias, Aline agradece por ter uma equipe quase inteiramente formada por mulheres. “Agora, as empresas editoriais fazem um trabalho maravilhoso de cuidar de suas autoras, com mulheres editoras, capistas e preparadoras. Isso é muito significativo, mostra como a área das letras, da literatura, é feita majoritariamente por mulheres”, defende.

    Andrea Del Fuego

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    (Nina Jacobi/Veja SP)

    Para Andréa del Fuego, 50, publicar é quase um detalhe. O verdadeiro prazer é a escrita. “Gosto muito do processo e tento preservá-lo da poluição da roda-viva do mercado. Tenho como método escrever como se ninguém fosse ler”, revela a autora, que chegou a ficar nove anos escrevendo um mesmo livro, para depois decidir que não o publicaria.

    Mas nem sempre é assim. A Pediatra (Companhia das Letras, 160 págs., R$ 74,90), de 2021, último romance que lançou, foi escrito em apenas um mês. “Tive a ideia do nada, durante uma caminhada”, lembra a autora, que dedicava cerca de seis horas diárias à escrita. “Acho que caminhar é literatura também.” Antes dele, ela já tinha publicado um outro romance, Os Malaquias (Companhia das Letras, 200 págs., R$ 79,90), obra que lhe rendeu o prestigiado prêmio Saramago em 2011. A trama, que acompanha a trajetória de três irmãos que perdem os pais após um raio atingir a casa da família, é inspirada em uma tragédia familiar real. “Meus bisavós foram cozidos por dentro por um raio”, conta.

    Muito antes do reconhecimento internacional, ela já tinha a escrita como hábito cotidiano, incentivada por uma professora do colégio público onde estudava, em São Bernardo do Campo. Nessa época, da infância ao início da vida adulta, ela ainda era Andréa Fátima dos Santos. Del Fuego só surgiria em 1998, quando foi convidada para escrever uma coluna na revista da Rádio 89 FM em que responderia às dúvidas sexuais dos leitores. Foi a primeira vez que um texto seu foi publicado, e o editor não escondeu o desapontamento com seu nome de nascimento, sem graça demais para a coluna. O novo sobrenome veio de uma sugestão da sogra, que lembrou da vedete dos anos 1940 Luz Del Fuego. “O nome foi ficando por uma distração. Não tinha a intenção de esconder meu nome verdadeiro, mas agora acho bom, me dá mais privacidade. Acho uma delícia pegar um RG e ali não ter nenhuma escritora”, revela.

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    No momento, ela se dedica à pesquisa para um novo manuscrito, com uma protagonista que trabalha em uma empresa de televisão. “Estou conversando com profissionais da área e passei um dia em uma emissora, assistindo a programas ao vivo e gravados”, conta. “Fiquei quietinha ouvindo os ruídos do trabalho. Me interessam muito esses ruídos”, completa. Seu processo criativo será tema de uma mesa do festival no sábado (7).

    Carla Madeira

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    (Cristina Cortez/Divulgação)

    Quando entregou o best-seller Véspera (Record, 280 págs., R$ 60,11), em 2021, a autora mineira acreditou que passaria muitos anos sem publicar novamente. Seria um momento para explorar novas atividades, alimentar-se de outras coisas e retornar, no futuro, mais enriquecida para a literatura. A vida, porém, tomou Carla Madeira, 61, pelos calcanhares e a colocou de frente outra vez para a escrita. “Vivi uma sequência de lutos há quatro anos. Perdi meu psicanalista, minha mãe e minha sócia. Foi um período muito doloroso. E um dia eu cheguei em casa e estava tão mal que abri o computador e comecei a escrever. O luto não está diretamente nessa nova história, mas eu percebi que escrever para mim é um recurso para lidar com o real”, confessa.

    A publicação será lançada ainda neste ano e está no final do processo de criação. A escritora, premiada com o Livreiros Bertrand de Autores Lusófonos pelo seu romance de estreia Tudo É Rio (Record, 210 págs., R$ 69,90), promete que a nova obra apresenta uma linguagem diferente da de suas outras produções.

    No meio desse desafio de escrita, Carla ainda contribuiu para o processo de adaptação de Véspera para o formato de série televisiva e vendeu os direitos do primeiro livro para o cinema, com produção da Boutique Filmes. A mineira estará no Palco Humano do festival, no domingo (8), debatendo justamente a criatividade na ficção com Bárbara Paz, Socorro Acioli e Cris Naumovs.

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    Socorro Acioli

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    (Igor de Melo/Divulgação)

    Aos 51 anos, a autora nascida e criada no Ceará celebra os sucessos de seus dois romances adultos — Oração para Desaparecer (Companhia das Letras, 208 págs., R$ 69,90) e A Cabeça do Santo (Companhia das Letras, 176 págs., R$ 69,90), que será adaptado para o cinema, com Antonio Pitanga no elenco e roteiro de Natalia Maia — após uma longa trajetória na literatura infantojuvenil. Com uma veia forte do realismo mágico, suas histórias são carregadas de reflexões sobre identidade e pertencimento.

    Sempre com um pezinho no real, seja inspirada em reportagens ou fotografias, Socorro se descreve como uma escritora-jornalista-pesquisadora. “Levanto documentos, dados, imagens e depoimentos. Daí, várias portas se abrem na minha imaginação. Então começa a parte dois, muito mais demorada, que é a composição de um mundo inventado, de respostas para as perguntas deixadas pelo real. Eu não romantizo o processo em nenhum momento, para mim é muito trabalhoso, difícil, custoso escrever um romance. Delírio San Pedro, que ainda não terminei, foi iniciado em 2006”, revela.

    Embora circule por muitos estados com suas publicações, a cearense não planeja se mudar do estado que inspira os cenários de seus universos fictícios e rejeita a expressão “literatura regionalista”, usada por muitos anos como guarda-chuva para definir a produção de autores nordestinos e nortistas: “Nós, artistas nordestinos, estamos fazendo um trabalho de dar orgulho em vários campos da arte no Brasil. Eu moro em Fortaleza, não pretendo sair daqui, gosto das histórias que o Ceará me presenteia. Sou uma regionalista, sim, mas na lista dos mais vendidos do Brasil inteiro”.

    Lilia Guerra

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    (Nina Jacobi/Veja SP)
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    Lilia Guerra, 49, nunca tinha pensado em se tornar escritora. Enfermeira do serviço de saúde pública e moradora de Cidade Tiradentes, bairro da periferia da Zona Leste de São Paulo, ela foi guiada à escrita como uma forma de aplacar sua curiosidade inesgotável. “Não consigo evitar. Se vejo uma pessoa carregando um volume, por exemplo, não passo impune por aquilo. Me pergunto o que tem na sacola, para quem é… .”

    Eis que um dia essa curiosidade a levou a se perguntar sobre a identidade de seu pai, que nunca conheceu e que era uma lacuna em seu documento de identidade. Uma extensa pesquisa sobre sua história familiar, que incluiu entrevistas com parentes e resgate de arquivos, resultou no livro Amor Avenida (Patuá, 312 págs., R$ 60,00), que ela financiou do próprio bolso e publicou em 2014. “Aí descobri que não conseguia ficar sem escrever”, conta.

    A escritora mergulhou na ficção com o livro de contos Perifobia (Todavia, 160 págs., R$ 47,90), de 2018, e o romance O Céu para os Bastardos (Todavia, 176 págs., R$ 66,90), de 2023. Criada em uma casa só de mulheres e tendo contato com esse público no trabalho no SUS, ela tem uma proximidade natural com esse universo feminino, sempre presente em suas obras. “Queria falar dessas mulheres que estavam no meu entorno e que eu não via muito na literatura que eu lia, aparecendo como protagonistas. Eram sempre histórias secundárias.”

    Nas poucas horas vagas, geralmente após as 22 horas, quando acabam as pendências do dia, Lilia se dedica a um novo romance, ainda sem data de lançamento, que, assim como seus outros livros, segue trazendo o deslocamento urbano como protagonista. “Falo da migração de pessoas que moravam em regiões mais centrais de uma metrópole fictícia, inspirada em cidades reais, e por que elas foram parar nas bordas”, adianta. Ela fala sobre sua trajetória e sua escrita em duas mesas do festival, ambas no domingo (8).

    Ana Maria Machado

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    (Henrique Machado/Divulgação)
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    Imortal e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, laureada com o Nobel da literatura infantil, o prêmio Hans Christian Andersen, homenageada pelo Jabuti de 2025 e com mais de cinquenta anos de carreira na literatura, Ana Maria Machado, 84, é uma das mais versáteis autoras brasileiras.

    Parte da infância de todos os brasileiros, a carioca já explorou diversos gêneros e prepara há dois anos um grande projeto de literatura adulta. “Eu procuro escrever todo dia, o meu processo de escrita é constante. Tem dias que eu aproveito o escrito, tem dias que não”, compartilha a autora, que desembarca nesta semana em São Paulo para uma mesa do festival, no domingo (8), na qual debate o papel da leitura e a intersecção com as instituições e o imaginário coletivo.

    Com décadas de mercado literário, durante as quais já atuou como professora e livreira, esses são tópicos muito caros para ela. “Tenho uma atitude em relação à literatura que tem sido muito a do uso democrático da linguagem. Ela precisa chegar à intimidade das pessoas, fazendo com que elas pensem sobre o mundo”, afirma.

    Ediane Ribeiro

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    (Pino Gomes/Divulgação)

    Embora sempre tenha se comunicado intensamente com seu público, seja por meio das redes sociais ou de palestras, a psicóloga se surpreendeu com o retorno do público leitor após lançar o primeiro livro solo: Os Tesouros que Deixamos pelo Caminho (Paidós, 224 págs., R$ 62,90). A obra é uma investigação sobre experiências traumáticas, assunto que estuda há quase uma década. Ediane Ribeiro, 47, descreve a produção da obra como confessional e terapêutica. “A primeira vez que pensei em começar a escrever sobre esse tema foi há uns cinco anos, mas eu tinha o desafio de falar sobre ele de uma forma que pessoas fora da área da saúde mental compreendessem. E aí, um dia, em uma viagem, eu sentei para escrever. Quando vi, estava amanhecendo”, relata a autora.

    Depois dessa catarse, um novo livro já se desenha, desta vez investigando as conexões dos traumas com as relações humanas. Com uma agenda intensa, Ediane vê com otimismo a onda de autoras e o aquecimento do mercado editorial de não ficção, em especial o aparecimento cada vez maior de autores brasileiros nas sessões de saúde e bem-estar, antes dominadas por nomes estrangeiros. “A gente também começa a ter um aumento da presença feminina nessas publicações. Dentro da saúde mental, tem autoras que eu admiro muito, mas a realidade é que escrever para nós, mulheres, não é uma tarefa simples com a quantidade de tarefas que acumulamos na sociedade moderna”, ressalta a autora, que estará no Palco Humano do festival no domingo (8).

    Mariana Salomão Carrara

    De segunda a sexta, ela dedica oito horas de seu dia para escrever petições e outras peças jurídicas recheadas de “juridiquês” em uma vara da defensoria pública na Zona Leste, onde atende pessoas de baixa renda. A escrita a acompanha também nos fins de semana, mas de uma forma bastante distinta. “Me disseram para fazer direito porque eu gostava de ler e escrever. Mas isso é uma falácia”, ri Mariana Salomão Carrara, 39, que, ainda assim, reconhece que a carreira jurídica tem um papel fundamental em sua produção literária.

    “Como escritora e leitora, preciso ter essa sensibilidade com histórias que não são minhas”, pontua. Essa carreira dupla lhe serviu de inspiração para seu novo livro, Cláudia Vera, Feliz Natal, a ser publicado em maio pela Todavia, obra que conta a história de um juiz digressivo que se põe a pensar em sua vida enquanto escreve uma peça defensiva. A escrita de assuntos cotidianos é o tema de sua mesa no domingo (8) no festival.

    Publicado em VEJA São Paulo de 6 de março de 2026, edição nº 2985

     

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