Céu celebra 20 anos de carreira: “A música da IA não vai ser igual”
Com a carreira nas próprias mãos e turnê que passa pela cidade neste mês, a cantora paulistana revisita sua trajetória e defende uma criação mais humana
Um loop eletrônico, percussões marcadas, um teclado suingado e um coro. Em seguida, os versos “Tome tento / Fique esperto / Hoje não tem papo” foram as boas-vindas de Céu, 45, na abertura do seu primeiro disco, homônimo, de 2005. De pronto, todos estavam atentos ao que tinha a dizer a cantora e compositora paulistana, que celebra vinte anos de carreira com turnê que passa por São Paulo na próxima sexta (23), na Audio.
Estava tudo anunciado nas primeiras notas daquele álbum, com as faixas Vinheta Quebrante e Lenda: tanto a raiz da música brasileira quanto os sons urbanos que a artista trouxe das ruas de Nova York na virada do milênio. “Às vezes, para a gente se entender como parte de algo que é muito nosso e amamos demais, a distância é importante, torna as coisas mais claras”, diz Céu, que viveu na metrópole americana por um ano, entre 1998 e 1999. Lá, ela se descobriu como artista. “Minha ideia sempre foi ser cantora. Mas a oportunidade de me jogar no mundo aos 18 anos, naquela cidade plural, me deu vontade de escrever. E voltei compositora.”
Além do gosto pelo jazz, soul e cancioneiro nacional, entrou pelos seus ouvidos toda a cultura latina e afro do bairro onde morava, o Lower East Side, em plena explosão do hip-hop. Essa mistura ecoa no álbum Céu (2005), lançado por Urban Jungle e Ambulante Discos e produzido por ela, ao lado de Antonio Pinto e Beto Villares.
Em 2007, foi lançado nos Estados Unidos pelo selo Starbucks Hear Music Debut — foi a primeira artista estrangeira a entrar no projeto —, em que os CDs podiam ser comprados nas próprias cafeterias da marca. Sucesso de vendas, a obra foi indicada ao Grammy como Melhor Álbum de World Music Contemporânea, em 2008.
“Nossa classe está colocada muito à margem. A música gera um PIB para o Brasil, um ativo, mas não é enxergada assim”
Desde então, foram outros oito discos lançados em uma trajetória coerente e diversa, incorporando texturas eletrônicas em projetos como Tropix (2016) e Apká! (2019) e aventurando-se como intérprete em Um Gosto de Sol (2021), antes de lançar sua criação mais soul, Novela (2024). O ano de 2025 marcou uma virada. “Tomei minha carreira muito na mão, saí do lugar só de artista”, explica a cantora, que montou seu próprio selo e editora, a Coral Music, e lançou em outubro a atual turnê, Céu 20 Anos.
O show passa por todo o repertório do álbum inaugural, além de algumas faixas pinçadas dos trabalhos posteriores. “Não é um olhar saudosista nem nostálgico, é sobre jogar luz na atualidade do disco. Tenho certeza de que, se ele fosse lançado hoje, seria muito contemporâneo”, diz Luiza Lian, diretora artística do espetáculo.
O momento de Céu é de abertura. “Meu trabalho é bastante disruptivo. Fui quebrando barreiras e, pela minha própria marra, era uma pessoa mais fechada. Hoje não, gosto de ouvir, da troca”, conta. “Isso tem a ver com uma coisa de idade e estrada, e com o meu feminino, mais receptivo. Ser o que estou a fim”, resume.
A maternidade ajudou a trazer essa clareza. “É importante, na luta das mulheres, tirar a romantização do que envolve ser mãe. Mas também não posso me calar sobre uma experiência real que vivi: a potência”, diz ela, que tem Rosa, 17, do relacionamento com o músico Gui Amabis, e Antonino, 7, com o produtor Pupillo, ex-baterista do Nação Zumbi. “Os filhos separam o joio do trigo. E vem a assertividade, o botão do f#d@-se, que eu não tinha quando mais nova”, completa.
A relação com a própria timidez também mudou. “É uma coisa que não se perde. Se a pessoa é tímida, ela trabalha isso. Fui aprendendo no palco, me transformei na troca com o público. Não tenho mais problema com isso.”
“A timidez é uma coisa que não se perde. Se a pessoa é tímida, ela trabalha isso. Aprendi no palco, me transformei na troca com o público.”
Céu cresceu na Vila Nova Conceição, em um ambiente de cultura: sua mãe, Carolina Whitaker, é artista plástica, e o pai, Edgard Poças, é compositor e maestro. Hoje, vive no Sumarezinho. A “mistura estranhíssima” do Bixiga é uma de suas paixões na capital paulista. E, na região da Avenida Paulista, são muitas as memórias no restaurante Spot, onde trabalhou por três anos como garçonete, em meio à produção do seu disco de estreia.
“São Paulo sempre foi o meu lugar. Gosto muito daqui, apesar de uma relação intensa. É como se a cidade tivesse tentáculos e puxasse a gente”, define. Seu refúgio são as águas de São Sebastião, no Litoral Norte. “Sou uma paulistana que ama o urbano, mas também a natureza. Gosto de mato e praia. O mar tem uma influência grande na minha obra.”
“É importante, na luta das mulheres, tirar a romantização do que envolve ser mãe. Mas também não posso me calar sobre uma experiência real que vivi: a potência”
Para compor, Céu recorre ao papel. “Escrevo à mão, tenho um zilhão de cadernos.” Sua inspiração pulsa mais forte quando está em movimento ou mergulhada nos processos criativos. Seu álbum mais recente, Novela, foi feito de forma analógica, gravado praticamente ao vivo e em fita. Era o desejo da cantora experimentar um modo de fazer mais humano em tempos de automatização. “A contemporaneidade é matéria criativa para a minha caneta. E, se você está um pouco antenado, vê que tudo vai mudar. Então, enquanto ainda posso, quero vivenciar o máximo de organicidade”, afirma.
O avanço da inteligência artificial nas etapas da produção musical causa preocupação. “Nossa classe está colocada muito à margem. A música gera um PIB para o Brasil, um ativo, mas não é enxergada assim. De repente, entra nesse ecossistema uma tecnologia em que, com o seu dedo, em um aplicativo, você resolve. Assusta”, comenta.
Mesmo assim, a cantora diz ter “um otimismo quase insuportável” e acreditar na força da criação. “A música da IA vai ser efetiva, mas não vai ser igual. Porque a arte tem um vínculo com a experiência humana.” Para ela, a dinâmica coletiva deve ser cultivada. “Tenho uma solidão forte dentro de mim, que acho que todo artista tem. Mas preciso muito sentir as pessoas que trabalham comigo, a ideia de comunidade mesmo”, diz, em defesa de trocas mais humanas, não como algo ultrapassado, mas como uma possibilidade contemporânea. “No Novela, tínhamos uma árvore que dava fruta naquele momento, e colhemos daquele jeito. O mundo está precisando dessa visão, não só na arte.”
HÁ 20 ANOS
O trunfo do disco Céu (2005), que o espalhou pelo mundo na primeira década deste século, foi a mescla muito bem azeitada entre o Brasil e a linguagem contemporânea do hip-hop, com seus samples e batidas. A isso se somam canções viciantes como Lenda e Malemolência e belas versões de Bob Marley, com Concrete Jungle, e de João Bosco, em Ronco da Cuíca. Tem-se, assim, um álbum que marcou época.
“Foi aquele frescor na música brasileira, ela tão jovem, com outra forma de escrever e uma abordagem sonora diferente, trazendo o DJ para a formação”, relembra Pupillo, que gravou bateria em algumas faixas do disco.
“Teve a influência de fora, mas ela não abriu mão dos elementos da música brasileira. Percussões, instrumentos de cordas e a relação forte com o hip-hop, tudo colocou o álbum em pé de igualdade com a música feita no mundo”, completa o produtor.
Com uma cena independente nacional não tão estruturada à época, os caminhos que o disco percorreu — por meio de selos fora do país, sem uma grande gravadora — deixaram uma trilha a ser seguida por outros artistas brasileiros nos anos posteriores, como Tulipa Ruiz.
A repercussão internacional logo no primeiro projeto também foi desafiadora. “Tive o privilégio de ter uma família musical que me deu toda a parte poética, mas o contorno das coisas eu descobri muito sozinha, me jogando. E de repente era tudo muito grande e novo”, recorda Céu. “Naquele primeiro momento, me assustei com a máquina da indústria. Mas não dei para trás.”
Para Luiza Lian, diretora artística do novo show de Céu, o disco foi uma influência direta: “Como mulher e compositora, foi uma grande inspiração para uma garota que estava começando a encontrar seu caminho na música”, conta. ■
Audio. Avenida Francisco Matarazzo, 694, Água Branca. Acess. Sex. (23), 22h45. R$ 108,00 a R$ 192,00. 18 anos. ticket360.com.br.
Publicado em VEJA São Paulo de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978





